Apesar das dificuldades, jornalismo busca fazer jornalismo

*Por Rogério Borges

Desde a chegada da pandemia do novo coronavírus a Goiás, quando em 12 de março foram confirmados os três primeiros casos em Goiânia, os veículos de imprensa do Estado têm buscado fazer uma cobertura ampla e constante da crise sanitária. Uma semana depois, já no dia 19 de março, começou a valer um decreto do governo estadual que impunha restrições de circulação e medidas de distanciamento social, sendo uma das primeiras unidades da federação a adotar essa postura mais rígida.

Tamanha quantidade de conteúdos publicados a respeito de um mesmo assunto gera alguns fenômenos inevitáveis, sobretudo em uma cobertura regional, como a realizada pelos veículos de comunicação goianos. A depender das linhas editoriais, o tratamento exaustivo dado ao tema trilha caminhos diferentes e, em alguns momentos, até divergentes. Muitos buscaram, nesses quatro meses de atenção ininterrupta, ser ferramentas de utilidade pública. Outros, fizeram opções bem menos elogiosas.

Maior conglomerado de mídia do Centro-Oeste, o Grupo Jaime Câmara – formado pela Rede Anhanguera (11 emissoras e retransmissoras da TV Globo em Goiás e Tocantins), a rede CBN de rádio, o portal G1 Goiás, além de outras emissoras de rádio e as multiplataformas dos jornais O Popular e Daqui (os dois principais do Estado) – tem sido, com todos os seus veículos, a principal referência regional de informação sobre a Covid-19. Investidos desse papel, seus profissionais têm buscado abordar vários vieses.

Boletins diários têm sido publicados pelo jornal O Popular, pela rádio CBN e pelo portal G1, dando os números de novos casos registrados, de óbitos causados pela Covid-19 e, mais recentemente, o nível de lotação das UTIs das redes hospitalares. Esse material recebeu críticas no sentido de que seria algo parecido com um placar da morte, uma visão pessimista sobre os contornos da pandemia, o que levou à realização de pautas com enquadramentos mais positivos, como número de pacientes recuperados.

Créditos: Prefeitura de Goiânia/Divulgação

Houve também uma preocupação de se interiorizar essa cobertura, fazendo uso da capilaridade da empresa para o acompanhamento da evolução da doença em cidades goianas importantes, como Rio Verde, no sudoeste do Estado, ou em Luziânia, no entorno de Brasília. Outro esforço percebido foi a realização de reportagens em diversos segmentos, dos impactos econômicos e políticos aos reflexos sentidos na saúde mental das pessoas, obrigadas a redimensionar suas rotinas de vida.

Outras emissoras de TV, ainda que mais tolhidas pela menor estrutura de que dispõem, também buscaram dar as informações mais básicas sobre a pandemia, como a TV Serra Dourada (afiliada do SBT) e Band Goiânia. Um destaque fica para a TV Brasil Central, emissora estatal do governo estadual, que possui mais material humano e técnico que várias de suas concorrentes. Ela funcionou como porta-voz do governador Ronaldo Caiado, que no início da pandemia comprou várias brigas pró-isolamento.

A postura do governador, que é médico, foi algo inusitado na cobertura da crise sanitária, já que em várias ocasiões, presencialmente ou por teleconferência, ele dava verdadeiras aulas sobre achatamento da curva de contágio, esclarecendo fake news a respeito de medicamentos milagrosos e reforçando a importância de se usar máscaras e evitar aglomerações. Em várias oportunidades, chegou a confrontar e criticar o presidente Jair Bolsonaro, seu aliado de primeira hora, por sua postura negacionista.

Outra novidade foi o advento das lives que Caiado promoveu, numa mistura de entrevista coletiva (com os repórteres presentes na sede do governo, o Palácio das Esmeraldas) e transmissão via internet, onde o público podia participar com comentários. E os comentários eram, na maior parte das vezes, negativos, já que o fechamento das atividades não essenciais, como shoppings e pontos de lazer, foi mal recebido por parte considerável da população, que exerceu pressão sobre o governo.

