Estampa certa

Cobertura da mídia sobre a nova nota de R$ 200 está dividida entre o entretenimento e a questão econômica

Por Marina Dalton

Na última quarta-feira, dia 29 de julho, o Banco Central (BC) anunciou o lançamento da nota de 200 reais. Diversos sites de notícia, como o G1 e o Uol, publicaram matérias em suas colunas de entretenimento sobre os memes causados pelo anúncio. As mídias podem, sim, trazer humor para o público, mas poucos jornais estão aprofundando a relação da nova nota com a inflação e economia do país. 

A decisão aprovada pelo Conselho Monetário Nacional altera o valor da cédula mais alta em circulação pela primeira vez em 26 anos. A novidade foi tomada como inesperada, já que nenhum veículo havia divulgado notícias sobre a intenção do governo em introduzir nova nota. Apenas agora, com a comunicação oficial, a mídia lançou publicações ㅡ direcionadas para duas vertentes, a econômica e a de puro entretenimento.

O Banco Central explicou que a medida foi tomada para “atender ao aumento da demanda de dinheiro em espécie que se verificou durante a pandemia de COVID-19”. Segundo o órgão, houve entesouramento no período atual: mais pessoas estão guardando dinheiro em casa.

A nova nota começará a circular em agosto e terá estampada a imagem de um lobo-guará. O BC justificou a escolha do lobo-guará através de uma pesquisa realizada em 2001 para selecionar animais para novas cédulas. Os dois mais votados, tartaruga marinha e mico-leão-dourado, estão presentes hoje nas notas de R$2 e de R$20, respectivamente. Naquele ano, o lobo-guará ficou em terceiro lugar. Essa votação antiga ainda representa a opinião atual do povo? A estampa é justamente a inspiração para os memes das redes sociais.

Repercussão

O anúncio do lançamento da nota de R$200 causou questionamentos, críticas e sátiras. Essa novidade não vai contra o movimento mundial de aumentar as transações digitais? Não ficará mais fácil a lavagem de dinheiro? A inflação aumentará com a impressão dessas cédulas? Por quê a escolha do lobo-guará? Seria de grande interesse público um aprofundamento da mídia nessas questões. Apenas reproduzir as justificativas do governo, como na matéria “Banco Central anuncia nota de R$200” da revista Istoé Dinheiro, não é o suficiente.

Segundo o BC, o pagamento em espécie ainda é o mais frequente no Brasil; o tamanho das cédulas não é o fator que determina a corrupção; e, com a economia em retração, a previsão é de que a inflação do ano de 2020 fique abaixo de 2%.

Apesar dessas respostas questionáveis, a explicação mais desacertada é o porquê da escolha do animal que estampará a nova nota. A seleção se deu pelo resultado de uma votação popular de 2001. O público pôde escolher entre animais da fauna brasileira que estão em risco de extinção: tartaruga marinha, mico-leão-dourado, lobo-guará, tamanduá bandeira e jacaré-de-papo-amarelo. Naquela ocasião, o lobo-guará ficou na terceira colocação. Porém, não há como comprovar que a opinião do brasileiro de hoje está contemplada nessa decisão.

Nos últimos dias, diversos memes sobre que imagem deveria estampar a nota de R$200 circularam pelas redes sociais. Especialmente no twitter, muitas pessoas brincaram com o rosto da cantora Pabllo Vittar, com a Ema do Palácio da Alvorada que bicou Jair Bolsonaro e, até mesmo, com o “vira-lata caramelo”.

Esses memes seriam indícios de insatisfação com a falta de uma consulta popular?

Também houve, porém, repercussão positiva sobre a escolha do lobo-guará. Filipe Reis, diretor de mamíferos da Fundação Zoológico de Brasília, anunciou em entrevista ao Correio Braziliense que considera importante para que as pessoas conheçam melhor a espécie em todo o Brasil, não só no cerrado.

De fato, é um mamífero ameaçado de extinção. A utilização de sua imagem na cédula de maior valor em circulação pode desencadear uma conscientização e apreço pela espécie. Principalmente devido ao alcance da internet nos dias de hoje, a repercussão e memes gerados já foi capaz de trazer maior visibilidade em pouco tempo.

