VIDA EM JOGO: SURTOS DE COVID-19 NO FUTEBOL BRASILEIRO E IRRESPONSABILIDADE NOS CAMPOS

Por Júlia Mano

O mundo registrou um novo recorde diário de mortes por covid-19 no dia 18 de novembro. De acordo com o levantamento feito pela Johns Hopkins University, foram 11.274 óbitos. Hoje, 20 de novembro, foi protocolado 1.368.117 perdas e, ao todo, 57.309.785 pessoas já foram contaminadas pelo coronavírus desde novembro do ano passado – quando os primeiros casos foram diagnosticados em Wuhan na China. Como um retrato da sociedade, o avanço da pandemia também é percebido dentro de campo, nesta semana, somente na série A do Campeonato Brasileiro, 62 atletas tiveram teste positivo

Com o aumento de contaminados na Europa, especialistas afirmam que o continente está passando pela segunda onda do coronavírus. Por causa disso, alguns países, como Itália e França e Áustria, adotaram medidas para conter o avanço do vírus novamente. O comércio voltou a ser fechado, foi decretado toque de recolher em algumas cidades, mas os campeonatos de futebol não pararam, diferente da ação adotada no início do ano, quando ocorreu no pico da doença. Além dos torneios nacionais, também está ocorrendo a nova temporada da Champions League em que se mobiliza os times de diversas localidades europeias.  

No Brasil, o pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Domingos Alves, afirmou à BBC Brasil que o país já está na segunda onda da covid-19. O seu apontamento é baseado na análise da taxa de reprodução do vírus no território brasileiro, em que consiste no cálculo da quantidade de pessoas contaminadas. Dessa forma, pode ser mensurado quantos indivíduos podem ser infectados. Quando o índice está acima de um, a pandemia está em crescimento, abaixo disso, ela está desacelerando. No dia 16 de novembro, o brasileiro era de 1,12.

Assim como na Europa, o Brasil também não paralisou os eventos esportivos e nem prevê neste momento de um novo crescimento do contágio, também adotando uma postura divergente do início do ano, em que as competições foram interrompidas. Atualmente, os times de futebol estão disputando a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro, a Copa Sulamericana e Libertadores. A temporada 2020/2021 da Superliga de Vôlei já foi iniciada, bem como a primeira fase do NBB (Novo Basquete Brasil) 2020/2021. Além desses, estão acontecendo os duelos classificatórios para a Copa do Mundo de 2022, em que estão participando os jogadores que atuam nas equipes nacionais e internacionais, como Firmino atacante do Liverpool, Thiago Galhardo do Internacional e o zagueiro Marquinhos do PSG (Paris Saint-Germain) que foram convocados por Tite para o jogo da última terça, 17, contra o Uruguai.  

Ao longo da história do Brasil (e do mundo), o futebol acompanhou debates, mudanças sociais, sem contar as oportunidades que oferecem às pessoas para que tenham poder de escolha sobre o seu futuro. Neste ano, o debate sobre racismo e violência contra a mulher entrou em campo, no início da pandemia no país, a defesa do isolamento e os cuidados de proteção para conter o avanço do vírus também. Mas, à medida que a população banalizou a doença – com o aval e estímulo do presidente da república e outros representantes políticos – a postura no meio futebolístico também foi alterada.

O Campeonato Carioca retornou no fim de junho – no pico da pandemia – sob pressão do Flamengo, com o apoio do presidente e do governador do Distrito Federal e torcedor do time, Ibaneis Rocha. Além dos protocolos terem sidos definidos com agilidade, baseados no implantado pela UEFA (Union of European Football Associations) para o fim da Champions League 2019/2020, não foi feito um recorte e análise para a realidade brasileira (principalmente para o estado do Rio de Janeiro). O futebol foi retomado no Maracanã no dia 18 de junho, com vitória do rubro-negro sobre o Bangu. Além dos três gols, a partida foi marcada pelas duas mortes por covid-19 que aconteceram no hospital de campanha que era mantido no estádio.

