Primeiro, a boiada passa. Depois o fogo

O jornalismo brasileiro entre despolíticas ambientais e políticas desambientais

Por Jônatas Martins

O ministro e suas boiadas

Seguindo os critérios técnicos para a escolha de ministros, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) indicou Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente. No cargo, Salles coleciona polêmicas e problemas de gestão. Suspeitas sobre contratos do Ibama foram levantadas, irresponsavelmente, nas redes sociais. Inicialmente, as informações dos convênios com ONG´s ambientais eram incertas e provocaram dúvidas nas parcerias. Além disso, por diversas vezes Ricardo Salles promoveu um embate e descreditava os dados divulgados do INPE, Ibama, ICMBio e outras organizações.

A reunião ministerial de 22 de abril de 2020 foi divulgada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello , após ser mencionada como possível prova de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal. Durante a reunião, o ministro Ricardo Salles afirmou: “Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. 

As intenções, explicitadas pela fala, eram de retirar as pautas ambientais do debate público, aproveitando o cenário de uma cobertura ostensiva da imprensa sobre a pandemia da Covid-19. A opinião pública não seria levada em consideração para a elaboração de projetos de políticas do meio ambiente. Basicamente, Salles aproveitaria a maior crise de saúde no século para favorecer e simplificar um processo de desestruturação da política ambiental em todo Brasil. 

Compreende-se que a pandemia de Covid-19 é um caso inédito e único na história contemporânea. A sociedade e, sobretudo, a imprensa demonstrou uma atenção quase exclusiva em relação ao assunto. A necessidade é óbvia, mais de 140 mil pessoas morreram pelo novo coronavírus no Brasil. As vidas de todos foram influenciadas por conta das novas situações. Tornou-se, então, obrigação de um jornalismo ético e responsável a divulgação de informações que minimizem as consequências do vírus e responsabilize os devidos atos e medidas.

Porém, não se pode criar vácuos noticiosos. Assuntos de interesse público sem ou com pouquíssima cobertura jornalística abrem precedentes para que as informações sejam centralizadas por certos grupos ou indivíduos. Foi o que aconteceu na “passagem da boiada” do ministro Ricardo Salles. A imprensa ausentou-se da cobertura sobre a política ambiental questionável do governo. 

É responsabilidade social do jornalismo amparar a opinião pública com dados e fatos verdadeiros em todos os setores. Deve-se garantir a propagação de informações  e opiniões plurais e diversificadas, porque assim se promove o debate público e a divergência de ideias, que são essenciais para a democracia e para a liberdade de expressão.

A “passagem da boiada” revela as intenções de desmonte e precarização do próprio ministério. Além disso, as falas do ministro expõem um total desrespeito e irresponsabilidade quanto às demais instituições políticas, à imprensa, ao meio ambiente e à própria população.

O Ministério Público Federal (MPF) pediu o afastamento de Ricardo Salles do cargo de ministro do Meio Ambiente. Segundo os procuradores, Salles comete improbidade administrativa em suas atuações, que demonstram a intenção de desmontar a proteção ao meio ambiente no país. 

Sobre as falas na reunião, a ação do MPF afirma: “As declarações apenas expõem, de forma clara, o que diversos atos já confirmavam: existe um verdadeiro encadeamento premeditado de atuar contrário à proteção ambiental, caracterizando o dolo, elemento subjetivo dos atos de improbidade”.

Sem a presença da imprensa o controle de narrativas falsas e irresponsáveis ganha força. A disseminação de fake-news fica mais potente em espaços sem jornalismo profissional. O governo não pode divulgar todas as informações desejadas sem o filtro e a oposição de um jornalismo ético e responsável.

De acordo com os procuradores, a “permanência do requerido Ricardo de Aquinno Salles no cargo de Ministro do Meio Ambiente tem trazido, a cada dia, consequências trágicas à proteção ambiental, especialmente pelo alarmante aumento do desmatamento, sobretudo na Floresta Amazônica”. 

