Na ausência do jornalismo, a dependência da informação oficial e a desinformação da infodemia

Coronavírus “demora” para chegar no Oeste baiano. Santa Maria da Vitória ainda tem poucos casos de Covid-19, mas faltam veículos de comunicação para cobrir o assunto

Por Fernanda Vasques Ferreira
*Doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), jornalista, professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Coordena projetos de pesquisa na área de Comunicação e Saúde com o apoio do CNPq

Santa Maria da Vitória, cidade do Oeste da Bahia, território da Bacia do Rio Corrente. Há quatro anos uma cidade demasiado pacata, com economia tímida. Quando aqui cheguei em julho de 2016, era quase impossível “pagar com débito”. Na cidade, quatro agências bancárias: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Bradesco. E eu, correntista de outro banco, rapidamente tive que me readaptar. Para alugar um imóvel, bastava uma conversa com o proprietário e ele “sentir” que você pagaria o aluguel pontualmente. Meus pés pisaram as ruas de pedra de Samavi – como é conhecida popularmente – em maio de 2016, quando me aventurei a conhecer o lugar que passaria a ser o meu refúgio e a minha cidade meses e anos depois. O motivo? Minha convocação para o concurso público da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Quando a gente vem para Samavi ninguém entrega um manual de instrução de sobrevivência e nem sequer sabemos como funciona uma universidade pública interiorizada na cidade. Mas eu que nunca me furtei, vim. Cheguei de “mala e cuia”. Em 19 de julho de 2016 eu entrava em exercício e um caminhão estacionava em frente à casa da beira do rio para trazer os móveis, as histórias, os livros, uma parte, um recorte da minha história nos objetos que acumulei ao longo da vida. Eu não preciso dizer que foi uma mudança estrutural. Eu vinha de Brasília, cidade onde vivi onze anos bem vividos da vida. Brasília, a capital Constituinte e constituidora. 

Nem de longe, o que escrevo aqui é uma verdade inconteste. Esse texto é só um registro das lentes de onde olho e do lugar que como jornalista me cabe. A cidade que tem como principal atividade o comércio é também o lugar do rio Corrente que desemboca no São Francisco; é a cena cultural de escritores como Osório Alves de Castro, do mestre Guarani das carrancas famosas pelas quais me apaixonei quando o foca Lucas Lélis na revista-laboratório Jenipapo as retratou. É a Santa Maria da Vitória do incansável, apaixonado, professor e artista plástico Jairo Rodrigues e de Jurandi Assis. E é nesse contexto de aprendizado e encantamento que Samavi se desenvolve, se reinventa, entra em confronto com a vinda da UFOB, descura seus limites, véus e liturgias e conflita com a dura realidade da pandemia da Covid-19. 

Uma cidade do interior do Oeste baiano. O lugar onde as pessoas se conhecem pelo apelido se tornou, pouco a pouco, uma cidade como as outras em que pessoas compartilham textos, áudios e vídeos pelo então, e principal, meio de comunicação da cidade: o WhatsApp. A discrepância do parco acesso à internet e a dispositivos tecnológicos cedeu lugar para o protagonismo das lives da prefeitura municipal para “informar” os cidadãos santa-marienses sobre a doença global que, como a universidade, se interioriza pouco a pouco e, de repente, rapidamente, no Brasil.

Créditos: Louis Popov

Quando por aqui ainda não se falava muito em pandemia e coronavírus, a nossa universidade suspendeu as aulas em 18 de março. Nossa maior preocupação: nossos estudantes distantes de suas famílias; nossos colegas, inclusive eu, distantes de familiares; e, destes, muitos em grupos de risco. Não havia alarde. Mas eu, leitora assídua, impactada por uma suspeita recente de Covid-19 na família, sabia bem que a história iria render e que ninguém – em nenhum lugar do mundo – estaria imune à doença. 

Nos grupos de WhatsApp, mensagens sem qualquer fundamentação circulavam e circulam sobre a teoria conspiratória de que o vírus teria sido criado em laboratório chinês, de que tratamentos naturais poderiam combater a doença, de que uma tal de cloroquina – defendida por um dos que mais propaga informações falsas no país – poderia curar a Covid-19, mesmo sem qualquer comprovação científica e com reiterados estudos que rechaçam essa informação. Junto dessas mensagens, o comentário de populares rogando a Deus que esse vírus não chegasse até aqui e pedindo proteção à Santa Maria da Vitória. A ciência já era implacável nesse momento. Por sermos de grupo de risco, decretamos nosso próprio lockdown. Mas a cidade seguia como se nada efetivamente importante estivesse acontecendo. As aulas nas escolas municipais foram suspensas por 30 dias em 17 de março. Ao mesmo tempo que o decreto municipal era otimista, revelava que a gestão não tinha pertença ainda do que vinha a ser a Covid-19. Tudo era muito fluido e não havia certeza sobre nada. Sai decreto. Fecha o comércio. O comércio pressiona.  Abre o comércio. Flexibiliza o isolamento social. Reduz o funcionamento de algumas atividades. Estabelece-se o que é atividade essencial. Gente que torce o nariz para o prefeito. Gente que torce o nariz para quem defende o isolamento social. Gente que defende que “essa doença não há de chegar” aqui. Enquanto isso, carros de som circulam na cidade para orientar sobre as práticas de prevenção à Covid-19. Algumas rádios locais reproduzem o assunto e entrevistam autoridades, mas ninguém sabe muito bem os limites e a extensão da doença. E, novamente, rogam a Deus que Santa Maria da Vitória fique protegida do famigerado vírus que atinge o mundo. 

