Um lugar inseguro

Quando a exposição de menores na internet pode alimentar cultura negativa e prejudicial à infância

Texto por Keity Oliveira

No último dia 18, domingo, viralizou na internet o vídeo de uma garotinha em seu aniversário de 3 anos. Chegado o momento de assoprar a vela, a aniversariante se prepara, mas a chama é apagada por outra menina. O vídeo mostra a menina fazendo cara de deboche ao concluir o ato, fazendo a aniversariante se sentir desrespeitada e reagir com violência. Após puxar o cabelo da mais velha, a garotinha se mostra chateada e chora. Mais tarde, descobriu-se que as duas são irmãs. O vídeo foi um sucesso nas mídias sociais, gerou diversos memes e teve até divisão de “torcidas” com internautas escolhendo um lado da história para apoiar. Porém, o que de um lado foi motivo de divertimento, no outro ocasionou revolta. O motivo: a clara exposição das crianças na internet. Sendo irmãs ou não, muitos internautas não acharam nada divertido vê-las em situação de vulnerabilidade, sendo expostas de maneira tão invasiva, sem ao menos poderem escolher se querem ou não ser motivo de entretenimento para desconhecidos.

Em entrevista para o G1, a mãe das meninas falou sobre os ataques que a filha mais velha vem sofrendo e pontua que a menina se sentia sozinha e sempre quis ter uma irmã ou irmão. E encerra a fala dizendo que a relação entre irmãs é assim mesmo, e que elas não se odeiam: “elas só representaram o que acontece nas casas de todo mundo”.

Esse assunto levanta o debate sobre a exposição de crianças e adolescentes, prática que ocorre há bastante tempo. No entanto, com o avanço da internet, essa preocupação se torna ainda mais recorrente e necessária, visto que se torna cada vez mais comum e o alcance é muito maior do que na TV, por exemplo. 

Na TV, além de atrizes e atores mirins, também vemos com frequência programas com crianças sendo “protagonistas” do entretenimento. Há algumas semanas, uma ex-participante do The Voice Kids Brasil relatou na sua conta do Twitter a experiência no programa e enfatizou o porquê de não aprovar esse tipo de passatempo.

A jovem, que agora tem 15 anos, participou do programa com apenas 13. “Na minha opinião, The Voice Kids deveria ser proibido”, afirmou. A adolescente pontuou que ninguém abusou dela ou a tratou mal, a crítica feita se trata do despreparo dela e do programa. Para ela, a ideia de participar de um reality como esse era fantástica, mas sendo muito nova, não tinha preparo psicológico nem emocional para lidar com o julgamento do jurados, enquanto, segundo ela, a psicóloga responsável dava apenas respostas padrão que não eram suficientes para a situação em questão.

“Fui desqualificada nas batalhas e eu perdi toda a minha autoestima. Tudo o que fazia eu querer cantar. Toda a mágica que a música tinha pra mim foi embora porque eu pensava que não era boa o suficiente pra continuar. Alguém lá dentro me designou ruim demais para seguir no show”, disse Bel Sant’Anna. 

Muitos dos comentários na thread feita pela ex-participante a criticavam, acusando-a de “cuspir no prato de comeu”, o que não é anormal na internet. A prática de ataques nas redes sociais é comum e não é menos agressiva por se tratar de alvos mais novos, as pessoas que se escondem atrás de uma tela atacam crianças, adolescentes e adultos na mesma proporção. É perceptível o sentimento de posse e a falsa ilusão de intimidade que o público tem em relação a crianças que cresceram em frente aos holofotes. Um exemplo é a atriz e apresentadora Maisa Silva, que estreou na TV aos 3 anos de idade. 

Hoje, com seus 18 anos recém completados, ela já passou por situações de extrema exposição e desconforto, como quando, num programa ao vivo, o apresentador Silvio Santos incentivou o assédio que Maisa estava sofrendo por parte do jornalista Dudu Camargo. Muitos veículos pautaram o tema e mais uma vez, a internet se sentiu no direito de apontar dedos, chamando a adolescente – vítima do assédio – de grossa, mal educada, entre outras ofensas. Na época, Maísa tinha 15 anos e Dudu, 19.

Mas esse tipo de situação não se limita apenas a uma esfera. Em suas redes sociais, a apresentadora teve de se pronunciar a respeito de um assunto muito particular, sua vida sexual. Com frequência lhe era perguntado a respeito do seu relacionamento íntimo com o namorado, perguntas como “vocês transam?”, “será se?” choviam nas redes sociais da atriz.  