As chances de futuras ações, como a desestruturação do Ministério do Meio-ambiente e de todo aparato ambiental, diminuem quando a cobertura jornalística é completa, incisiva e longa. 

Políticas desambientais e Despolíticas ambientais

O Estado brasileiro se mostrou por diversas vezes, em variados governos, irresponsável e relapso quanto à formação de políticas públicas efetivas que conseguissem integrar o meio ambiente e as populações indígenas com o desenvolvimento socioeconômico. As políticas ambientais eram atrasadas, e por vezes os projetos e as reformas necessárias enfrentavam barreiras no congresso. A fiscalização indispensável era suprimida. Em 2005, o Brasil estava em quarto lugar entre os maiores emissores mundiais de gases-estufa por conta do descontrole nos incêndios e desmatamento. 

Com organizações ambientais empenhadas e a sociedade comprometida, as transformações políticas essenciais ao meio-ambiente começaram a aparecer, mesmo tardiamente e em ritmo lento. Em 2011, o Brasil registrou uma queda recorde nos índices de desmatamento da Amazônia. Grandes tragédias, porém, continuavam a acontecer, como o rompimento da barragem de Mariana-MG em 2016, tido como um dos maiores desastres ambientais da história do país. Isso reforça a necessidade da atuação de todos os grupos sociais em participarem e cobrarem constantemente o poder público. 

A política ambiental de Bolsonaro parece adotar um procedimento contrário à preservação de biomas, como o Pantanal e a Amazônia, e aos povos indígenas. Uma verdadeira política desambiental, que coloca o meio-ambiente como um empecilho, rivalizando com o agronegócio. As táticas são a promoção de uma narrativa falsa e negacionista aliada ao sucateamento das instituições e enfraquecimento das leis de proteção ambiental. 

O jornalismo profissional precisa responsabilizar-se no estabelecimento de um debate sobre estratégias políticas de enfrentamento e de preparação para crises ambientais, escapando de uma cobertura alarmada que isola os fatos. Deve-se mostrar o valor da prevenção ambiental, vinculando as tragédias do meio ambiente com os responsáveis políticos. 

Jornalismo ambiental no Brasil

Atualmente, o jornalismo ambiental não possui espaço próprio designado entre os maiores grupos comunicacionais do país. Considerando alguns dos principais meios de comunicação social brasileiros (Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão, Veja e G1), apenas o portal de notícias G1 possui editoria especializada em meio-ambiente, intitulada como Natureza. As demais seguem o padrão de adequar o jornalismo ambiental nos espaços de outras editorias, principalmente a de Ciência.

Em contrapartida à grande mídia, existem grupos jornalísticos com foco no meio ambiente. O Mongabay é uma agência de Jornalismo ambiental independente que desde 2019 trabalha no Brasil. Há o Observatório de Jornalismo Ambiental, um setor do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA), registrado no CNPq em 2008, é um dos mais antigos na área no Brasil. É coordenado por professores da UFRGS. Criado em 2004, O Eco é um site de jornalismo com foco em conservação da vida silvestre. Na mesma vertente, há também o site Fauna News

Compreende-se a importância da pauta ambiental, é um assunto transversal a todas áreas de interesse público. O meio-ambiente atravessa os setores políticos, sociais, culturais e econômicos. Entretanto, isso não justifica que o tema seja tratado superficialmente e sendo diluído entre as outras editorias. O jornalismo ambiental exige ser internalizado na mídia com um espaço específico, pois assim as informações podem conscientizar e integrar as necessidades sociais. É importante uma área ambiental designada na mídia com jornalistas especializados e comprometidos com o tema. Caso contrário, a  imprensa  brasileira continuará a promover uma cobertura não ambiental, mas sim das tragédias ambientais. Servindo, apenas, a um caráter emergencial que pouco ampara a questão ambiental.

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