A mídia, as queimadas no pantanal e o calor no Brasil

É dever da imprensa tratar os incêndios florestais dos últimos meses e o aumento da temperatura como parte do mesmo fenômeno, mas isso não vem acontecendo

Por Lucas Guaraldo

No mês de setembro, o país foi tomado pelas imagens dos terríveis incêndios no Pantanal. No começo de outubro, com a queda do número de postagens que citavam o fogo, parte da imprensa passou a falar da onda de calor histórica que atinge o Brasil. Mesmo sabendo da relação entre a destruição de florestas e o aceleramento do aquecimento global, os principais veículos de imprensa insistem em não relacionar as queimadas dos biomas brasileiros às elevadas temperaturas registradas. 

As mudanças climáticas não são, de forma alguma, exclusividade brasileira. Bilhões de pessoas estão sendo afetadas diariamente por um rápido aquecimento global. Para os pesquisadores, as temperaturas médias devem aumentar um grau por ano e um dos principais causadores dessa alteração climática é justamente o desmatamento. Uma vez que a vegetação é essencial para a regulação da temperatura do ar.

No Brasil, a principal responsável pela manutenção das chuvas, a floresta amazônica, foi vítima de uma série de queimadas em 2019, registrando um aumento de 30% na área afetada em relação à 2018. Segundo a organização não governamental World Wide Fund for Nature (WWF), cerca de um terço dos focos de incêndio na Amazônia tem relação com o desmatamento. Em setembro de 2020, a Amazônia registrou mais áreas incendiadas que em diversos anos anteriores e, de acordo com a NASA, 54% desse fogo foi causado pelo desflorestamento.

Nos principais jornais do país, as queimadas criminosas são geralmente tratadas como tragédias terríveis e acidentais, que tomaram as proporções atuais devido à drástica redução de chuvas na região. São raras as matérias que tratam o fogo não como um acidente e sim como um crime premeditado. Mais raras ainda são as notícias que citam a relação do agronegócio e seus representantes mais famosos com as queimadas na região. 

É interessante ressaltar que,  no Pantanal, o fogo é tratado como algo que surge do nada. Já quando os veículos de imprensa tratam das queimadas na Amazônia, a ligação entre o aumento dos incêndios e o desmatamento é bem mais comum. Porém o crime ainda é tratado como um evento impessoal que apesar de acontecer, não é feito por ninguém

Quando tratam da onda de calor extrema, os jornais se recusam a mencionar a relação dessa alteração no clima com as queimadas do agronegócio, ou até mesmo com o aquecimento global no geral. As notícias sobre o clima quente tem um tom de anedota e acabam se dividindo entre as que repercutem cuidados com a saúde e as que usam a situação para repercutir memes sobre o assunto. No mesmo dia em que o INMET publicou um aviso alertando para o risco de morte devido à alta temperatura, o Correio Braziliense publicou uma matéria reproduzindo os memes mais populares do Twitter sobre o clima em Brasília. 

Tratar as queimadas e a onda de calor como eventos separados é mais que imprudência, é irresponsabilidade. No Brasil, a destruição das florestas virou política pública e a alteração climática é sua consequência mais imediata. Ao não relacionar as tragédias, os veículos de comunicação correm de o risco de atrasar ainda mais o debate a respeito da preservação no Brasil.

Ao tratar das queimadas, sem relacioná-las à boiada que o ministro Roberto Salles prometeu passar nas nossas leis ambientais e ao agronegócio que vem financiando essa expansão, os jornais estão servindo apenas como facilitadores desse processo. É dever da imprensa informar a população e é fundamental que os veículos usem sua força e influência para pautar esse debate. 

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