Para noticiar números da covid em Ceilândia, é necessário entender quais os distanciamentos da população

O jornalismo precisou se tornar ainda mais rápido em meio à pandemia e às mudanças emergenciais provocadas por ela, mas não pode esquecer de olhar para toda a realidade histórica para entender o que está acontecendo agora 

Por Alan Rios
Jornalista da editoria de Cidades do Correio Braziliense

Analisar a realidade atual sem conhecer o passado deixa vácuos em qualquer tipo de observação. Isso se torna ainda mais necessário para entender o contexto da pandemia em Ceilândia, Região Administrativa do Distrito Federal com mais casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus, 3.593, e mais mortes em decorrência da doença, 81. Os números mais atualizados da Secretaria de Saúde não dizem respeito somente às tragédias epidêmicas de 2020 no país. Antes de tudo, é preciso lembrar cada característica que forma a cidade e a população desse local. A história do surgimento de Ceilândia é tão importante para refletir sobre os preocupantes dados da covid-19 na RA quanto o fato de que a região é a mais populosa do DF, com 432.927 habitantes, segundo a Companhia de Planejamento (Codeplan) — são 200 mil pessoas a mais do que a segunda cidade mais ocupada, Samambaia.

“CEI” é uma sigla carregada com orgulho por moradores, e está presente em camisetas, bonés e grafites que dão vida aos muros da região exaltando a história dentro das três letras. Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) foi um nome afável para um projeto que tinha como objetivo erradicar as favelas próximas ao Plano Piloto, mas sem se preocupar muito com a qualidade de vida de quem foi levado para longe do principal centro econômico da nova capital. Desde então, CEI virou sinônimo de luta, persistência e batalha, porque tudo é mais difícil para quem é jogado para longe e muitas vezes precisa caminhar o dobro para chegar ao básico. “Assim, essa população favelada se distanciaria e também as parcas possibilidades de melhoria de qualidade de vida dela”, escreveu, em artigo, o professor Tony Marcelo Gomes, doutorando em Geografia. 

Créditos: Cedoc/CorreioBraziliense

A própria linha do tempo do avanço do coronavírus na capital também precisa se cruzar com essas análises. De início, apenas quem havia realizado viagens internacionais poderia se encaixar como caso suspeito de covid-19. Em 26 de fevereiro, eu e a repórter Mariana Machado escrevemos para o Correio Braziliense: “A quarta-feira de cinzas começou com a sombra de uma doença perigosa em Brasília. Quatro pacientes foram internados em hospitais das redes pública e privada do Distrito Federal com suspeita de coronavírus”. A notícia publicada no jornal impresso do dia seguinte mostrava os detalhes de cada caso, informando que uma pessoa havia retornado da Austrália, outra estava na Espanha e duas tinham chegado ao DF depois de um período na Itália. Todos foram atendidos em hospitais do Plano Piloto. Suspeitas de covid-19 passaram a perder espaço nas manchetes para confirmações de infecção em apenas uma semana, quando Brasília teve o primeiro registro da doença. Em 23 de março, o primeiro óbito na capital. Três dias depois, o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde passava a segmentar os caso por região e mostra uma infecção de morador de Ceilândia e 50 contaminações de moradores do Plano Piloto.

Especialistas comentavam em entrevistas que aquela era uma doença elitista, já que atingia mais a parte da população com maior poder aquisitivo. Cabe lembrar que o hospital preparado para ser referência no tratamento fica na Asa Norte. A efeito de comparação, em 2018 o rendimento per capita era de R$ 6.749,79 para habitantes do Plano Piloto e R$ 1.125,06 para quem morava em Ceilândia, uma diferença de quase seis vezes. Então como aquele cenário de três meses atrás se transformou na realidade de hoje, em que a Região Administrativa mais carente de recursos acaba sendo a mais impactada pela infecção? Esse questionamento precisa ser o norte de cada produção jornalística atual que tenha como objetivo noticiar o avanço do coronavírus em Ceilândia, o que nem sempre ocorre. Quando veículos de comunicação relacionam a cidade e a covid-19, é mais habitual que se noticiem quedas das taxas de isolamento social, o grande fluxo de pessoas pelas ruas e a falta ou o uso incorreto de máscaras de proteção. Todos esses fatores contribuem de forma significativa para a disseminação e letalidade da doença na cidade, mas são apenas alguns dos fragmentos do quebra-cabeça de uma pandemia complexa. 

