Nas quadras e nos gramados, preconceito insiste em se tornar personagem principal de jogos

Em um cenário onde opiniões são amplamente divulgadas, atletas ainda possuem dificuldade em manifestar seus posicionamentos inclusive quanto a questões sociais

Por Gabriel Bezerra

O caso de racismo sofrido pelo astro brasileiro Neymar no último domingo trouxe à mesa várias discussões acerca das ofensas raciais no futebol e as suas consequências. Ao mesmo tempo que, na NBA, a maior liga de basquete do mundo, jogadores que levantam a bandeira do movimento BLM são criticados pela sua postura ativista. Os últimos acontecimentos no mundo e os diversos protestos e discussões que surgiram como pauta social nos colocam como integrantes de um diálogo. No esporte, os atletas costumam ser cobrados para assumir tal posição pelo fato de serem influenciadores importantes mas, costumeiramente, eles também são alvo de críticas quando expõem os seus ideais. Desde protestos ligados à questões raciais até a defesa de determinados políticos, há espaço para atletas se posicionar em relação à questões sociais? Neymar, Lewis Hamilton, LeBron James e Jaylen Brown devem se manifestar para além das arenas esportivas?

O clássico francês entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha, ocorrido no último domingo, 13, terminou com uma polêmica envolvendo acusações de racismo denunciados por Neymar, atacante do PSG. Segundo o brasileiro, durante a partida, ofensas de teor racista foram dirigidas a ele pelo zagueiro Álvaro González, da equipe do Olympique de Marselha. Na etapa final, Neymar discutiu novamente com o defensor e foi expulso do jogo, enquanto falava indignado em direção aos árbitros:“Racismo no! Racismo no!”, apontando para González. A disputa, válida pelo campeonato francês, terminou com a derrota do time parisiense por 1 a 0. Ao fim da partida, o brasileiro admitiu ter agredido fisicamente o zagueiro e, após o ocorrido, o craque declarou em suas redes sociais: Único arrependimento que tenho é por não ter dado na cara desse babaca.”

Na última quinta-feira, 17, a LFP (Liga de Futebol Profissional da Fraça) decidiu punir Neymar com dois jogos de suspensão pela expulsão na partida contra o Olympique de Marselha. Já Álvaro González, será investigado pela instituição e pode pegar somente o gancho de dez jogos, desde que os insultos raciais sejam comprovados.

Após a divulgação do ocorrido pelo portal Globo Esporte, o deputado distrital Leandro Grass (REDE-DF) comentou em publicação no Twitter que “Neymar precisa parar de apoiar o fascista (presidente Jair Bolsonaro), para assim começar a ter coerência” — lembrando uma foto que Neymar possui ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Logo após o comentário, vários internautas discordaram do pronunciamento do político, dizendo que o mesmo, por ser branco, não deveria opinar sobre a forma que um homem negro (Neymar) se declara politicamente.

Outros comentários nas redes traziam uma entrevista de Neymar fornecida ao jornal Estado de S. Paulo, em 2010, quando o jogador tinha 18 anos de idade e atuava pelo Santos. Na entrevista, o veículo de comunicação perguntou ao atleta se ele já foi vítima de racismo em alguma ocasião, e Neymar respondeu: “Nunca. Nem dentro e nem fora de campo. Até porque eu não sou preto, né?”

Logo, segundo os autores dos comentários que citam esta matéria, Neymar não deveria condenar um ato racista sofrido por ele por não se auto-declarar negro e não se posicionar diretamente em discussões que levam o racismo e o orgulho negro como bandeira, como o Black Lives Matterhashtag e tema de manifestações que se tornaram presentes em várias partes no mundo após a violenta morte de George Floyd em maio deste ano. 

Algo que chamou a atenção foi o fato do zagueiro da equipe do Olympique de Marselha ter como pena máxima pelos insultos racistas dirigidos ao brasileiro apenas dez jogos de suspensão, não tornando o caso como um crime em justiça civil, que é o natural após uma infração relacionada ao preconceito racial.

Já nas pistas da Fórmula 1, o hexacampeão Lewis Hamilton se tornou nos últimos tempos, um importante porta voz da luta racial no esporte. O piloto diz ter se arrependido de não ter se posicionado sobre o tema antes, alegando que foi silenciado em tentativas anteriores de abordar a causa.

Nos Estados Unidos, país onde se se concentra o maior foco das manifestações pró-Black Lives Matter ocorridas nos últimos meses, os atletas da NBA (National Basketball Association), principal liga de basquetebol do mundo, decidiram dar visibilidade ao movimento durante o período dos protestos. Quando os jogos estavam paralisados por conta da pandemia de Covid-19, vários atletas, como o grego Giannis Antetokounmpo, do Milwalkee Bucks, e Jaylen Brown, do Boston Celtics, decidiram ir às ruas se juntar aos manifestantes, reclamando  por justiça no  caso de George Floyd, e punição severa aos policiais envolvidos no acontecido, assim como também pelo direito à vida do povo negro, tão discutida nos Estados Unidos desde a fundação do país, em 1776.

Após a volta das partidas na NBA, em 30 de julho, numa “bolha” localizada na cidade de Orlando, na Flórida, vários jogadores sofreram ataques em suas redes sociais por conta do seu mau desempenho nos jogos. Jaylen Brown, do Boston Celtics, foi um dos principais alvos, com comentários que diziam que o jogador perdeu totalmente o seu foco ao se preocupar somente com o seu ativismo e não com o basquete, devido às suas aparições ruins defendendo o time de Massachusetts.

Até mesmo o astro LeBron James, do Los Angeles Lakers, não escapou do ódio dos movimentos contrários às manifestações, tendo suas contas atacadas e sendo acusado de comunismo e de financiar grupos radicais nos Estados Unidos.

Após uma decisão incomum das equipes do Milwalkee Bucks e do Orlando Magic, onde os times não compareceram em uma partida válida pelos playoffs da NBA como forma de boicote. Após a veiculação de uma abordagem policial onde Jacob Blake, afro-americano de 29 anos, foi baleado por sete vezes em suas costas, a liga de basquete publicou uma nota oficial dizendo que os jogos haviam sido adiados. James, respondeu em seu Instagram: “Boicote, não adiamento.”

Atualmente, os jogadores antes do início da partida ficam ajoelhados durante a reprodução do hino nacional, em referência ao gesto iniciado pelo jogador de futebol americano Colin Kaepernick, que repetia a ação durante o hino dos Estados Unidos, fato que foi criticado pelo então candidato à presidência do país, Donald Trump, e que gerou um boicote à Kaepernick e a perda do seu contrato com a sua equipe.

O basquete e o futebol, no início de suas histórias, foram esportes exclusivamente feitos para os brancos e foi necessário bastante luta para poder introduzir o povo preto nas quadras e nos gramados. Jogadores como Pelé, Bill Russell, Leônidas da Silva e Kareem Abdul-Jabbar, mostraram ao mundo que os negros deveriam ter o seu espaço junto aos outros atletas. No ano de 2020, em que relações sociais foram postas à prova por conta da pandemia, as questões raciais estiveram presentes nas manifestações pelo orgulho negro e a defesa dos direitos civis.

O esporte ainda é um veículo de mensagem e de aproximação e que deve ser usado para alcançar o respeito, a união e a justiça.

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