Números de contágio da pandemia não diminuíram, mas cobertura da imprensa sim

Durante todo o período da  crise no Brasil, o jornalismo foi fundamental para divulgação de informações confiáveis sobre a doença, mas  a quantidade de pautas sobre a Covid-19 vem progressivamente encolhendo

Por Andreia Morais

Em 30 de janeiro deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o surto da doença causada pelo novo coronavírus (Covid-19) se tornou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional – o mais alto nível de alerta avaliado pela Organização, até então. Dois meses depois, em 11 de março de 2020, a Covid-19 foi caracterizada pela OMS como uma pandemia. De março até os dias de hoje, mais de trinta e três milhões de pessoas foram contaminadas e mais de um milhão em todo mundo morreram em decorrência do coronavírus. Só no Brasil, foram perdidas mais de 140 mil vidas nesse período, até a publicação deste texto.

O ritmo e a seriedade da pandemia não diminuíram. Ao contrário. Quando tudo parecia estar melhorando e alguns locais do mundo caminhavam para retomar a vida pública, a Comissão Europeia e o Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) emitiram um preocupante alerta na semana passada: alguns Estados-membros da UE estão enfrentando um número maior de casos de Covid-19 do que durante o pico em março, e que o cansaço com o distanciamento físico e o desrespeito às normas começam a ser testemunhados com maior frequência. Apesar dos números de contágio da doença estarem crescentes e o cenário no mundo ser tão grave quanto no  início, a cobertura sobre o coronavírus no Brasil despencou. O que mudou então? Porque não obtemos informações sobre a enfermidade como no começo? O que aconteceu com a ampla cobertura que ocorria nos meses iniciais?

Durante todo o período da pandemia no Brasil, a imprensa foi fundamental para a divulgação de informações confiáveis sobre a situação, pois, além de divulgar orientações médicas de prevenção, ajudou a traduzir estudos científicos sobre a doença para a população, isso tudo em um mundo que anda dominado por fake news. Além disso, em razão da diminuição da transparência do Ministério da Saúde junto à sociedade brasileira, o jornalismo adquiriu uma confiabilidade maior que a dispensada a importantes órgãos governamentais que tratam diretamente da questão da Covid-19.

Um exemplo da confiabilidade adquirida pela imprensa no Brasil se revela em um levantamento realizado pelo Datafolha em março. Segundo os dados, 61% das pessoas confiam nas informações sobre a crise veiculadas por emissoras de TV, 56% nas dos jornais e 50% nas das emissoras de rádio. Índices bem superiores aos atribuídos a redes sociais como WhatsApp e Facebook: 12%. Esses números são importantes, principalmente se levarmos em consideração que vivemos em uma população que repassa indiscriminadamente mensagens de WhatsApp em grupos de família. Revelam também que é em um cenário como esse, considerado por muitos como apocalíptico, que se constitui e se observa se a imprensa está ou não exercendo o seu papel: de manter o público informado, de permitir que a sociedade tenha voz de maneira igualitária e de disseminar medidas de proteção e contenção da doença.

A pandemia não mudou, mas a cobertura da imprensa sim. Para respaldar essa observação, é importante que se considere alguns veículos de imprensa em duas datas: 31 de março, início da crise no mundo, e 25 de setembro, na  semana passada. Foram escolhidos para tal análise: um jornal televisivo (Jornal Nacional), a capa de um veículo impresso (Estadão) e a agenda de um grande portal de notícia (G1). Em 31 de março, 100% das pautas do Jornal Nacional eram sobre a pandemia ou tinham relação com o assunto. Já na edição do dia 25 de setembro, a abordagem do assunto despencou para 22%.  No caso do Estadão, foram analisadas as capas dos dias 31 de março e 25 de setembro. Ambas têm 15 matérias. Enquanto na edição de março 66% das matérias, incluindo a manchete, eram relacionadas à pandemia; em setembro, esse número caiu para 20%. Por fim, o último objeto de análise foi a agenda do dia no site G1, na qual são publicados os principais assuntos da manhã. No portal, as pautas referentes à Covid-19 também tiveram queda. Em março, as matérias em destaque que versavam sobre a doença preenchiam 78% das publicadas na agenda e hoje elas caíram para 25% em setembro.

Para explicar esses números é preciso, antes de tudo, ressaltar que não existe uma resposta fácil sobre os motivos da queda da cobertura da Covid-19 pela mídia brasileira.  Sabemos, entretanto, que o jornalismo muitas vezes se torna refém de valores-notícia que nem sempre dizem respeito apenas aos seus compromissos sociais, mas também às suas necessidades mercadológicas. Desse modo, um dos imperativos jornalísticos no que tange a sua comercialização é de que seu conteúdo deve sempre abarcar a novidade, o que faz com que informações que são publicadas rotineiramente  acabem se tornando menos procurados pelos leitores, pelas audiências, pelos usuários de mídias digitais. 

Embora a pandemia continue sendo relevante e trazendo muitos desdobramentos, pela lógica tradicional do jornalismo (e às vezes de seus consumidores),  o interesse decresce à medida que os meses avançam e o valor-notícia do interesse público (que deveria prevalecer nesse caso) reduz seu impacto, enquanto a sociedade se move em direções que muitas vezes envolvem o negacionismo da doença. E isso tem uma razão em acontecer:   parte da população brasileira prefere negar a real gravidade da Covid-19. Ler o jornal se torna um lembrete indigesto  e diário de que a situação ainda não se normalizou.   E parece que as redações cederam a esse desejo e começam a evitar a cobertura, sob pena de perder ainda mais seus leitores. Entretanto, a pandemia é momento de reafirmar o lugar da notícia séria e verificada, e esse não é apenas um lugar de venda. É um lugar de responsabilidade social.

Por fim, dois últimos fatores merecem ser destacados no que diz respeito à queda de cobertura midiática da pandemia. O primeiro deles é que nos encontramos em um dos mais ricos momentos da história recente do jornalismo, que vinha, há alguns anos, enfrentando obstáculos e limitações em seu trabalho. Foi também durante esse período que o jornalismo fez chegar à população o conhecimento de interesse público acerca da Covid-19 em meio a cenários políticos conturbados no enfrentamento da doença. O segundo, e mais importante, é que essa queda acontece justamente no mesmo momento em que ocorre a flexibilização da quarentena no país, dando uma falsa ideia de que a situação está sob controle,  gerando um outro fator de risco que é não é biológico e sim social: a normalização indevida do atual momento da crise.

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