A realidade dos moradores de Ceilândia envolve mais do que o senso comum errôneo que classifica o caos do coronavírus da região como irresponsabilidade dos moradores. A responsabilidade desse problema, inclusive, começa na ação de distanciar a população do centro da capital sem a preocupação do desenvolvimento dessa área, algo que surge antes mesmo da inauguração de Brasília. Nota-se que até os dias atuais essa questão continua sendo uma dificuldade. Prova disso é que 25,1% dos moradores de Ceilândia precisam ir diariamente ao Plano Piloto para trabalhar e garantir a renda da família, cerca de 30 km de distância de casa. É preciso pensar nesse trajeto. A mesma pesquisa, da Codeplan, mostra que 49,2% dos trabalhadores utilizam o transporte público para o deslocamento. Não é preciso muito esforço para perceber que ônibus e vagões de metrô concentram mais pessoas por dia do que aquelas filmadas e fotografadas pelos veículos de comunicação em descumprimento do isolamento sem motivo aparente, como as adeptas ao tradicional dominó jogado nas mesas de frente à Feira Central. 

Créditos: Arquivo público

Quantas horas por semana o morador de Ceilândia deve passar dentro de um transporte público que não consegue tornar efetivo o distanciamento de dois metros entre cada passageiro, a higienização correta do coletivo e a garantia do manuseamento correto de máscaras e etiquetas respiratórias de quem está ali dentro? Embora não seja fácil de se obter, a resposta desta pergunta poderia pautar a imprensa de forma mais relevante do que a simples divulgação de casos confirmados e mortes da doença. Nesse momento, se torna ainda mais importante dar voz a quem passa por essas situações de maior exposição ao vírus. Merece os primeiros parágrafos do texto, ou até o abre, a figura do personagem que dirá ao repórter o tempo que passa, aflito, em ônibus lotados só para retornar à casa. 

 Outra peça importante da composição do debate é qual é o tipo de ocupação daqueles moradores que possuem empregos fixos. A área de Serviços — que contempla atividades domésticas, de transporte e outras — ocupa 64,2% dos habitantes de Ceilândia, que trabalham com contato com mais pessoas e acabam sendo mais expostas às diversas contaminações. Em tempos de home office para muitas categorias, esses serviços não podem ser contemplados e acabam sem o direito básico à segurança. É a mesma situação de trabalhadores informais, que enfrentam dificuldades para conseguir auxílios emergenciais e precisam sair de casa e se arriscar na rua para ter o sustento em meio à crise. Neste tema, pode-se pontuar o conflito entre parte da população e os veículos de comunicação, que são atacados por reforçar a importância do distanciamento social. A mídia acaba sendo criticada por dar voz aos especialistas e o combate é incentivado por figuras de destaque, como o presidente da República, embora seja do Estado a obrigação de garantir que, em um momento de pandemia, o povo fique seguro e não precise se arriscar por conta de dificuldades financeiras. Cabe também ressaltar a atitude de Jair Messias Bolsonaro (sem partido) em 29 de março, quando ele fez passeios por Ceilândia e provocou aglomerações. Na ocasião, o presidente chegou a escrever no Twitter: “A imprensa diz que está nas ruas porque precisa trabalhar, mas e o povo?”, seis dias após ele mesmo editar decreto que considerou a imprensa como atividade essencial. 

Assim, surge ainda a problemática da qualidade da informação que chega às populações de longe do centro do poder. Com menos oportunidades de estudo, menos tempo para ler e menos contato com pólos culturais do DF, fica mais suscetível que esses moradores sejam influenciados por dados sem fontes e afirmações sem embasamento. O WhatsApp era encarado como vilão da imprensa, que percebeu que a melhor forma de enfrentamento é levar para essa plataforma as notícias de qualidade, com ações como o compartilhamento de matérias por listas de transmissão, feito hoje pelo Correio Braziliense, Metrópoles e outros grandes veículos. Outro grande passo foi optar por expor as inverdades que ganham as redes ao invés de ignorá-las. Foi assim que surgiu o Holofote, primeiro núcleo de checagem de fatos do Distrito Federal. Criado pelo Correio, o canal de comunicação passou a analisar mensagens que circulam pela internet e atingem vários leitores, mostrando o que é fato e o que não é, com o embasamento de pesquisas e fontes oficiais, como diversos outros serviços de checagem que trabalham em prol da mesma causa no país. Esses são acertos que se transformam em sucesso devido à compreensão da realidade da população, que precisa ser cada vez mais pensada. 

