Please officer, I can’t breathe!

Morte de homem negro após truculenta imobilização policial em Minneapolis, Estados Unidos, colocou à mostra a crescente opressão racial para olhos que ainda não enxergavam esse histórico problema. O tempo passa e o povo preto ainda não consegue respirar

Por Gabriel Bezerra

Uma câmera de um telefone celular. Esse instrumento desencadeou uma das maiores e mais históricas manifestações pelos direitos civis dos negros do século XXI, atingindo vários outros países como Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Suíça. George Floyd, um afro-americano de 46 anos que trabalhava como caminhoneiro e como segurança na cidade de Minneapolis, no estado americano do Minessota, foi detido por policiais após um supermercado da zona central da cidade reportar uma denúncia contra ele, alegando que o homem havia tentado comprar um maço de cigarros usando uma cédula falsa.

    Após ter resistido à voz de prisão feita pelos oficiais Derek Chauvin e Thomas Lane, ambos brancos, Floyd foi então jogado ao chão. Chauvin,  44 anos – 18 deles de como policial em Minneapolis, assim como 18 denúncias de abuso de autoridade e truculência em seu currículo -, ajoelhou sobre o pescoço de Floyd, já rendido, durante no mínimo sete minutos. Como consequência, o afro-americano perdeu os sentidos e morreu asfixiado no asfalto, não sem antes implorar pela sua vida aos policiais, e dizer para um público a sua volta que não desejaria morrer. Todo o sádico espetáculo policial foi gravado e logo o vídeo foi o mais comentado e compartilhado nas redes sociais, gerando protestos, críticas, e uma indagação entre todas as pessoas, negras ou não, sobre se o racismo ainda é algo presente apenas nos livros de história e em antigas construções, onde o sangue de escravos ainda tinge as suas paredes, relembrando um passado de dor, sofrimento e opressão.

   George Floyd deixou dois filhos, de 6 e 22 anos, e uma esposa, porém o seu maior legado foi uma histórica manifestação global, principalmente no mundo virtual, onde personalidades, corporações e ativistas se posicionaram diante o preconceito racial.

    Nas redes sociais, hashtags e vídeos acerca do ocorrido inundaram todas as plataformas, mobilizando grande parte dos seus usuários em um discurso contra o policiamento seletivo e o racismo estonteante na cultura norte-americana. Nos Estados Unidos, milhões de pessoas foram às ruas pedir por mais respeito e pelo direito à vida do povo negro. Tais manifestações em grande escala não ocorriam desde os anos 1960, quando o pastor Martin Luther King Jr. era notícia em todo o país, após movimentar um milhão de pessoas em Washington DC e clamar para todo o mundo que ele e todo o povo negro “tinha um sonho.” 

   Quase sessenta depois, o seu povo retornou para Washington D.C para pedir por esse sonho ainda não esquecido e, pela primeira vez em toda a sua história, a Casa Branca, residência oficial do presidente da maior potência-nação do globo terrestre, apagou as suas luzes diante de um povo que deseja mostrar o brilho da sua indignação e do orgulho da sua cor.

   Os veículos de comunicação proporcionaram uma cobertura rápida e eficiente dos protestos em todo o território norte-americano, sejam eles pacíficos ou não, e entre uma dessas coberturas, um caso acarretou novas polêmicas acerca do preconceito racial. O repórter da Rede CNN Omar Jimenez foi preso durante uma transmissão ao vivo durante uma manifestação em Minneapolis na quinta-feira, 28 de maio. Curioso ou não, o repórter era afrodescendente. Por que dentre tantos profissionais nas ruas da cidade cobrindo as manifestações, logo um jornalista negro foi detido pela polícia? E qual delito Omar havia cometido? Nitidamente, não só a polícia da cidade é extremamente preconceituosa e despreparada, como o próprio país ainda guarda em sua tradição a sobreposição das raças, algo que, mesmo após 155 anos da abolição da escravatura no território norte-americano, permanece em sua sociedade, asfixiando todo um povo e toda uma cultura transposta da África para as correntes e para a violência que parece não ter fim.  

   No Brasil, país também marcado pelo passado escravocrata, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as mortes cometidas pela polícia do estado de São Paulo durante o mês de janeiro e abril deste ano cresceram em 31% em comparação ao mesmo período do ano passado. Dois entre três destes mortos são pessoas negras.

   João Pedro, Agatha, novos nomes e novas mortes de jovens negros causados pela polícia aparecem em quase todas as semanas nos grandes noticiários, mas por que nenhuma dessas mortes ocasionou manifestações do tamanho das ocorridas no Estados Unidos nas últimas semanas? 

   O povo brasileiro até no que se refere a indignações precisa se espelhar nos norte-americanos, a população grita por um dia “vida aos negros”, enquanto durante todo o ano corpos de pessoas negras caem em nossas calçadas e todos permanecem calados.

      A cada dia que se passa, a violência policial se torna um fator presente no cotidiano brasiliense, em Planaltina, a oito mil quilômetros de Minneapolis, local onde George Floyd foi friamente morto pela polícia, o vendedor ambulante Weliton Luís, de 30 anos, foi espancado por policiais militares após sair de um supermercado na madrugada do dia 1 de Junho, assim como o caso de Floyd, todo o acontecimento foi gravado por cinegrafistas amadores.

    “Me trataram como um bicho, achei que iria morrer. Só era eu negro ali, se fosse um playboy do olho azul não teriam feito o que fizeram comigo.”, contou Weliton em entrevista cedida ao portal de comunicação UOL Brasília no último dia 03 de Junho.

  Tal acontecimento não é um caso à parte. Infelizmente, todos os negros, e principalmente jovens das periferias do Distrito Federal têm consigo uma história parecida para relatar, algo que é bastante diferente das regiões mais abastadas da capital federal, onde os jovens  majoritariamente brancos, somente conhecem a truculência policial quando elas aparecem em suas TV’s de LED ou na tela dos seus smartphones.     O racismo não irá acabar após as manifestações dos últimos dias, o preconceito não irá se extinguir após um último sangue de um corpo preto ser derramado, mas eternamente imploraremos pelo nosso direito à vida, e pelo nosso direito de poder enfim, respirar.

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