Cancelamento: considerações sobre o banimento virtual

Por Lucas Guaraldo

Desde 2018, tem surgido, como uma narrativa cada vez maior em diversos campos da mídia, o argumento de que vivemos em uma era de indignação digital, tribunais de redes sociais e linchamentos virtuais. Em 2019, “cultura de cancelamento” foi eleito como o termo do ano pelo Dicionário Macquarie, que anualmente elenca expressões que moldaram o discurso mundial. Mas será que estamos realmente tratando deste assunto como deveríamos?

Segundo Byung-Chul Han, em seu livro No Enxame: Perspectivas do digital (Vozes, 2018), com a digitalização das relações interpessoais, a sociedade passou a se comportar como uma massa caótica, disforme e extremamente individualista. Para o filósofo, passamos por momentos de shitstorms, ou seja, indignações repentinas, violentas e que raramente resultam em algum resultado concreto, devido à sua curta duração.

    No Brasil, o cancelamento afeta principalmente celebridades, como Anitta, Luísa Sonza e Felipe Neto. Em 2020, devido à pandemia da Covid-19 e ao isolamento social que a seguiu, centenas de pessoas foram “canceladas” por furar a quarentena e colocar outras pessoas em risco de saúde. Páginas foram criadas nas redes sociais para denunciar festas, shows e outros eventos, assim como seus envolvidos, sejam eles famosos ou não. 

Mas o fenômeno, na maioria dos casos, é menos extremo do que parece. A blogueira fitness Gabriela Pugliesi, por exemplo, foi cancelada por fazer uma festa com amigos durante o início da pandemia e teve que bloquear suas contas em redes sociais, mas voltou logo depois da poeira baixar e segue sendo um figura importante para marcas e patrocinadores com seus 4 milhões de seguidores.

Outro caso famoso é o do cantor Biel, que foi cancelado e condenado na justiça por ofender uma jornalista que fazia perguntas acerca das acusações de agressão feitas pela ex-esposa do músico. Hoje, Biel participa de um reality show de subcelebridades, assim como outros cancelados, onde é considerado um dos favoritos, devido aos seus vários fã-clubes. 

Nos portais de notícia, o tema é extremamente popular. São diversos os exemplos que tratam do cancelamento como um ataque exagerado de internautas sedentos por justiça na web ou ironizando a indignação causada por alguma comentário feito por celebridades. Nas páginas de fofoca, que correspondem a parte importante dos cliques de vários jornais, o assunto frequentemente gira em torno das celebridades banidas do dia.

O assunto é delicado e cheio de nuances, já que o termo “cancelamento” é usado para descrever uma série de eventos completamente diferentes entre si, como ataques à figuras proeminentes ou problematizações de comentários feitos por usuários das internet. Para o debate avançar, é preciso concordar que uma celebridade ser responsabilizada por um comentário problemático, ou mesmo criminoso, é muito diferente de um adolescente anônimo ser atacado por algum deslize na internet.

No caso de anônimos, a linha é muito tênue entre atacar com forças e números excessivos e expor algum comportamento incorreto para gerar debate sobre o tema. Já no caso das celebridades, alegar cancelamento pode servir como uma proteção, pintando de insensato e exagerado o público que critica uma ação perfeitamente digna de críticas. A escritora J.K Rowling, por exemplo, declarou que estava sendo cancelada após ser criticada pelos seus comentários transfóbicos.

É importante lembrar que, assim como em boa parte dos fenômenos sociais no Brasil, a força do cancelamento sofrido tem muito a ver com cor, gênero e classe social. Pessoas negras, por exemplo, estão muito mais suscetíveis aos shitstorms da internet, já que, por se tratar de um linchamento virtual, os ataques desenfreados acabam sendo guiado pelos preconceitos mais internalizados da população.

Outro ponto delicado é que, mesmo que a cultura da indignação sirva para gerar debates sobre homofobia e machismo, ela não pode ser usada como substitutivo para a militância desses movimentos. É dever do jornalismo, tendo em vista seu papel na proteção dos direitos humanos, não confundir cobranças de internet com movimentos sociais históricos, estruturados e amplamente embasados.

Em resumo, o cancelamento não deveria ser retratado como os veículos de imprensa teimam em tratá-lo. As avalanches de ofensas que volta e meia atravessam a internet têm sim um potencial destrutivo, ainda mais quando atingem pessoas que não tinham a menor intenção de virar alvo do debate público. Assim como nem toda indignação direcionada à celebridades é um exagero ou um ataque criado apenas para “acabar com a vida das pessoas por bobagem”. 

Discutir o cancelamento de forma rasa é prejudicial para todos os debates de comunicação na internet, pois, devido às suas várias aplicações, ele pode ser real ou apenas um exagero, pode ser um problema, ou apenas servir como desculpa e, mais importante, ele não é de forma alguma novo. 

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