Onde estão os jornalistas negros que cobrem moda

A moda num sentido editorial e, porque não, territorial tem sido comandada há décadas pela branquitude, no entanto já está na hora de profissionais negros tomarem para si o lugar de protagonismo

Por Luiz Oliveira

O filme o Diabo Veste Prada, lançado em 2006, se tornou definitivamente um clássico do cinema, seja para aqueles que cultuam uma boa “comédia romântica” ou para os aficionados pelo mundo da moda. Quando se pensa em uma referência ligada a este segmento, logo se vem a cabeça a história de Andy (Anne Hathaway), uma jovem e recém-formada em jornalismo, que se tornar assistente de Miranda Priestly (Meryl Streep), editora-chefe da conceituada revista de moda Runway.  

Entre licenças poéticas e verossimilhanças, talvez a que mais seja condizente com a realidade é a não presença de negros neste espaço. Uma rápida busca no Google pode confirmar quem são e, principalmente, a cor das pessoas que têm ocupado este lugar. Portanto, a pergunta que fica é: onde estão os jornalistas negros que cobrem moda? 

A moda num sentido editorial e, porque não, territorial tem sido comandada há décadas pela branquitude que, consequentemente, vem ditando as pautas que merecem reconhecimento. Para se ter uma ideia da dimensão desta realidade, basta olhar para a renomada revista Vogue norte-americana, que em mais de 120 anos de sua publicação, só foi ter um ensaio de capa fotografado por um negro, Tyller Mitchell, em 2018. 

A partir dos últimos acontecimentos, como a morte de George Floyd, um homem afro-americano que foi morto asfixiado por um policial branco, há quase um mês, a branquitude parece ter acordado subitamente para o racismo. Logo, não foi diferente no mundo da moda, várias revistas e personalidades influentes, que durante anos contribuíram para esta estrutura, se mostraram, aparentemente, indignados com a situação. 

A #Blackout Tuesday, uma corrente virtual que, em tese, tinha como intuito apoiar o movimento Vidas Negras Importam, tomou conta das timelines, no último dia 2 de junho. Porém, esta “solidariedade” abriu caminho para vozes que há muito tempo estavam silenciadas se indignarem com tamanha contradição. 

É o caso da modelo paulistana Thayná Santos que, em seu perfil no Instagram, contestou o posicionamento de estilistas, como Glória Coelho e Reinaldo Lourenço, que  postaram uma tela preta, no entanto perpetuavam diversas maneiras de racismo em suas marcas. Críticas a aparência, principalmente aos traços negróides, preterimento em sessões e desfiles, humilhações públicas e cachês menores, mesmo exercendo a mesma função que os brancos, são algumas das queixas expostas por profissionais negros. 

Outras modelos foram a público confirmar a denúncia da colega e também relataram as próprias experiências. A top model carioca Natasha Soares foi umas das profissionais que inflamaram o coro de indignação. Em entrevista à revista Elle, ela comentou: por “ver posts em apoio à causa vindo de marcas sem nenhum ou com pouquíssimos negros em suas equipes, campanhas e desfiles foi um grande tapa na cara”. E completou: “não adianta falar que se importa com as nossas vidas e não fazer nada”. 

A impressão que fica é que postar nas redes sociais que é contra o racismo os tira a responsabilidade pelos próprios atos, porque no final das contas o que importa é o que tem sido feito por estas pessoas, que detêm o poder, para mudar efetivamente a estrutura. Por isso, a necessidade de se ter cada vez mais jornalistas, fotógrafos, modelos, designs, influencers negros nesses espaços. É preciso reconfigurar as referências estabelecidas. 

Certamente um dos maiores exemplos é o de Edward Enninful, estilista britânico, que hoje é o editor-chefe da Vogue UK. É a primeira vez que um homem preto, em mais de cem anos de existência da revista, está no comando. Além de Enninful, outro nome de destaque é o de Elaine Welteroth que, com apenas 29 anos de idade, assumiu o posto de editora-chefe da Teen Vogue. Ela é a pessoa mais jovem e a segunda mulher negra a ocupar o cargo em 107 anos do grupo editorial. O tempo em que passou na direção fez importantes mudanças, como incluir questões políticas e sociais no projeto editorial da revista. Após isso, o site da publicação saltou de 2,9 milhões para 7,9 milhões de visitantes. 

No Brasil, o cenário já é mais desanimador. No entanto, Luanda Vieira, editora de moda da revista Glamour, tem se tornado cada vez mais uma referência para jovens negros estudantes de jornalismo, que sonham com um dia que poderão escrever profissionalmente sobre o tema. É nítido o que a sua presença em uma posição de comando tem feito para a revista, basta olhar para a maior diversidade nas capas e as pautas que são abordadas. 

No entanto, é importante destacar que estes casos são poucos e pontuais, quando olhamos para a estrutura destas revistas, porque, infelizmente, eles ainda  são os únicos a estarem alí. Por isso, é urgente a necessidade de potencializar as vozes e escritas de homens e mulheres negras neste universo. 

Quantos influencers negros você segue como referência de moda? Há diversos que estão, diariamente, tentando redefinir estes espaços tão embranquecidos que são as redes sociais. Por exemplo, a premiada jornalista de moda Luiza Brasil, ou como é conhecida nas redes sociais, mequetrefismos; a blogueira Magá Moura; Tássio Santos, jornalista de beleza e maquiador profissional, comanda o herdeira da beleza; Larissa Conegundes, entre outros.   

A não presença de profissionais negros no mundo da moda têm corroborado para um sistema racista estrutural que vem negando há séculos, a estes indivíduos, uma posição que não seja a de exploração. A vontade de mudança é urgente e pulsante, não é uma coisa passageira. Estamos cada vez mais conscientes e dispostos a reivindicar o que é nosso. Não vamos nos contentar com pouco.

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