Claustrofobia informacional e pandemia na ilha Tupinambarana

A intensidade da profusão de notícias sobre a pandemia de Convid-19 no Amazonas tem intensificado a sensação de sufocamento e ansiedade em Parintins (AM), cidade localizada numa ilha fluvial que não possui leitos de UTI e teve suas únicas formas de acesso interditadas

Por Marcelo Rodrigo
Professor adjunto do curso de Jornalismo no Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Parintins.

O bombardeio de informações na mídia global sobre a pandemia de covid-19 acaba gerando pânico nas pessoas em qualquer parte do mundo, mas parece ser ainda mais sufocante quando se vive em uma ilha fluvial no meio da floresta amazônica. No cenário de difusão da doença no Brasil, a forma como o município de Parintins (AM) figurou nas notícias de destaque nacional e ganhou repercussão em todos os veículos regionais e locais, conseguiu acentuar a preocupação dos habitantes parintinenses, chegando a estimular uma verdadeira sensação de claustrofobia informacional sobre a doença.  

Segunda maior cidade do Amazonas, distante 369 quilômetros da capital, Manaus, Parintins iniciou a mórbida contagem de vítimas fatais no Estado. O primeiro óbito, de um empresário de 49 anos bastante conhecido localmente, provocou o furor da população. Não é necessário nem comentar o impacto de uma notícia como essa em uma cidade do interior, correto? Os grupos de Whatsapp não pararam de replicar a foto do falecido com mensagens fúnebres e homenagens cibernéticas.

Como se não bastasse, Parintins apareceu novamente nos noticiários de todas as abrangências depois que um morador de rua da cidade, infectado com o novo coronavírus, fugiu do hospital onde estava internado, após um surto de abstinência de drogas, e seguiu pelas vias urbanas na garupa de uma mototaxi.

Paciente infectado fugindo de mototáxi. Créditos: Parintins Press/Reprodução

Horas depois, o homem foi capturado pela Polícia Militar e reconduzido ao hospital. Contudo, com a divulgação da notícia, a tensão se espalhou pelos lugares por onde o paciente transitou. A prefeitura até disponibilizou um caminhão-pipa para lavar ruas e calçadas que estiveram na rota do fugitivo. Mas o efeito psicológico do fato noticiado já tinha surtido efeito.

Outra propulsão frenética de notícias e compartilhamentos se deu após a ciência dos óbitos de médicos que atuavam localmente. As matérias uníssonas mencionando nomes de personalidades familiares e próximas se espalhavam como rastilho de pólvora nos portais locais e nas três únicas emissoras de rádio da cidade. Como no município não há emissoras afiliadas de TV nem jornais impressos, as redes sociais ganham ainda mais força.

As sensações de medo e ansiedade se ampliam à medida que são divulgadas também as notícias sobre as ações de enfrentamento à pandemia adotadas pelos poderes públicos estaduais e municipais. O uso de máscaras se tornou obrigatório e foi instituído toque de recolher, inicialmente, das 20h às 6h, depois ampliado, iniciando às 18h. Atualmente, começa às 15h.

Foi suspenso o trânsito aéreo e fluvial de passageiros. Únicas vias possíveis. E ao isolamento social voluntário somou-se o isolamento geográfico imposto. A única hipótese de saída da ilha tornou-se uma missão quase kamikase em relação à pandemia.

Só seria possível viajar com autorização da Vigilância Sanitária municipal e em grandes barcos de transporte de mercadorias, nos dias em que eles estivessem com carregamento suficiente para cumprir a rota. Ainda assim, seria preciso passar, no mínimo, 24 horas a bordo da embarcação, sem saber se as pessoas que ali estiveram foram infectadas ou não.

Porto interditado. Créditos: Parintins Press/Reprodução

Além dos notíciários sobre os números crescentes de contaminação, passaram a ganhar destaque no cotidiano dos moradores locais as matérias de denúncia política e administrativa, apontando as limitações da rede hospitalar municipal, que, ainda hoje, não possui um único leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Todos os casos graves precisam ser remetidos a Manaus – o que, na verdade, intensifica a preocupação dos familiares dos enfermos, já que a capital amazonense está entre as três do país com maior número de infectados e vítimas fatais.

Apesar de se ter clareza da ansiedade causada por essa claustrofobia informacional, como se percebe nos depoimentos compartilhados pelos demais habitantes da ilha em contatos cibernéticos, há que se questionar se o cumprimento das medidas de isolamento poderiam ser alcançadas de outras formas menos impactantes e exaustivas. Será que a gravidade da situação mundial seria percebida e assimilada com a devida seriedade caso fosse abordada pela mídia de forma mais amena e esporádica? A ansiedade e os demais sintomas da claustrofobia informacional são um preço justo a se pagar pela conscientização das pessoas?

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