Essa não é a primeira vez que o animal aparece em moeda brasileira. Entre dezembro de 1993 e setembro de 1994, o lobo-guará estampou a moeda de 100 cruzeiros reais. Com pouco tempo de circulação, é possível que os efeitos de preservação não tenham sido grandes.

A estampa na nota de R$200 é capaz de trazer resultados mais efetivos, se comparada à moeda dos anos 1990. As novas mídias e as redes sociais são aliadas importantes e eficientes na conscientização e disseminação de informações. Assim, pode ser que a população venha a conhecer melhor o lobo-guará. De qualquer maneira, é indevido tomar uma votação antiga como a opinião atual do povo. 

Phillipa Lally, pesquisadora da área da Psicologia da Saúde na University College London, publicou um estudo no European Journal of Social Psichology, no qual analisa o tempo necessário para uma mudança de comportamento. O resultado variou entre 18 dias e 254 dias, já que esse espaço temporal depende do tipo de comportamento, das circunstâncias e do indivíduo em si. No entanto, todos os participantes observados foram capazes de alterar atitudes num período menor que um ano.

Tendo em vista que a população é formada por sujeitos individuais, capazes de mudar em um período curto de tempo, uma votação realizada há 19 anos pode não representar o pensamento do brasileiro de hoje. Mesmo que traga resultados positivos para a preservação da espécie, a seleção do lobo-guará como estampa da nova nota, sem consulta popular, fere o ideal democrático do Brasil. 

Mídia

A mídia, ao trazer tanto de sua cobertura exclusivamente para os memes gerados, retrata a forma como o brasileiro está encarando o lançamento da nova nota: com humor. São diversas estampas engraçadas, com críticas ao governo ou apenas com personalidades.

No entanto, a questão é séria. A nota de 200 reais traz importantes repercussões econômicas e políticas, inclusive pelo aspecto da imposição da estampa.

Publicações com o viés abordado pela SuperInteressante na matéria “A nota de R$200 equivaleria a uma de R$ 1.200 em 1994” deveriam ser incentivadas. É perceptível a crítica e o alerta que gira em torno do lançamento de uma cédula de alto valor. Outros veículos estão divididos entre transmitir as justificativas dadas pelo Banco Central sem olhar crítico e entreter o povo divulgando os memes.

Os meios de comunicação ㅡ enquanto quarto poder, vigilante da realidade ㅡ são responsáveis por representar o pensamento do brasileiro, fazer o intermédio entre o governo e o povo. Porém, também são responsáveis por defender os interesses da população e, para isso, não devem realizar apenas uma cobertura com foco no entretenimento.

História

A criação do padrão das cédulas de reais aconteceu em 1994, a fim de trazer características diferentes das de cruzeiro. O BC definiu que a nova moeda teria notas com cores diferenciadas, o rosto da efígie da República de um lado e animais da fauna brasileira do outro.

O objetivo seria promover a proteção da fauna e flora brasileiras: aproximar as pessoas desses animais, incentivar a busca por conhecimento sobre essas espécies e gerar consciência para a preservação do meio ambiente.

Em 1994, cinco notas entraram em circulação. A nota de R$1 trouxe um beija-flor alimentando filhotes. A de R$5 é, até hoje, estampada com uma garça. A cédula de R$10 carrega uma arara, típica do Brasil. Na de R$50, aparece uma onça-pintada, animal ameaçado de extinção. Uma garoupa, peixe marinho encontrado nas costas brasileiras, é a figura da nota de R$100.

Em 2001, outras duas novas cédulas entraram em circulação: R$2 e R$20. A escolha dos animais que as estampam aconteceu por meio de uma pesquisa popular.

A cédula de R$1 deixou de ser produzida em 2005 e, em 2010, o Banco Central anunciou o lançamento da segunda família das notas do real.  As cédulas ganharam novos elementos de segurança, como tamanhos diferentes, e design modernizado.

No dia 29 de julho, foi anunciada a nota de 200 reais, que trará a figura do lobo-guará. Caso o modelo em teste seja aprovado, a nota será cinza com detalhes amarronzados.

Os meios de comunicação foram ㅡ e ainda são ㅡ essenciais e ativos durante toda a história do papel-moeda brasileiro. Trazer esclarecimentos para o público, vigiar as decisões do governo e apontar incoerências nas justificativas das mudanças propostas é de grande importância. Especialmente hoje, a cobertura crítica com viés econômico é necessária.

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