Para acabar com essa invasão de privacidade tão absurda, Maisa se pronunciou nos stories, em sua conta no Instagram: “muito triste ter que vir aqui, em um dia que atingimos a marca de mais de 50 mil mortos por covid, dar satisfação a vocês para dizer que não acho justo tratarem minha vida sexual como se ela não fosse minha e privada”, lamentou.

Ainda falando no SBT, a emissora é conhecida por expor jovens e sobretudo crianças a situações humilhantes, vergonhosas e até de adultização precoce, temos Larissa Manoela, que embora tenha começado sua carreira um pouco mais tarde, assim como Maisa também estreou cedo. 

A atriz de 19 anos lida desde cedo com a invasão que a exposição lhe trouxe. Desde sempre julgada por sua vida amorosa, tem seu corpo frequentemente sexualizado por pessoas que não a conhecem, mas se sentem no direito de excluir todo o seu lado profissional e reduzi-la apenas a uma parcela de sua vida pessoal.

No YouTube, a explanação é ainda mais preocupante, pois as leis de regulamentação nesses casos ainda são falhas no nosso país. O caso recente da Youtuber mirim Bel para Meninas causou um rebuliço nas mídias sociais. A menina estreou no YouTube aos 6 anos de idade e, como apontou o público, se comporta como criança mesmo que seja uma pré-adolescente de 13 anos. Internautas acusaram a mãe da menina de explorá-la, obrigando-a a agir de maneira infantil para manter a audiência do canal e ganhar dinheiro em cima disso. Ficaram tão preocupados com a garota que subiram a hashtag #SalveBelParaMeninas, pedindo que a justiça intervisse no caso.

O número de youtubers mirins é grande e traz preocupação pelo nível da apresentação, além da influência que essas crianças têm sobre as outras crianças que as assistem. A supervisão dos pais é essencial, mas a sociedade e as autoridades não perdem sua parcela de responsabilidade, visto que, segundo o Estatuto da Criança (ECA), é dever de todos zelar pelos direitos da infância e da adolescência. 

  • Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
  • Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
  • Art. 70. É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente.

Além do ECA, o artigo 227 da Constituição Federal diz:

  • Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

A prioridade absoluta tem como objetivo assegurar “por meio de suas atividades, busca informar, sensibilizar e mobilizar pessoas, famílias, organizações, empresas e o poder público para que assumam, de forma compartilhada, este dever constitucional, um verdadeiro projeto de sociedade e país”. 

Riscos que implicam na exibição precoce das pessoas

Além de youtubers, as crianças também tem seu próprio perfil no Instagram, muitas vezes, antes mesmo de nascer. É evidente que com o número de seguidores nesses perfis, a publicidade se interessa, trazendo lucros para os pais. Porém, alguns profissionais defensores dos direitos das crianças e adolescentes enfatizam a necessidade do cuidado ao se tratar desse assunto. 

Em um vídeo para o Instagram, a pesquisadora Gabriela Amorim explica de maneira bem rápida e didática os riscos que são corridos quando postamos fotos de crianças usando fralda, roupa de banho e afins, pois podemos estar dando espaços para pedófilos. A pesquisadora salienta que qualquer pessoa pode ser pedófila e que há diferentes tipos de abusadores, inclusive com diferentes “gostos e interesses”.

E seguindo essa linha, podemos falar sobre a adultização de crianças e como é tratada de maneira natural e comum. Dado o exemplo da cantora Mc Melody, onde fica evidente o alto nível de adultização da jovem, pelo pai, com clara intenções em lucrar. O caso que repercutiu e foi parar na justiça não é o único, e com a alta exposição nas redes sociais se torna mais frequente.

O discurso de que mulheres são livres e podem fazer o que quiserem (porque podem) se perdeu um pouco e acabou por deixar subentendido que essa liberdade está ligada diretamente com a exposição do corpo, principalmente do corpo nu ou semi-nu. O perigo se encontra na informação que não chega por completo e faz com que jovens menores de idade exponham seus corpos nas redes, dando ainda mais oportunidade para pedófilos e outros criminosos agirem, como recentemente foi protagonizado pela atriz Mel Maia.

Em comemoração aos seus 16 anos, Mel Maia postou um Lomotif – aplicativo que permite a criação de pequenos filmes usando vídeos e fotos do celular – fazendo um compilado de fotos e vídeos de si mesma. Dentre as imagens, a atriz aparecia de biquíni e dançando de maneira sensual. E qual é exatamente o problema apontado? Ao contrário do alguns pensam, inclusive a própria Mel, não é o empoderamento de uma menina que se sente bem ao compartilhar fotos e vídeos de si. Como a socióloga Natália Oliveira explica em entrevista ao Purebreak, a questão é mais complicada, pois como foi explicado acima, a exposição de corpos de menores na internet facilita e alimenta a cultura da pedofilia. Com Mel foi ainda mais rápido, minutos após a publicação do vídeo, o conteúdo já tinha ido parar em sites de pornografis e afins. 