Depois do Carioca, os outros torneios estaduais foram sendo retomados à medida que os clubes conseguiram liberações dos governos locais. Ainda sem finalizá-los, começou o Campeonato Brasileiro 2020 em que, hoje, é constatado a falha dos protocolos determinados pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e o reinício precipitado das competições.

Nesta semana, o meio futebolístico, bem como a imprensa esportiva, começou a debater sobre o novo avanço da pandemia no Brasil, a falta de controle epidemiológico dentro dos clubes e, principalmente, os protocolos falhos. Isso aconteceu depois que o Santos teve 17 infectados na equipe masculina, incluindo a comissão técnica e o treinador Cuca, e 22 na feminina, ainda na semana passada. O mesmo aconteceu no Atlético Mineiro: oito atletas e o treinador Jorge Sampaoli foram contaminados (ao todo, 25 pessoas do clube tiveram teste positivo). No Palmeiras, são 18 integrantes do time com coronavírus. No dia 18, o ge (antigo globoesporte.com) apontou que na  série A do Brasileirão tinham 57 esportistas infectados, hoje, o número subiu para 62.

Durante o Globo Esporte RJ de terça-feira, Walter Casagrande Jr. pediu a paralisação do futebol no país. O comentarista afirmou que “as contaminações da covid voltaram com tudo. Na minha opinião, o futebol tem que parar. Não pode continuar dessa maneira”. Ele ainda completou: “A CBF errou lá atrás quando retornou o futebol. Agora eles não podem errar. Se continuar dessa forma, não vai dar certo”. Na rodada do fim de semana passado, da série A do Campeonato Brasileiro, 43 jogadores e dois técnicos ficaram de fora das partidas por estarem contaminados. 

Quem também se posicionou sobre o tratamento que o meio esportivo está dando à pandemia foi o comentarista dos canais de esporte da Disney (ESPN Brasil e Fox Sports), Leonardo Bertozzi. Também em matéria do dia 17, o Portal UOL, expôs as falas do jornalista durante o BB Debate.

“Infelizmente, o futebol está tratando a covid-19 como uma lesão comum, ignorando que tem gente que vai para o hospital – como aconteceu com o [técnico] Cuca. É só torcer pelo melhor. O futebol está lidando com a covid-19, torcendo para não ter uma vítima fatal no futebol. Mas só dá para torcer, mesmo”

Ainda durante o programa, Bertozzi disse: “A preocupação de todo mundo era não adiar um jogo para não abrir precedente para outros e estender a competição. Não é o mais correto do ponto de vista da saúde, mas a decisão de voltar o futebol não priorizou a saúde. O recado do campeonato aos clubes é: ‘jogue quem tiver condição, nós precisamos manter nossos contratos’”. A fala se confirma no tratamento dado pelas entidades públicas no confronto do Flamengo contra o Palmeiras pela 12ª rodada do Brasileirão.

O jogo aconteceu no dia 27 de setembro no Allianz Parque em São Paulo. Na ocasião, o time rubro-negro teve um surto de covid-19 no elenco. Vinte jogadores não puderam comparecer ao duelo, tampouco o ex-treinador do urubu, Domènec Torrent. Mais três pessoas da comissão técnica testaram positivo, assim como o presidente Rodolfo Landim e outros dois que compõem a diretoria. A direção do clube solicitou junto à CBF o adiamento da partida, mas foi negado. Por isso, foi travada uma batalha judicial. Mas, no fim, o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) indeferiu o pedido e o Flamengo teve que escalar os atletas do time sub-20 para enfrentar o Palmeiras.

Nesta disputa, visando ter vantagem no campeonato e na partida, o verdão apoiou a decisão de não adiar o jogo. Além dele, o Goiás também se manifestou nesta polêmica, em nota oficial, foi pedido que não houvesse nenhum tipo de privilégio e que as regras sejam aplicadas de modo igual a todos.

