Influência digital ressignificada

Cada vez mais público cobra posicionamentos e conteúdos empáticos e de qualidade por partes das pessoas que produzem material para as redes sociais

Por Geovana Melo

Os influenciadores digitais estão produzindo uma gama intensa de material durante o período de auto-isolamento provocado pela pandemia da covid-19. Com um grande número de pessoas em casa, a internet e os conteúdos advindos dela ganham destaque. No entanto, além de notoriedade, os influenciadores ganham responsabilidades e seguem formando  opinião. Todavia, agora há uma outra imposição por parte do público, que vai além das plataformas: o posicionamento. 

Acompanhar a vida e os trabalhos de indivíduos já é uma prática antiga, mas que foi sofrendo mutações de plataforma ao longo dos anos. No início da internet, os primeiros influenciadores digitais escreviam para blogs e eram chamados de blogueiros. Com o tempo, as pessoas migraram ou uniram o blog às redes sociais e, hoje, grande parte dos criadores de conteúdo se concentram no Twitter, no YouTube, no Instagram e no TikTok.

Outro fator que se transformou com o passar dos anos é a exigência do público. As pessoas estão mais críticas sobre as temáticas que chegam até elas e como esses assuntos chegam. Tour pelo closet, vídeo de comprinhas, tutoriais de maquiagens, tutoriais de jogos, entre outros, não agregam tanto se o influencer não se posicionar de forma “politicamente correta”. Afinal, criadores de conteúdo também são formadores de opinião. 

Como consequência das cobranças por parte dos espectadores, a influenciadora fitness Gabriela Pugliesi foi “cancelada” após fazer uma festa em casa com alguns amigos, em abril, no meio a pandemia. Entre os convidados, estavam a blogueira Mari Saad e a ex-BBB Mari Gonzalez, com o marido Jonas H Sulzbach. Pelo Instagram, Pugliesi publicou várias fotos com os convidados em seus  stories e gravou um vídeo em que gritava: “foda-se a vida”.  Logo após repercutir as imagens, ela as apagou. Contudo, os espectadores se sentiram ofendidos e a musa fitness perdeu milhares de seguidores e mais de dez contratos com marcas parceiras. Após todo o impacto negativo da festinha, ela desativou o Instagram. 

A blogueira Mari Saad também desapareceu das redes sociais após participar do evento da amiga em plena quarentena. Durante duas semanas, desde a festa, a maquiadora não produziu conteúdo. No entanto, pediu desculpas pelo Instagram. “Senti muita dor, porque fui muito julgada, nunca tinha passado por isso. Senti bastante vergonha pela minha atitude”, admitiu ela, em vídeo. Indo contra a corrente, Mari Gonzalez, que na época tinha acabado de sair do Big Brother Brasil 2020, preferiu não se pronunciar acerca do ocorrido e também foi julgada pelos internautas. 

A edição do BBB de 2020 foi outro divisor de águas para mostrar as cobranças do público em relação aos influenciadores. Dessa vez, o programa reuniu na casa pessoas famosas e anônimas. Muitas vezes, o reality foi um dos assuntos mais comentados no Twitter, ora por algum acontecimento legal, ora por deslizes “morais” dos participantes, que não agradavam ao público. Atitudes machistas e racistas, diálogos sobre zoofilia, assédios e outros comportamentos negativos cometidos por quem estava ali para influenciar. A princípio, no início do BBB, tudo indicava que um dos participantes conhecidos fosse ganhar o reality, por já ter um público formado aqui fora. No entanto,  o jogo virou e foi possível ver que o mundo de perfeições promovido pela internet não fazia jus à realidade. Lá, estavam todos os participantes no mesmo barco.

A cobrança por posicionamentos não é uma atitude recente. Em 2018, a cantora Anitta foi pressionada e cobrada a assumir uma opinião durante as eleições. A falta de uma colocação política da cantora, repercutiu por muito tempo. No mês passado, durante uma live com a apresentadora Gabriela Prioli, a artista afirmou que não tinha se manifestado na época, pois não entendia muito de política. Desde então, Anitta vem se posicionando acerca de diversos assuntos político-sociais. Situação parecida aconteceu com o youtuber Felipe Neto que, anos atrás, fazia comentários preconceituosos e equivocados no canal dele e, por isso, era duramente criticado. Entretanto, nos últimos anos, ele se mostrou uma pessoa completamente diferente e passou a atuar em várias causas sociais. Ambos integram o nicho dos influenciadores “descancelados”. 

Assim, percebe-se que, cada vez mais, o público busca por um conteúdo que mostre representação. Reflexo disso, os comunicadores digitais usam a internet para levantar discussões e bandeiras, que nem sempre estiveram em voga promovendo um maior debate acerca dessas pautas. Com isso, percebe-se que é um momento de reinvenção e de adaptação dos influenciadores digitais, que estão com mais cobranças e responsabilidades.

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