Uma pressão que pôde ser constatada também sobre os veículos de imprensa, acusados por parcelas da sociedade de disseminar pânico e de só se preocupar com a saúde pública e não com a preservação de empregos na economia. Uma reprodução do discurso do presidente Jair Bolsonaro, que elegeu os veículos jornalísticos e seus profissionais como alvos de suas críticas. Em alguns momentos, houve xingamentos a repórteres durante matérias e hostilidades ao trabalho de informar.

Uma exceção a essa postura em Goiás foi a TV Record. Alinhada aos ditames editoriais de sua sede, que dá apoio ao governo Bolsonaro, a emissora em Goiás foi mais crítica aos procedimentos de isolamento adotados pelo governo, ainda que abrisse espaço para os argumentos pró-medidas de combate à Covid-19. Em contrapartida, alguns de seus âncoras, que têm grande apelo popular, produziram discursos que amenizavam a gravidade da pandemia e diziam que quem se alarmava incorria em hipocrisia.

Esse debate polarizado também ganhou outros espaços, sobretudo em emissoras de rádio, como a Interativa, notabilizada por atrações no formato mesa-redonda, e a Sagres, que aposta mais nas entrevistas. Nesses espaços, argumentos a favor e contra as medidas de combate ao vírus e a politização a respeito da resposta dos governos federal, estadual e municipal ao desafio puderam ser ouvidos democraticamente, mas nem sempre com parcimônia, respeito às diferenças ou mesmo boa educação.

Percebe-se que um modelo de discussões em redes sociais migrou para veículos de referência, que se viram confrontados com críticas rasas ou mesmo fantasiosas, com acusações de complôs e conspirações imaginários, tendo que direcionar energias e tempo de apuração para esclarecer informações falsas ou desmentir versões potencialmente nocivas para a saúde pública. Um processo constante e cansativo de enxugar gelo, já que esses conteúdos continuaram a se disseminar.

No caso da imprensa goiana, o que se pode constatar é que houve uma preocupação, da maior parte dos veículos jornalísticos ,nas mais diversas plataformas, em buscar a informação de qualidade e científica. A Universidade Federal de Goiás e seus pesquisadores, por exemplo, foram fontes constantes nesse esforço. Por outro lado, derrapadas sensacionalistas foram incontornáveis, como a dramatização de casos de pessoas que perderam entes queridos ou que conseguiram vencer a Covid-19.

Em uma cobertura tão estressante, longa e complexa, com os próprios profissionais se expondo na linha de frente, inseguros quanto à proteção real que gozam diante de uma doença desconhecida e imprevisível e, ainda por cima, agredidos em redes sociais e até mesmo pessoalmente, é natural que erros aconteçam. Demissões na TV Anhanguera, no jornal O Popular e na rádio Interativa, por conta de quedas nas receitas publicitárias durante a crise sanitária, agravaram esse cenário.

Mas um fenômeno semelhante em outros lugares também ocorreu em Goiás: a recuperação da relevância da informação jornalística, apurada e checada. A repercussão das matérias na sociedade, o interesse de fontes especializadas de estarem emitindo suas falas a partir dos veículos de comunicação que fazem jornalismo profissional e o aumento de fluxos de audiência, como mostram vários dados publicados no Portal da Comunicação, demonstram um protagonismo dessas empresas no acompanhamento da pandemia.

*Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestre em Estudos Literários e Linguística, também pela UFG, com doutorado em Comunicação, pela Universidade de Brasília (UnB). Professor-adjunto da Escola de Comunicação da PUC Goiás, onde coordena o Observatório de Mídia da PUC Goiás. Repórter especial do jornal O Popular, de Goiânia. Editor do site ermiracultura.com.br

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