“Esse negócio não existia no meu tempo!”

Em pleno mês da visibilidade lésbica, o trailer de Ammonite mostra que mulheres homossexuais sempre estiveram e sobreviveram nas mais conservadoras camadas da sociedade, escondidas, mas sendo quem realmente eram e sem medo de viver a verdade entre si mesmas

Por Christine Santos

Baseado na vida da paleontóloga Mary Anning, o trailer de Ammonite que saiu essa semana, conta com a estrela de Titanic, Kate Winslet. O filme é a nova promessa para o cinema em novembro de 2020, vindo para mostrar que existiram mulheres de um passado bem distante que viveram sua sexualidade indo contra os padrões sociais conservadores da era vitoriana.

Ammonite é o mais novo projeto do diretor inglês Francis Lee (indicado ao BAFTA por O Reino de Deus, 2017), filme delicado que passa na Inglaterra vitoriana, mais especificamente no ano de 1840, momento em que Mary Anning já estava perdendo sua fama como paleontóloga. A trama se desenrola quando um geólogo muito rico oferece um emprego a ela para que ajude a esposa, a geóloga Charlotte Murchison (Saoirse Ronan, de Lady Bird e Brooklyn) a se recuperar da melancolia e aprender com ela o seu ofício. O filme conta com outras estrelas britânicas como Fiona Shaw (Killing Eve e Harry Potter) e Gemma Jones (Rocketman, Gentleman Jack).

Mary Anning tem uma mãe doente e precisa trabalhar para cuidar dela. Ela vive às custas de caçar fósseis comuns no Canal da Mancha para vendê-los a turistas. Sua primeira grande descoberta foi um fóssil de ictiossauro, de um metro e oitenta, quando tinha apenas 11 anos de idade, que foi parar no Museu Britânico. A fama teve sua duração e ela precisava continuar se sustentando ao caçar mais fósseis para que pudesse comercializá-los.

Ao receber a visita e a proposta irrecusável de ajudar a esposa de Roderick Murchison, ela acaba entrando numa jornada de descobrir pontos em comum e auxiliar a amargurada senhora Murchison a encontrar um propósito nesse hobby de sair pela costa em busca de mais descobertas de fósseis (amonitas). Na época, Charlotte é diagnosticada por sofrer de melancolia, com um comportamento bastante parecido com o da depressão profunda como a conhecemos hoje.

Quanto mais passam o tempo juntas trabalhando em frente à costa, mais elas se conectam e desenvolvem um relacionamento além do profissional, se tornando íntimas ao ponto de atarem um romance que parece mudar a dinâmica do trabalho à medida que pesquisam e se deparam com a linha em que Mary não é apenas uma colega de trabalho, mas amante de Charlotte.

Faltando uma semana para que o mês da visibilidade lésbica chegue ao fim, o trailer do filme foi lançado no dia 25 de agosto e ultrapassou a marca de 100 mil visualizações. A previsão é que ele chegue nas telas do Festival de Cinema Internacional de Toronto no dia 13 de novembro de 2020.

Não se sabe se a Mary Anning da vida real teve relacionamento com mulheres além dos rumores criados em torno das cartas trocadas com uma amiga chamada Frances Bell, mas com certeza Anning e Charlotte Murchison foram grandes amigas e se conheceram em Lyme Regis em 1825. Mas a proximidade aconteceu mesmo em 1833, após uma viagem e trocas de cartas. 

Porém, assim como no filme Retrato de uma jovem em chamas, da diretora francesa e LGBTQ+ Céline Sciamma (Queer Palm no Festival de Cannes) se trata de uma obra que mostra que relacionamentos homossexuais entre mulheres sempre existiram e mesmo que invalidados pela sociedade. Sciamma uma história fictícia de duas artistas plásticas Marianne (Noémie Merlant) e Heloise (Adele Haenel) que vivem um relacionamento romântico na França de 1760.

No mesmo seguimento, mas indo para as telas de TV, Gentleman Jack (2019), série da BBC One e HBO, que chegou as telas brasileiras pela HBO Go em abril do ano passado, escrita e dirigida por Sally Wainwright (premiada três vezes pelo BAFTA por Last Tango em Halifax e Happy Valley) traz o enredo baseado nos diários reais da dona de terras e montanhista Anne Lister (retratada por Suranne Jones), considerada a primeira lésbica moderna, casou-se e trocou alianças com Ann Walker (Sophie Rundle) em 1834 no Norte de Yorkshire, na Inglaterra. 

Os portais Autostraddle e Dazed chegaram a comparar Ammonite e Gentleman Jack pela semelhança em aspectos tanto do país onde se passa a série e o filme, a dinâmica de relacionamento entre as personagens e a estética de ambos. “Kate Winslet interpretando uma personagem estilo Gentleman Jack” Dazed comentou.

É um momento novo na indústria cinematográfica voltada para o público LGBTQ+. São histórias que mostram que o amor e o sexo entre mulheres não é um fato que veio a acontecer recentemente. Tampouco é algo que se popularizou após a Rebelião de Stonewall. A representação que obras como Ammonite trazem não só para mulheres lésbicas, mas como para os LGBTQ+s no geral, é extremamente importante para que haja um olhar voltado a história dessa comunidade que precisou viver sua verdade por debaixo dos panos por tanto tempo e até hoje tem dificuldades sentir segurança sob os olhos da sociedade atual.

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