Sobre alvos na mira e telas pretas

Entre o silenciamento e o estereótipo, o jornalismo brasileiro está longe de se tornar antirracista

Por Maria Carolina Brito

“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros/ A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo”. O verso é da canção “Capítulo 4, versículo 3”, do grupo Racionais MC’s, e faz parte do álbum Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997. A canção tornou-se um exemplo que contraria o que se ouviu nas últimas semanas sobre a falta de mobilização da população negra no Brasil.

As vidas negras sempre importaram para quem vem da periferia. Mães, pais, filhos e vizinhos se organizam contra o genocídio da população preta no país há tempos. O silêncio nunca foi a regra. O que há, na verdade, é um silenciamento. A cobertura nacional sobre as mobilizações contra a violência, por direitos básicos como saneamento e moradia nesses lugares, geralmente é noticiada com o foco nos pneus queimados e nas interdições no trânsito e não nos motivos que levaram a tais atos.

O jornalismo policial, por exemplo, da forma como se estrutura hoje na TV brasileira, cumpre muito bem o papel de transformar as mobilizações da favela em metáforas de guerra de uma “cidade ilegal”. Para fazer isso ele representa, principalmente, a juventude desses lugares como bandos de traficantes, os moradores como cúmplices. Dessa forma, toda força do Estado/policial sob esses territórios  é justificada e aplaudida, literalmente, ao vivo.

O guia Violações dos Direitos Humanos na Mídia Brasileira  monitorou violações de direitos em veículos brasileiros de comunicação e listou as seguintes: desrespeito à presunção de inocência, exposição indevida de pessoa e de família(s), discurso de ódio, preconceito de raça, cor, etnia, religião, condição socioeconômica, orientação sexual ou procedência nacional e outros. 

No entanto, esse tipo de premissa não se restringe apenas ao sensacionalismo do jornalismo policial. No último mês, os protestos antirracistas nos Estados Unidos, após o assassinato de George Floyd, se tornaram assunto nos jornais nacionais. Em cobertura ao vivo no dia 30 de maio, a Globo Newstransmitia a imagem de um manifestante negro, sem camisa, sendo detido por policiais enquanto, dos estúdios, a apresentadora Leila Sterenberg afirmava que o homem estaria ali “batendo carteira”.

Um exemplo antigo, que teve muita repercussão, foi a análise da jornalista Rachel Sheherazade sobre o linchamento de um jovem de dezesseis anos, amarrado nu a um poste, segundo ela um “marginalzinho”, no Rio de Janeiro, em 2014. Ela classificou a atitude dos “vingadores” como compreensível, já que, nas palavras da jornalista, “o Estado é omisso e a justiça falha”, e finalizou dizendo que quem se incomodou com a imagem do homem negro amarrado a um poste devia “adotar um bandido”.

A naturalização da violência contra pessoas negras vem sendo realizada até pela imprensa, como percebemos nas narrativas anteriormente citadas, mas isso também ocorre quando os jornais deixam de noticiar ou tentam culpar as vítimas, quando ocorre uma inversão e a reação do oprimido se torna o perigo. Voltemos mais uma vez a cobertura das manifestações nos Estados Unidos, os comentários noticiaram os acontecimentos como “vandalismo”, “dano ao patrimônio público” e etc.

E o “dano” que o número assustador de pessoas negras assassinadas pela polícia tanto nos EUA quanto no Brasil causa diariamente nessa população?

De acordo com levantamento do jornal Washington Post, em 2019, 1014 pessoas foram mortas a tiros por policiais nos Estados Unidos. Um estudo da ONG Mapping Police Violence aponta que, nos EUA, negros têm quase três vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que brancos, os dados mostram também que a ação violenta da polícia  não tem relação com as taxas de criminalidade, ou seja, não há justificativa. E nem responsabilização. 99% desses assassinatos, ocorridos entre 2013 e 2019, não resultaram na acusação dos assassinos.

A Rede Observatório da Segurança RJ, que vem monitorando as operações policiais desde 2019, mostrou que houve um aumento de 28% das operações policiais em comparação a abril de 2019 e um crescimento de 58% das mortes. Os dados mostram também que as ações policiais criadas em março para enfrentar a Covid-19 diminuíram em abril e maio, e as operações motivadas por “combate ao tráfico de drogas” aumentaram. No início da pandemia, entre 15 de março e 19 de maio, a polícia matou 69 pessoas em operações monitoradas pela Rede. O Anuário da Segurança Pública de 2019 evidenciou que 75,4% das vítimas pelas polícias brasileiras eram negras.

João Pedro, 14 anos, foi assassinado durante uma ação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), no dia 18 de maio. A casa em que estava foi alvejada 70 vezes. Ele completaria 15 anos no dia 23 de junho. Guilherme Silva Guedes, 15 anos, foi sequestrado semana passada, na Zona Sul de São Paulo, e executado. A família suspeita de ação da polícia. Luiz Antônio de Souza Ferreira  da Silva, 14 anos, Thiago Santiago da Silva, 17 anos e Estevão Freitas de Souza, 17 anos, também foram mortos pela polícia nos primeiros meses de 2020. Crianças, homens e mulheres negros sendo exterminados de todas as formas possíveis, reafirmando o fracasso do projeto da nação brasileira.

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