O caso “Bel para Meninas” expõe riscos do uso da imagem infantil na internet

Polêmica  envolvendo cenas de maus tratos no canal da youtuber mirim mais popular da Internet brasileira suscita  questionamentos sobre um necessário um  limite ético para o trabalho de crianças em mídias sociais

Por Andreia Morais

Percebe-se, atualmente, um grande interesse em relação ao que seria a vida privada. Esse prazer ao observar o mundo particular de outras pessoas é alimentado por vídeos que aparecem cotidianamente na Internet, nos mais diferenciados idiomas. Dentre as plataformas que disponibilizam esse tipo de conteúdo, o Youtube é o protagonista maior. Segundo o centro de pesquisa Pew Research Center, em 2019, 51% de seus usuários visitaram o site diariamente. Em contrapartida, quem se aventura a ser youtuber, abre mão de grande parte de sua privacidade ao postar gravações sobre a sua intimidade. Tamanha exposição merece ser analisada, principalmente, quando se trata dos inúmeros perfis e canais estrelados por crianças em redes sociais e plataformas de vídeos.   

  Na última semana, fomos surpreendidos com polêmico debate envolvendo a relação da youtuber Isabel Peres Magdalena, mais conhecida como Bel, de 13 anos, com sua mãe, Francinete Peres, que também trabalha como produtora de conteúdo. Na noite do dia 19 de maio, assistimos atônitos à hashtag #SalvemBelParaMeninas entrar no trending topics do Twitter. Pessoas que acompanham o canal Bel para meninas dizem que Fran, como a mãe de Bel é conhecida, pressiona a garota para produzir vídeos para o canal que não condizem com sua idade. Além disso, Fran também é acusada de expor a filha em situações constrangedoras em troca de likes e seguidores.

 Lançado em 2013, o canal Bel para meninas já tem mais de 7,7 milhões de inscritos e mostra vídeos sobre o cotidiano da família, além de passeios, brincadeiras e teatrinho com a mãe. Além do canal, a garota tem alguns livros publicados e apareceu em programas de televisão como Encontro, de Fátima Bernardes. O suposto abuso, denunciado no Twitter, tomou ainda maiores proporções quando foi noticiado no programa Cidade Alerta, da TV Record . Segundo o jornalista Luiz Bacci, o conselho tutelar esteve na residência da família no dia 20 de maio. “A confirmação é que o conselho tutelar está agora no condomínio de luxo onde mora a família da Bel, daqui a pouco novos detalhes”, disse durante o programa.

Para além da questão se há ou não abuso na relação entre mãe e filha, cabe fazermos uma reflexão: existe um limite ético para a exposição de crianças em mídias sociais? Dentro dessa discussão, há ainda outro problema: a invasão da privacidade da criança pelos próprios pais. A ação de compartilhar cada passo dos filhos ganhou um termo, o sharenting, ou seja, a junção das palavras em inglês share, que significa compartilhar, com parenting, que significa parentalidade. Mesmo com a garantia constitucional de que é dever da família e do Estado o ato de colocar as crianças a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, ao se  expor a intimidade de uma criança em uma plataforma como o YouTube, passa a existir uma linha tênue entre o que é adequado ou não.

No canal Bel para meninas é possível observar a falta de adequação de determinados conteúdos: em um dos vídeos,  chamado desafio do smoothie challenge, mãe incentiva a garota a experimentar uma mistura de aspecto repulsivo. “Mãe, vou passar mal”, diz Bel, demonstrando ânsia. Rindo da situação, a mãe joga o conteúdo sobre a filha que vomita. Em outra publicação, chamada Bel sendo levada pela correnteza, de 2015, a menina aparece tentando escapar das ondas enquanto é filmada pelos pais em uma tentativa de mostrar os perigos do afogamento. Além desses episódios, há postagens em que a youtuber mirim aparece chorando devido a ter sido a última aluna a entregar a prova. 

O fato é que a exposição da intimidade da criança também oferece uma compensação financeira aos pais e à família. Segundo a página Youtubers.me, que analisa as estatísticas de canais ao redor do mundo, o canal Bel para meninas rendeu aproximadamente $ 9 mil dólares, em um único mês – o que equivale a mais de  R$ 40 mil reais. Levando-se em conta o retorno monetário adquirido com os views e likes, e de acordo com a legislação vigente, os vídeos produzidos por youtubers mirins podem, muitas vezes, ser caracterizados como trabalho infantil artístico, uma vez que envolve atividades de natureza artística. Acontece que mesmo esse tipo de trabalho encontra limites: cabe à Justiça comum autorizar o trabalho artístico para crianças e adolescentes em teatros, programas ou novelas produzidas por emissoras de rádio e televisão. Mas muito existe pouco ou quase nenhum dado que traga a discussão do trabalho realizado pela Internet. 

Atualmente, até uma criança pode ser produtora de conteúdo para milhares de pessoas, o que configura um ganho para uma coletividade em que, em outros tempos, tinha uma comunicação verticalizada. Entretanto, a rotina que canais do YouTube impõe e a possibilidade de lucro advindos dessa atividade apresentam similaridades a um trabalho formal e regular.  Observa-se uma mistura das práticas infantis junto às obrigações e preocupações de um adulto. O que, muitas vezes, começou como uma brincadeira de criança encaminhou-se para a profissionalização. 

O polêmico debate da última semana envolvendo a relação da jovem youtuber Bel com sua mãe suscita  questionamentos sobre um necessário um  limite ético para a obtenção de lucro com a exposição de crianças em mídias sociais. Questionados, os pais de Bel afirmaram em vídeo publicado em 25 de maio que “do dia para noite viram suas vidas despencar”. No mesmo dia, os vídeos da conta foram retirados. É importante ressaltar que, como sociedade, estamos longe de uma solução para prevenir os riscos do uso da imagem de menores em vídeos como os de Bel. Ao mesmo tempo, essas crianças são parte importante do meio cultural e social e muitas delas possuem talento. Talvez, desenvolver leis específicas e implementar uma maior fiscalização sejam a saída para que o bem estar da criança seja preservado e não a extinção desse tipo de iniciativa.

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