A excelência é negra

Beyoncé lançou na última semana a obra Black Is King. O trabalho é mais um capítulo no diálogo que a artista vem propondo com a comunidade negra. Aclamado pela crítica, tem sido desmerecido por aqueles que não entenderam sua importância 

Luiz Oliveira e Maria Carolina Brito

“A gente precisa disso agora! Mais que nunca!”. É desta maneira que a cantora norte americana Beyoncé define a importância e urgência do filme Black Is King, lançado na última sexta-feira (31) pela plataforma de streaming Disney +. O longa é dirigido, escrito e produzido pela artista com a proposta de reimaginar as lições de O Rei Leão com os saberes ancestrais da cultura africana – além de ser um registro visual do álbum The Gift, lançado em 2019. 

Em mais de uma hora de exibição é proporcionado aos espectadores uma verdadeira odisséia das pluralidades e belezas negras. Uma carta de amor e ressignificação da maneira de como estes indivíduos são enxergados nos meios audiovisuais. O filme é a mais pura e potente exaltação de diferentes costumes africanos, tendo como foco a imaginação de uma sociedade afrocentrada.    

Black is King foi co-dirigido por Kwasi Fordjour, diretor criativo de Gana em parceria com outros profissionais de países africanos, como Emmanuel Adjei, Pierre Debusschere, Ibra Ake, Dikayl Rimmasch, Jenn Nkiru, Dikayl Rimmasch, Jake Nava e Kwasi Fordjour. Entre os estilistas que assinaram o visual do filme destacamos a brasileira Loza Maléombho.

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Dividem com  Beyoncé as faixas do álbum visual artistas africanos como Wizkid , Mr Eazi , Yemi Alade , Busiswa Gqulu , Tiwa Savage , Nija e Saint JHE. Childish Gambino, Jay-Z,  Kendrick Lamar e Pharrell Wiliams também colaboraram. Na noite anterior ao lançamento,  a cantora disponibilizou o clipe da música “Already”, parceria com o artista ganês Shatta Watta. 

  O impacto do lançamento foi semelhante ao do álbum Lemonade, lançado em  2016, primeiro trabalho audiovisual da artista dedicado à comunidade negra. Com hits como “Formation” e “Sorry”, Lemonade é sobre, entre outras coisas, a experiência da mulher negra na diáspora. Em  Black is King, há uma mensagem direcionada aos homens negros, como afirma Beyoncé nos últimos minutos do filme: o álbum é dedicado a seu filho, Sir Carter. No início da produção, uma voz masculina diz as seguinte palavras: “eu ainda não sou um rei. Eu tenho potencial para isso, sacou? Mas ainda não cheguei lá”. Beyoncé responde na faixa “Already” dizendo, “você é um rei, você sabe disso”.

As redes sociais foram tomadas por fotos, vídeos e, principalmente, comentários do público que exaltavam a qualidade e magnitude do projeto.  No entanto, não foram apenas os fãs que aclamaram o que assistiram, a crítica especializada também. No famoso site Rotten Tomatoes, o longa tem uma aprovação de 100%, baseada em 25 críticas, e 94% de aceitação do público, se tornando o mais bem avaliado da plataforma de streaming Disney +. 

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CRÉDITO: DISNEY+/REPRODUÇÃO

Porém, artigo de opinião publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 2 de agosto, tem gerado debates e reflexões. A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarzc usou o espaço da sua coluna para dizer o que tinha achado sobre projeto. O título do texto era: “Filme de beyoncé erra ao glamourizar negritude com estampa de oncinha”, completando a segunda linha com “Diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”. 

Indignação é o sentimento que permeou todas as pessoas negras que tiveram o desprazer de ler o texto. A tamanha petulância que tem uma mulher branca em achar que o seu ponto de vista em relação a uma obra, feita por negros para negros, era digno de ser publicado, evidencia que ainda há um entendimento da branquitude em achar que tem propriedade para falar e palpitar sobre tudo, se apoiando, erroneamente, no conceito de lugar de fala. 

Dizer como um pessoa negra deve retratar a sua negritude e ancestralidade diz muito a respeito de como é o academicismo racista.  O racismo é, sim, assunto de branco. No entanto, já passou da hora deles entenderem qual é o papel deles e, com certeza, não é escrevendo sobre algo que não foi feito para eles, pois é claro que não vão compreender. 

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CRÉDITO: DISNEY+/REPRODUÇÃO

O pior é ainda usar para “embasar” a sua crítica autores brancos e eurocêntricos.  Ainda mais sendo uma pessoa que se propõe a ser uma referência quando se trata de branquitude e antirracismo. Por que não ceder um espaço tão privilegiado como o de uma coluna em um dos jornais mais importantes do país a uma historiadora e antropóloga negra? 

Cotidianamente, nossos processos e trabalhos são questionados e desmerecidos. No entanto, não se observa esse mesmo tratamento quando se trata de pessoas brancas. Quantas divas pops brancas tiveram este mesmo olhar minucioso e crítico em relação ao que produzem?

Vale aqui ressaltar que Beyoncé pode, sim, ter seu trabalho avaliado, porém o que não pode é dizer como ela deve exercer a sua negritude, pedindo que ela “desça de sua sala de jantar”, porque isso, sim, tem um significado. 

A branquitude está tão acostumada em acreditar que detém todo o conhecimento e com isso validação para falar a respeito de tudo que, quando são confrontados, mandam o já habitual “você leu o texto todo?”, demonstrando prepotência e arrogância.  

Após o artigo da Folha, intelectuais negras utilizaram as redes sociais para explicar que o uso da estampa de oncinha não é um erro, mas, sim, um resgate, como explicou a filósofa Katiuscia Ribeiro, via Instagram. “Desde o Reino de Kush (nome original da Etiópia) até Kemet (Egito) que deriva desta sociedade, a pele de leopardo era usada pelas sacerdotisas e sacerdotes, pois nos remetiam e representavam as estrelas. Isso significa que somos um pequeno universo um micro-cosmos integrando um todo. O cosmo nos encarna e nós somos seu reflexo: somos físico e psíquico, somos história e cultura, somos espírito e ancestralidade, enfim somos o todo”. 


CRÉDITO: DISNEY+/REPRODUÇÃO

A teórica Anin Urasse também explicou via redes sociais que a pele de leopardo e de outros felídeos representa o traje sacerdotal nas civilizações negras. “Faraós eram representados envoltos na pele desses animais, assim como ocorria no antigo Daomé e no Camarões atual, com o rei Hapi do povo Bana. Tá em Angola, Congo, Gana, Uganda, Nigéria. A estampa está inclusive no trono do atual rei de Ketu. Trata-se de uma proteção espiritual”, escreveu.  

Faltou à historiadora Lilia Schwarzc um pouco mais de pesquisa antes de escrever um texto sobre o qual achava ter tanta propriedade. Se soubesse mesmo sobre a negritude, teria visto as diversas referências listadas acima.  

A cantora Iza foi umas das aristas que questionou o tom professoral de Lilia: “Eu preciso entender que privilégio é esse que te faz pensar que você tem alguma autoridade para ensinar uma mulher negra como ela deve ou não falar sobre o seu povo.”Black is King é importantíssimo, pois mostra para o público que consome o trabalho de Beyoncé a potência cultural da história negra. A metáfora de Simba tentando voltar pra casa simboliza a nossa própria jornada ancestral, o retorno para o sul de uma população que há anos era relacionada a pobreza, violência e sexualização contada pelos brancos. É como diz a própria Beyoncé: “Que o negro, preto ou qualquer outra palavra que se refira a nossa existência seja sinônimo de Glória”.

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