Quem está lendo meu texto já deve ter percebido que não temos um jornal ou site que repercuta as notícias locais, não sobre esse assunto complexo e que toca a vida de todos nós. A informação fica a cargo das redes sociais do prefeito e da prefeitura; dos grupos de WhatsApp e a checagem das informações depende de “a gente conhecer alguém que conhece alguém”. No início da pandemia, a cidade contava com quatro respiradores, um no hospital municipal, um no Samu e dois na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Até o momento, tivemos, oficialmente, dois casos de Covid-19: uma pessoa que veio de fora, mas reside aqui, e um vendedor cearense – mais conhecido por mascate – que chegou na cidade passando mal, ficou em estado grave e foi à óbito. Há um terceiro caso que não figura nos boletins epidemiológicos do município – um médico que atendeu o mascate no hospital da cidade e, que hoje, em Vitória da Conquista, apresenta quadro de saúde gravíssimo. Ele não está nos registros de Samavi porque, embora seja médico e atenda no hospital da cidade, mora em Bom Jesus da Lapa, cidade há 90 quilômetros daqui.  Não sabemos como foi contaminado, mas a contaminação de um profissional de saúde acende o sinal de alerta máximo para, pelo menos, as cidades onde ele atua. Sabemos que é mais um dos profissionais na linha de frente de combate abatido pelo novo coronavírus. Isso é o que temos de informação oficial. Nas redes informais de comunicação circulam que mais três ou quatro profissionais do hospital que tiveram contato com o médico testaram positivo para Covid-19 no teste rápido. Enquanto isso, profissionais de saúde atuam como podem, com parcos recursos de EPIs, com a esperança nos olhos e o coração valente na crença e na luta para salvar vidas. É uma reinvenção. Cada profissional “dá o jeito que pode e consegue dar”. Há promessas de um hospital de campanha aqui. Mas antes de o hospital de campanha chegar, existem outros vírus a serem combatidos: o do pânico pelo pânico, o do preconceito por quem é contaminado; o da desinformação; o das fake news sobre a Covid-19; o da negligência à doença; das práticas de “prevenção” que colocam na conta de Deus a responsabilidade pelo vírus aqui chegar; o vírus que insiste em dizer que a economia vai parar se adotarmos medidas para preservação das vidas. São muitos combates antes do combate propriamente ao vírus.

Santa Maria da Vitória, a cidade da imagem da passarela, um quase cenário europeu, ainda não conheceu a pandemia de perto. Sorte? Deus? Políticas de prevenção municipais? Sem querer arriscar uma resposta ou simplificar o contexto que é demasiado complexo, Samavi é a cidade que parou parcialmente, em que os moradores discutem a ideologia da preservação da vida versus a ideologia da morte, que insistem em achar que a doença aqui não há de chegar. Justiça seja feita, há os que preservam suas vidas incondicionalmente e não se ancoram em discursos irrelevantes e negacionistas. As medidas básicas foram indicadas pelos decretos municipais como sendo medidas de contenção e prevenção ao coronavírus, mas há algo implacável que começa a tocar o oeste baiano: a contaminação comunitária. As cidades vizinhas começam a ter dois, seis, dez, vinte, vinte e seis e … numa perspectiva de progressão geométrica, os números começam a assustar, a galopar na curva de contaminação e a solapar a vida das pessoas. Santa Maria da Vitória que depende das informações oficiais da prefeitura aguarda avisada ou desavisadamente pela pandemia que, até o momento em que escrevo esse texto, já registrou, no Brasil, mais de 560 mil contaminados e 31,5 mil mortes. Já é quase uma Samavi inteira que foi aplacada anonimamente pelo vírus. Pessoas que viraram números mas que guardam histórias de vida. Esses que já partiram, distantes de  nós, um dia poderão ser qualquer um dos que aqui estão. Enquanto isso, os templos religiosos são reabertos em Samavi e Brasil afora e aquele eleito para ocupar o cargo mais relevante na estrutura formal política do país se suja na lama da indiferença e nas mentiras patológicas em que acredita e faz tantos outros acreditarem, por conveniência ou não. Distante dos centros urbanos, políticos, comerciais, eu jamais poderia negar aquilo que me fez ser o que sou e reconhecer que nunca antes o jornalismo foi tão reclamado pela inexorável necessidade de existir e resistir. Um salve a Samavi. Saúde, com fé, com ciência, com responsabilidade e com votos de uma comunicação mais direta, horizontal, pautada pelos preceitos éticos do jornalismo. 

Enquanto escrevia o texto, enviei uma mensagem direta ao prefeito. Isso passa, necessariamente, pela ausência do jornalismo. O prefeito retornou a minha mensagem e atualizou a informação de que a cidade, que outrora contava com quatro respiradores, agora conta com oito desses equipamentos. O prefeito também negou que outros profissionais de saúde tivessem sido contaminados. E, é nesse contexto que eu reforço o quanto o jornalismo balizado pelos ideais democráticos, pela ética e pelo princípio da apuração e checagem faz falta. Faz muita falta. Samavi sente na pele a ausência do jornalismo, a dependência da informação oficial e a desinformação da infodemia.

*Créditos da foto em destaque: Maiara Luz

Um comentário sobre “Na ausência do jornalismo, a dependência da informação oficial e a desinformação da infodemia

  1. K. N. S disse:

    Parabéns pelo texto e registro da história pandemia da cidade (assim dizer parte 01). Um lamento baiano, que será sentido e contado por gerações. Continue registrando estas memórias, pois fazem parte da história da cidade. Sugiro registro de imagens marcantes para o período.
    Abraço e boa sorte!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s