A jovem apagou o vídeo, mas não parece ter entendido bem a necessidade de fazer-lo “apaguei meu lomotif, já que não posso mais me amar”, postou Mel em seu perfil no twitter após apagar a publicação do vídeo.

Assim como Mel, há muitos outros adolescentes interpretando que para se amar é preciso publicar imagens do seu corpo na internet. E como em outros casos, crianças de todas idades são expostas nas redes sociais, na maioria das vezes pelos pais ou familiares, com a intenção de registrar momentos únicos e fofos, mas sem ter noção dos riscos dessa prática inocente. Por esses motivos, é importante que a informação seja passada a todas e todos, sobretudo aos pais e responsáveis dessas crianças e adolescentes, mas sem que a sociedade perca seu papel na defesa dos direitos das pessoas em questão.

Porque o YouTube não é um lugar 100% seguro para crianças 

No ano passado o youtuber Matt Watson fez uma denuncia contra o Youtube. Em seu canal publicou um vídeo revelando a existência de um “circuito de pedofilia” na plataforma. No vídeo, Matt mostrou como com apenas alguns cliques era possível ter acesso a vários conteúdos que sexualiza crianças ou as expõe de maneira inadequada. Usuários utilizam de contas falsas para fazer comentários impróprios em vídeos inofensivos de crianças, por vezes comentando o momento exato em que essas crianças aparecem em posições ou fazendo gestos que poderia ser sexualizado – além de compartilharem links que dão acesso a outros locais de conteúdo pedofilo.

O YouTube tomou conhecimento desse problema muito antes da denúncia feita por Watson, videos conhecidos por “Elsagate” virou febre na plataforma. Estes conteúdos exibiam personagens famosos, como super-heróis e princesas da Disney, fazendo performances violentas, como cortar a língua, e envolvendo o consumo de drogas e insinuações de fetiches sexuais. Embora o conteúdo não devesse ser acessado por menores, era um sucesso entre eles, já que a thumbnail desses vídeos chama a atenção por ser colorida e envolver ícones infantis.

Em fevereiro de 2015, foi anunciado a criação do YouTube Kids, um app com algoritmos que garantia a segurança dos usuários – as crianças. O anunciante revelou que o app foi desenvolvido pensando nos pais, que por alguma razao, nao conseguem monitorar o que seus filhos acessam na internet. Mas o que acontece não é o que foi prometido na divulgação do produto. O algoritmo não considera todos os canais que replicavam o conteúdo intitulado como Elsagate, e apesar de alegar que app havia sido desenvolvido com a ajuda de advogados ligados a proteção da crianças, além do conteúdo já mencionado ainda foi possível encontrar animações onde personagens da Disney praticavam atos sexuais explícitos, uso de drogas, “desafios” que pediam para a criança fazer atos perigosos, como brincar com fogo e insinuaçoes sobre pedofilia. E segundo a investigação feita pela BBC, esse tipo de conteúdo ainda é extremamente popular. 

Além de estarem circulando livremente pela plataforma, esse conteúdos também são monetizados. Foi apenas quando grandes marcas como Nestlé, Disney e Epic Games – criadora do jogo Fortnite – não querendo ter seus nomes vinculados, mesmo que indiretamente, à praticas de pedofilia retiraram os investimentos feitos nas publicidades veiculadas no YouTube que o mesmo tomou as devidas providencias. 

Em 48h o YouTube removeu milhares dos comentários que sexualizavam crianças, centenas de contas falsas e diversos vídeos que, mesmo sendo inofensivos, colocam crianças em eventuais situações de sexualização. Em todos os casos mencionados o YouTube manteve o mesmo posicionamento: garantir que esse conteúdos vão contra suas diretrizes de uso. E ainda que afirmam haver um time que busca sempre melhorar o uso da plataforma, não fazem nada efetivo a menos que os anunciantes começam a “pular fora”. 

O YouTube se mostra muito pacífico diante de tantas denúncias, não podendo alegar desconhecimento dos fatos, mas acatando apenas um número alto de denúncias em determinados vídeo e comentários. Mesmo como o esforço de separar a empresa dos criadores de conteúdo que utilizam da plataforma para a publicação de vídeos, a mesma ainda tem a sua parcela de responsabilidade e sabe-se que não faltam recursos financeiros e técnicos para garantir a proteção necessária a todos os usuários que acessam o site.

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