DO CÔMICO AO EXÓTICO: A REPRESENTAÇÃO DO NORDESTINO NA TV

Em seus 70 anos, a televisão brasileira moldou de forma equivocada o imaginário social sobre o Nordeste

Por Letícia Mouhamad 

Você se lembra da vilã Chayene, de Cheias de Charme; da Maria do Carmo, de Senhora do Destino; do grupo de cangaceiros, de Cordel Encantado; da Tieta e da Gabriela, das novelas de mesmo nome? Certamente, se você não acompanhou essas tramas, ao menos já ouviu falar dessas figuras, uma vez que são alguns exemplos de personagens nordestinos retratados na televisão brasileira que ficaram marcados na memória nacional, seja pelo sucesso da atração como um todo, seja pelo impacto dessas representações no olhar do espectador sobre essa região. Nesta semana, comemora-se o Dia do Nordestino e, como essa data coincide com as comemorações dos 70 anos da televisão brasileira, nada mais justo do que refletir sobre como essa população ainda é retratada nesse meio e quais as consequências disso.

Na teledramaturgia, nota-se que, nos últimos anos, alguns autores têm se preocupado mais em não retratar de forma equivocada ou desrespeitosa grupos sociais marginalizados. Às vezes, funciona e a trama é elogiada; outras vezes, a fórmula do “mais do mesmo” é mantida, e o público nota e repudia. No entanto, a representação de personagens nordestinos quase sempre segue modelos estereotipados que não despertam a mesma preocupação, fato que ao longo dos anos contribuiu para uma visão preconceituosa  e de descrédito por parte do resto do país. Cabe ressaltar também que, mesmo se tratando de um estereótipo, alguns fatos não são necessariamente mentirosos, como é a questão do cangaço e do coronelismo, que realmente existiram; o problema está em tratar esses acontecimentos como únicos ou determinantes, transformando-os em algo espetacular.

Grupo de cangaceiros, liderado por Herculano (Domingos Montagner), em Cordel Encantado

Muito das inspirações para essas histórias se devem aos escritores modernistas da primeira metade do século XX, que encontraram na literatura um mecanismo de denúncia e transformação social. Mas, mesmo que muitas narrativas da TV sejam baseadas em romances de autores dessa região (que também podem reproduzir discursos sexistas ou racistas!), como é o caso das novelas Gabriela e Tieta, adaptações de livros de Jorge Amado, há sempre exageros na linguagem, no figurino ou na atuação que as transformam em histórias caricatas demais e que passam longe da verossimilhança. 

Os pesquisadores João de Sousa e Rafaela Marcolino, autores de  A representação da identidade regional do Nordeste na telenovela, apresentam algumas características que comumente são encontradas  nessas narrativas. Em histórias com um tom mais descontraído, o tipo nordestino segue o que os autores classificam como religioso, bobo e cômico. A personagem Perpétua, de Tieta, por exemplo, segue a lógica da religiosa fervorosa, enquanto as caricatas Chayene, com um típico visual extravagante, e sua empregada Socorro, de Cheias de Charme, são enquadradas no tipo bobo e cômico.

A extravagante personagem Chayene (Cláudia Abreu), de Cheias de Charme 

Já no que tange aos melodramas, Sousa e Marcolino apresentam quatro tipos: traidor, justiceiro, vítima e, de novo, o bobo. Estes são representados respectivamente pela viúva Porcina, de Roque Santeiro; por Tieta, na novela Tieta; por Maria do Carmo, em Senhora do Destino; e por Candinho, em Flor do Caribe, que anda com uma cabra para cima e para baixo. Soma-se a essas características o atraso ou a falta de tecnologia desses locais, em especial no sertão, ou ainda a ideia de um Nordeste mítico e idealizado, com um litoral exuberante e paradisíaco. 

O personagem Candinho (José Loreto,) em Flor do Caribe, faz alusão ao mito do “bom selvagem”: sujeito com uma proximidade maior da natureza do que da sociedade civilizada

Os personagens nordestinos estão sempre ligados às questões puras, modestas, infantis e ingênuas da raça humana. É como se esses sujeitos e suas sociedades não passassem por influências e ‘contaminações’ dos mercados globais. (Sousa & Marcolino, 2016, p. 105)

Outro fator que merece atenção na construção dessas narrativas é o sotaque utilizado pelos personagens, que nem sempre é fiel ao estado que é representado. Afinal, em muitas novelas que se passam em lugares diferentes do Nordeste, é percebida a mesma fala, ainda que em um único estado já existam diferenças entre o interior e a cidade. Tais distinções não são notadas apenas no plano fonético, mas também nas gírias e expressões, especialmente entre os estados da Bahia, Pernambuco e Ceará.

Além disso, em seu livro Preconceito Linguístico, o linguista Marcos Bagno mostra como um mesmo fenômeno fonético, a palatalização, pode ser observado em uma variante linguística do Sudeste e da zona rural nordestina e, no entanto, somente nesta última é considerada “inadequada”. Sobre isso,o autor resume: “Então, se o fenômeno é o mesmo, por que na boca de um ele é “normal” e na boca de outro ele é “engraçado”,  “feio” ou “errado”? Porque o que está em jogo aqui não é a língua, mas a pessoa que fala essa língua e a região geográfica onde essa pessoa vive.”

Não se pode esquecer, por fim, que muitas vezes a produção dessas atrações e, principalmente o elenco, são de todos os estados do Brasil (em peso, do Sudeste), menos do Nordeste. Provavelmente isso ajude a explicar alguns dos equívocos mostrados. O programa humorístico e os filmes de Os Trapalhões, por exemplo, mesmo estrelado pelo cearense Renato Aragão, tinha toda a produção e resto do elenco oriundos de outros lugares do país e reforçou por meio da comédia preconceitos de todos os tipos. 

Cena do filme Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, dirigidos por Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, ótima sugestão de bom filme e boa representação

Talvez os melhores exemplos de boas representações, ou pelo menos aquelas menos caricatas, estejam no cinema, que tende a ousar e se arriscar mais que a teledramaturgia, ainda presa a velhos mitos. O aclamado filme O Auto da Compadecida, dirigido pelo pernambucano Guel Arraes, mesmo tendo o seu elenco composto por atores sudestinos, consegue ser fidedigno à obra de Ariano Suassuna, já que utiliza como base para o roteiro os contos de cordel. Outros exemplos (e sugestões) são os filmes Ó, Pai, Ó, de Monique Gardenberg, e Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, que tem toda a produção, direção e elenco nordestinos, além de críticas sociais necessárias. 

Representar o Nordeste, portanto, é um exercício importante para recuar a preconceitos que perduram há tanto tempo no imaginário coletivo dos brasileiros e que foram construído em grande parte pela televisão. E Incentivar a produção local, em vez daquelas produzidas nos grandes estúdios de São Paulo ou Rio de Janeiro, buscando atores, diretores e roteiristas do seus estados, já é um passo valioso.

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