Horrores indescritíveis

Lovecraft Country e Watchmen se apossam de gêneros fictícios e historicamente brancos para contar um terror negro real

Por Victor Cesar Borges

Atenção: Esse texto contém spoilers do nono episódio de Lovecraft Country

  Os altos números de audiência e a recepção fortemente positiva dos críticos e do público consolidaram Lovecraft Country como um dos maiores sucessos de 2020, que pode repetir, na próxima edição da premiação, o efeito que Watchmen (baseada na HQ homônima de Alan Moore) teve nos prêmios Emmy deste ano, quando venceu quatro das 11 indicações que recebeu. Ambas as produções da HBO abordam as consequências reais do racismo e também os efeitos que teriam em elementos fantásticos, como magia, ficção científica e super-heróis. Existe, porém, outro elemento importante em comum entre elas: a visibilidade sobre uma tragédia que sofreu forte apagamento histórico, O massacre de Tulsa, Oklahoma em 1921, o maior episódio de violência racial da história estadunidense.

No nono episódio da adaptação do romance Território Lovecraft, de Matt Ruff, o trio de protagonistas viaja no tempo até o dia do massacre e, para retornar ao presente, precisa se defender de assassinatos, tiroteios, incêndios e bombardeios. Já no episódio piloto da minissérie de 2019, baseada no romance gráfico de Alan Moore, duas famílias negras tentam escapar da cidade e salvar seus filhos pequenos em meio a incêndios, bombas aéreas e tiroteios. 

  A violência das cenas é gráfica, os horrores verossímeis e, quando a estreia de Watchmen foi ao ar, a grande parte dos espectadores pensou se tratar de um acontecimento fictício do universo alternativo do programa.

O massacre

Esse desconhecimento não foi acidental, pois registros históricos foram destruídos, grande parte dos sobreviventes deixou a cidade e os que ficaram resistiam em falar sobre o acontecido. Apenas nesse ano passou a fazer parte da grade curricular da rede ensino de Oklahoma e, até hoje, não há consenso sobre aspectos importantes, como a estimativa de mortes – que varia entre de 75 a 300 vítimas majoritariamente negras -, nem mesmo sobre o estopim do confronto.

O que de fato aconteceu foi que, em 31 de maio de 1921, Dick Rowland, engraxate negro de 19 anos, foi acusado de assediar Sarah Page, ascensorista branca de 17 anos, em um elevador. Page disse à polícia que Rowland tocou em seu braço e que não prestaria queixa. O jovem foi levado à delegacia onde mais de mil brancos armados se concentraram para linchá-lo. Em resposta, um grupo de cerca de 60 moradores negros, também armados, se dirigiu à delegacia. Lá, ocorreu a primeira troca de tiros que cresceu até que o caos se espalhasse pela cidade. O setor comercial e grande parte do residencial da área majoritariamente habitada por pessoas pretas foram saqueados, incendiados, bombardeados e totalmente destruídos.

Tulsa era conhecida como a Wall Street Negra, por ser a comunidade preta mais rica dos Estados Unidos na época. Após as chacinas, essa comunidade nunca mais conseguiu se recuperar financeiramente e, até hoje, apresenta taxas de pobreza mais elevadas e expectativa de vida menor que em relação às áreas da cidade historicamente habitadas por brancos. Apesar da polícia ter armado civis brancos e os encorajado a matar, ninguém foi condenado ou preso e nenhum tipo de reparação foi dados aos sobreviventes. 

Buscas por supostas valas comuns onde vítimas teriam sido enterradas foram completadas em julho desse ano sem grandes resultados.

Encobrimento histórico

O apagamento do ocorrido foi proposital, pois foi uma ação deliberada para apaziguar a forte tensão racial da época e impedir que confrontos semelhantes se repetissem. Sobre a revolta, o então presidente dos EUA, Warren G. Harding declarou: “Apesar dos demagogos, a ideia de nossa unidade como americanos tem se sobreposto a todos os apelos de mera classe e grupo. E, assim, desejo que ocorra nessa questão de nosso problema de raças”.

A fala corrobora os estudos do sociólogo Stuart Hall, em A identidade cultural da pós-modernidade, nos quais ele afirma que identidades nacionais aparentam evoluir organicamente com o tempo, mas, na realidade, são fabricadas por grupos no poder. Elites governamentais, econômicas e midiáticas empregam um conjunto de narrativas que homogeneizam diferentes identidades em uma só superior a todas as outras. Essa construção é responsável pela manutenção de sistemas de opressão e minimiza os efeitos sofridos pelas vítimas.

Visibilidade

Por tornar o massacre parte central de suas respectivas tramas e mostrar os diferentes tipos de violência física e simbólica que pessoas pretas sofreram na época, e até hoje, sem se preocupar com a palatabilidade das cenas para pessoas brancas, Watchmen e Lovecraft Country foram diretamente contra esse apagamento, uma decisão proposital dos envolvidos nas produções, o que reforça a ideia de que tão importante quanto quais histórias são contadas, é quem as conta.

H. P. Lovecraft é considerado um dos autores de fantasia mais importantes da história, criou um subgênero de terror e influência direta para escritores atuais, como Stephen King, Neil Gaiman e, obviamente, Matt Ruff. Seu trabalho é tão aclamado e reverenciado que por décadas ofuscou seu racismo explícito. Mas a adaptação de Misha Green e Jordan Peele, a criadora e um dos produtores de Lovecraft Country, se apropriam dos conceitos de Lovecraft para denunciar o viés racista de suas obras e igualá-lo aos monstros cósmicos e horrores indescritíveis sobre os quais ele escrevia.

Green não é sutil ao denunciar a ótica desumanizadora da branquitude sobre dinâmicas raciais. Um poema em que o escritor descreve negros como sub-humanos é mencionado, os protagonistas são caçados por policiais e a antagonista declara abertamente não se importar com o linchamento de um garoto negro de 14 anos (também uma tragédia real). Dessa forma, as alegorias criadas pela roteirista e diretora mostram que absurdas violências não devem ser superadas ou esquecidas, mas sim servirem de memória para ativamente combatê-las, afinal o que não visto não pode ser erradicado.

No fim, apesar de não terem sido responsáveis por novas legislações ou complexas mudanças sociais, essas produções deram um grau de visibilidade que dificilmente poderia ter sido alcançada por outros meios, o que, para muitas vítimas de racismo, é o mais próximo de justiça que podem obter.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s