Entre mandos e desmandos do atual Governo, TV Brasil se descola de sua função pública e o futebol é utilizado como ferramenta política

Espaço da emissora pública foi usado para transmissão de partida de
futebol bancada pela CBF

Por Malu Sousa

O primeiro tempo já se aproximava do fim quando, na partida entre Peru e Brasil ocorrida em 13 de outubro, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022, o narrador André Marques achou oportuno mandar um “abraço especial” para o presidente da República, Jair Bolsonaro. Estava começado o debate. Telespectadores dividiram opiniões nas redes sociais e o assunto foi parar entre os mais comentados do dia. 

A transmissão repentina do jogo pela TV Brasil já era causa de surpresa, o abraço então – enviado a Bolsonaro e, também, aos dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – chamou atenção e gerou estranhamento em quem assistiu. Até o dia da partida, não havia previsão de transmissão na TV aberta, mas, poucas horas antes do apito inicial foi anunciado que seria na emissora pública. Marques, que compõe o quadro da Vasco TV, foi convidado às pressas para, ao lado do jornalista da casa, Márcio Guedes, comentar a partida. Guedes chegou a complementar o comentário do colega citando os times de preferência do presidente. 

A TV Brasil é uma emissora que desde sua fundação, em 2007, tenta se colocar como pública. Bem diferente da atuação de uma emissora estatal, como foi por anos a extinta NBR. Enquanto estatais estão a serviço do estado, no caso da NBR, mais precisamente do Poder Executivo, emissoras públicas estão a serviço da sociedade. É para a sociedade e pela ótica da sociedade que uma emissora dessa natureza deve trabalhar. Mas isso não está tão claro assim, tanto que veículos como O Estado de S. Paulo, Terra, Uol, Veja entre outros, ao noticiarem o ocorrido, se referiram à TV Brasil como estatal. 

Quando um jornalista, na função de narrador, manda abraços para o presidente, membros do governo e dirigentes da CBF em tal espaço, coloca em xeque toda a credibilidade e o caráter público da emissora. Fere o princípio de independência – contido em documento elaborado pela Unesco, em 2001, para orientar e tentar padronizar a radiodifusão pública no mundo – que estabelece a autonomia do canal contra pressões financeiras, comerciais ou influência política.  

Por que nada foi feito a respeito? Nos primeiros meses da atual gestão governamental, a TV Brasil passou por mudanças que alteraram, radicalmente, os moldes da programação. Desde 2017 vinculada à Casa Civil e, consequentemente, passível de interferências diretas do Poder Executivo, a emissora teve unida à sua estrutura, a estrutura da NBR. A TV ainda carrega o nome de TV Brasil, talvez porque esta detinha maiores percentuais de audiência na época. O fato é que, desde então, está indefinido o caráter da emissora. Não se sabe se é pública ou estatal. Sem essa informação primordial, como devem agir os órgãos de fiscalização?

A União das TVs não respeita o princípio constitucional de complementaridade, que prevê a existência de Sistemas de Radiodifusão Estatais, Privados e Públicos. Dois sistemas de radiodifusão de funções diferentes não deveriam estar unidos em uma única emissora. Eles até pertenciam ao mesmo grupo de comunicação, no caso, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), mas ambos atuavam de forma independente. 

Dessa maneira, podemos dizer que os abraços constituem apenas a ponta do iceberg do problema pelo qual passa a TV Brasil. Entre mandos e desmandos, a TV que nos primeiros anos de criação foi até apelidada de “TV Lula”, jamais passou por injunções e intervenções do Poder Executivo como ultimamente.

Uso da seleção brasileira como ferramenta política 

Os dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também foram lembrados durante a transmissão. O presidente da instituição, Rogério Caboclo foi um dos contemplados recebeu uma cota de “abraço especial”. 

A menção se deve ao fato – repercutido como “agrado da CBF” – de que, a pedido do Governo, foi a própria CBF que intermediou os direitos de transmissão com a Federação Peruana e cedeu à TV Brasil a oportunidade de transmitir o jogo. Marques, no segundo tempo da partida, chegou a ler a seguinte nota: “Em nome da Secretaria Especial de Comunicação Social da Empresa Brasil de Comunicação e do secretário Fábio Wajngarten, agradecemos à CBF, nas pessoas do presidente Rogerio Caboclo, do secretário-geral Walter Feldman e do diretor Eduardo Zerbini. “

O intervalo da partida foi utilizado como vitrine de ações governamentais. Flashs do programa estatal Governo Agora noticiaram a sanção do projeto responsável por alterar as regras da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e a audiência pública do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre o Pantanal no Senado.

Dessa maneira, não só o futebol como a própria seleção, se confirmam na campanha de reeleição presidencial com dois anos de antecedência, na emissora que era para ser pública.

Em tempos de discussão sobre liberdade de expressão no meio esportivo, muitos questionamentos foram feitos a respeito do caso. Os narradores em questão são, antes de tudo, jornalistas. Há de se manter o decoro, de se observar as boas práticas que exige a profissão. Tão grave quanto a parcialidade dos jornalistas, foi a escolha do espaço que eles usaram para a manifestação de apreço pelas as autoridades.

O placar final foi Peru 2 x 4 Brasil. Vitória de Seleção Brasileira, derrota da TV Brasil.

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