A mídia e a cobertura de manifestações ambíguas

Sete anos depois das jornadas de junho de 2013, veículos da imprensa tradicional ainda parecem ter dificuldade em entender manifestações apartidárias

Por Lucas Guaraldo

No dia 20 de junho de 2013, as grandes manifestações dos 20 centavos atingiam seu ápice, alcançando 1,4 milhão de pessoas em mais de 120 cidades, mesmo depois do Movimento Passe Livre, idealizador inicial do movimento, declarar que não convocaria mais atos. A data foi fundamental para diversificar de vez as causas dos protestos. As passeatas serviram também para ressaltar a relação turbulenta dos atos com a mídia, que insistia em simplificar as exigências conforme suas narrativas.

As jornadas tiveram como bandeira inicial o aumento abusivo dos preços de passagem de ônibus na cidade de São Paulo, mas se tornaram muito mais amplas conforme o crescimento da popularidade dos atos. A indignação generalizada da época dava combustível para reivindicações como: o aumento dos investimentos em educação; saúde; fim dos privilégios das classes políticas; e a criação de leis mais severas no combate à corrupção.

Desde os primeiros dias de manifestações, a ira apartidária e antissistêmica era pautas em todos os jornais do país, que tentavam encontrar lideranças que pudessem sugerir se era a esquerda ou a direita que protestava. Enquanto isso, nas ruas, bandeiras partidárias eram literalmente rasgadas e políticos que tentavam chamar a atenção eram rechaçados. No dia 17 de junho, por exemplo, manifestantes queimaram uma bandeira do PSTU em São Paulo durante e gritaram contra a presença de qualquer partido nos atos.

Mas com o amadurecimento do movimento, os veículos da mídia tradicional, mesmo sendo criticados ao longo das passeatas pela sua proximidade exagerada com empresários e políticos, passaram a apoiar as jornadas. O que garantiu que 84%  da população brasileira aprovasse as , segundo pesquisa realizada pelo IBOPE em agosto de 2013.

Ao ser cooptado pela mídia, o movimento passou a ser carregado pelas narrativas criadas nos noticiários. Os manifestantes, que inicialmente eram tachados de baderneiros, passaram a ser divididos entre os violentos black blocks e as pessoas comuns, indignadas com os crimes do governo e que buscavam pacificamente um país melhor. Essa divisão feita pela mídia foi o início da simplificação de um movimento plural, que passou a ter suas pautas separadas aceitáveis e radicalismos.

A segregação de um movimento por parte da imprensa não era uma novidade. Em 2008, após a quebra da bolsa, os movimentos subsequentes, que também eram plurais e antissistêmicos, foram prontamente aliciados por partidos de oposição e grupos midiáticos do mundo, que se preparavam para as eleições nos anos seguintes. O mesmo se deu em 2010, quando a Primavera Árabe eclodiu nos países do norte da África e do Oriente Médio e passou a ser interpretada tanto quanto um movimento anti-imperialista e anti-censura, quanto como um movimento pró-ocidente e pró-intervenção americana.

Os atos plurais deste século têm colocado em debate dois fatores a respeito da relação dos veículos de comunicação com as demonstrações políticas do povo. O primeiro é a relutância em descrever manifestações sem seguir a divisão tradicional de esquerda e direita, mesmo que as particularidades da sociedade moderna tornem as bandeiras desses movimentos muito mais complexas que isso. A segunda é como podemos nos resguardar dessa simplificação de narrativas em movimentos tão diversos e a quem essa validação de pautas em um movimento serve.

O debate acerca do controle das narrativas por parte dos veículos de comunicação se torna ainda mais importante com o surgimento de uma nova onda de protestos. Sob influência das manifestações do movimento americano  black lives matter, que tomaram o mundo nas últimas semanas, um novo movimento apartidário e progressista surgiu no país, culminando nos atos antirracistas do dia 7 de junho que envolviam partidos, torcidas organizadas, pessoas sem filiação política, grupos de estudantes e coletivos do movimento negro.

Nos jornais do fim de semana, uma cobertura familiar começou a ser ensaiada. Canais mais alinhados ao governo, como a Record, descreveram os atos como simples manifestações da esquerda anti-Bolsonaro, enquanto outros jornais, como o El País, anunciavam o movimento como apenas um ato antifascista. Os veículos internacionais relacionaram as manifestações aos protestos que ocorrem nos EUA. 

Simplificar um posicionamento político de centenas de milhares de pessoas é perigoso. Diversos artigos, textos e livros descrevem como o comportamento de proeminentes telejornais  em 2013, através de suas sintetizações e narrativas encenadas, criou-se as condições para o crescimento do autoritarismo no Brasil em 2018 ao minar a noção de coletividade do brasileiro comum, que já não se via representado nas bandeiras repercutidas

A força de uma mobilização geral da população, como foram as jornadas de junho, é justamente a variedade das bandeiras levantadas e a sua capacidade de incluir os grupos mais diversos no debate político. Logo, quando a mídia escolhe apenas algumas pautas específicas para serem exaltadas, devemos entender que não se trata de uma representação integral dos atos e que sempre existem interesses envolvidos. Cabe, portanto, aos observatórios de imprensa, aos veículos de comunicação e aos leitores se atentarem à pluralidade dos novíssimos movimentos sociais e ao perigo que é a simplificação de narrativas tão diversas.  nessa seleção.

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