Sabemos também que o novo coronavírus é mais letal a quem tem doenças preexistentes, então é preciso relembrar com dados, memórias e entrevistas com fontes da saúde todas aquelas mazelas enfrentadas pela população, que historicamente reclama da falta de exames em hospitais, do alto preço de medicamentos e das dificuldades em manter uma vida saudável. Como exemplo, a infecção de uma pessoa que não sabe que tem diabetes, por não ter fácil acesso aos sistema de saúde, será inevitavelmente mais grave do que a contaminação de alguém que pode se consultar e realizar exames anualmente.  

Créditos: Arquivo público

Tudo isso torna a exposição fria de números da covid-19 em cidades algo vago, ainda mais em Ceilândia, região que abriga tanta vida, movimentos e histórias de batalhas.  Porém, é tarefa difícil para a imprensa montar um quadro completo da situação da covid-19 na RA sem deixar de fora qualquer observação pertinente ao assunto. Devemos lembrar que o contexto atual é extremamente novo e dinâmico, fazendo com que muito aprendizado vá se construindo e se transformando durante o processo do fazer jornalístico. Como repórter de Cidades, produzi mais de 70 matérias que tinham relação direta com o coronavírus em pouco mais de dois meses, e lembro que até mesmo as falas de especialistas foram se alterando com o tempo. Usar máscaras passou de uma “bobagem”, como disse certa vez um infectologista em entrevista, para uma obrigação essencial. “Temos que continuar a viver normalmente” acabou sendo dissipado e até o “normal” foi modificado. Mas não podemos considerar aspas de março como um erro em junho, pois devemos retornar à ideia de que é necessário conhecer o passado para olhar para o presente. 

Outra dificuldade de cobertura é o caráter instantâneo das notícias. O jornalismo ágil do século XXI se aliou à rapidez de novos dados, novas recomendações e novos decretos no DF. A capital teve destaque nacional em relação às medidas governamentais adotadas desde o princípio da pandemia, com fechamento de escolas, bares, restaurantes e diversos estabelecimentos, além da suspensão de eventos. Estes decretos foram se atualizando quase semanalmente, tornando ainda maior a necessidade de prestar informações de qualidade e de forma célere, pois elas impactam de forma direta o dia a dia da população. Apesar da publicação de determinações públicas emergenciais em todo o país, o Google Trends aponta que o Distrito Federal foi, proporcionalmente, a unidade da federação que mais pesquisou o termo “decreto”, o que mostra a busca dos moradores por notícias relacionadas às medidas do governo. Em uma situação emergencial como a atual, cenários importantes podem se alterar de um dia para o outro, tornando a necessidade da velocidade da informação algo essencial.

Tem-se ainda a separação entre o jornalista e aquele campo primordial da atividade de apuração, a rua. Com a recomendação precisa do isolamento, foram diminuídas drasticamente as pautas que exigiam o deslocamento, tornando mais distante a relação entre a população de Ceilândia com repórteres, produtores, fotógrafos, cinegrafistas e afins. Antes mesmo da pandemia, já existia o distanciamento físico e palpável, pois as principais redações do DF ficam longe da região, pela proximidade com os Poderes, algo de certa forma simbólico. Há agora a dificuldade de saber o que pensam os moradores da cidade com mais casos de coronavírus, como é a rotina deles e quais as lacunas sociais que intensificam os danos da doença. 

Créditos: Rivas Alves

Surgem então as alternativas digitais, com ferramentas amplamente utilizadas nesta pandemia e que se mostram boas formas de minimizar os impactos do chamado “novo normal”. Este pode ser um momento em que o jornalismo se transforme, assim como tantas outras áreas vêm se modificando. Primeiro, talvez, do ponto de vista individual de cada comunicador, que se vê com o dobro de dificuldades e com a necessidade de entregar o dobro de material, luta vencida diariamente. Também podemos citar a maior valorização da imprensa em relação à ciência, tão essencial em momentos em que a imprecisão e a inverdade alcançam tantas pessoas. Estudos, artigos, pesquisas e afins podem ganhar cada vez mais a contribuição da mídia, que os transmite de forma acessível para o povo, uma parceria comemorada pelo fato e pela verdade. Por fim, o trabalho da imprensa em 2020 está sendo histórico. Ele será lembrado daqui a 50 ou 100 anos por quem olhar para trás para compreender o presente com um olhar amplo. E essa tarefa também precisa ser realizada com cuidado hoje para um registro completo da nossa realidade. 

*Foto em destaque: Gabriel Jabur/Agência Brasília

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