“A regra deve valer para todos e tem que ser aplicada e acatada dentro do mundo desportivo, sob pena de tumultuarmos o campeonato e gerarmos prejuízo às nossas marcas e a todos que compram nossos jogos, em especial, as emissoras que transmitem. Sabíamos que não seria fácil, estamos jogando no meio da pandemia. Mas se a decisão é jogar, que façamos isso cumprindo o que foi acordado e editado pela CBF e pelos clubes”, afirmou o clube esmeraldino, que foi um dos primeiros a ter surto de covid-19 no elenco no início da temporada. Foram 20 jogadores contaminados, sua partida foi adiada contra o São Paulo.

O ex-zagueiro do Corinthians, Chicão, também se manifestou na época. Em entrevista à CNN Brasil, ele afirmou que o Flamengo estava “colhendo o que plantou” por ter pressionado pelo retorno do futebol. Assim como ele, nas redes sociais houve colocações semelhantes. Apesar dessa ação tomada pelo clube rubro-negro, o correto era ter adiado a partida por ter posto em risco a saúde dos jogadores e de todas as pessoas envolvidas na organização do evento. Além disso, era necessário também que os principais meios de comunicação da área apontassem os motivos para a suspensão e não adotar um discurso preocupado com o impacto em campo dos desfalques no elenco do urubu.

Contudo, é importante destacar a fala do ex-jogador sobre os clubes optarem por colocar seus times em campo por causa dos contratos publicitários e com as emissoras de TV. “Quando você vai disputar um campeonato, é obrigado a entrar em campo e os clubes ficam reféns disso. Acredito que muitos clubes entraram com esse medo de uma punição maior e, de repente, ficar até fora do campeonato e não disputar no ano que vem”, afirmou à CNN. 

Com isso, caso essa prática realmente ocorra nos bastidores, é uma ação desleal com a população. Mesmo que a sociedade pratique atitudes que desobedecem os protocolos da OMS (Organização Mundial da Saúde), como a aglomeração formada pela torcida do São Paulo na parte externa do estádio Morumbi na quarta-feira, é necessário exemplos positivos que venham de instituições e pessoas do poder, assim como, as grandes empresas de comunicação devem adotar um tom orientador e conscientizador para tratar para com a pandemia. Principalmente, pelo papel influenciador que ela exerce dentro de uma comunidade.

No caso que ocorreu na quarta-feira com a organizada do tricolor paulista, depois do confronto, o apresentador Lucas Gutierrez criticou a postura adotada pela torcida durante o programa Segue o Jogo. “Eu entendo a falta que a torcida sente do contato com o clube. Em qualquer outro momento, as imagens seriam lindas, a gente também sente falta da torcida nos estádios, mas não é o momento de abraçar”. Gutierrez ainda continuou: “Desculpa pagar de chato, mas os números do coronavírus estão subindo de novo, tem surtos em vários times. Nas últimas 24 horas, foram 754 novas mortes por causa da covid-19, são quase 170 mil vidas perdidas. A torcida do Flamengo também fez festa na semana passada, importante falar aqui. Está todo mundo cansado desse ano, da quarentena. O mínimo que a gente pode fazer é usar máscara e não aglomerar. Não é hora de festa, nem no futebol”, finalizou.

Além dele, o jornalista André Rizek e o apresentador Neto criticaram a postura dos são-paulinos. É de suma importância esses posicionamentos dos comunicadores brasileiros, principalmente, no contexto da pandemia em que o estamos sofrendo com a sua banalização. Entretanto, a apresentadora Renata Fan expôs uma opinião que vale a reflexão, porém que deve ser ponderado.

“Eu não suporto a hipocrisia. Eu não vejo ninguém falando sobre os políticos sem máscara fazendo campanha, um monte de gente na praia se aglomerando, e, agora, o problema está no futebol?”, indagou Renata. No entanto, a adversidade, de fato, está em outros âmbitos como o político. Porém, o futebol é um importante reflexo da sociedade e ferramenta para contornar certas ações. Além disso, com os surtos de covid-19 nos clubes, deve ser cogitado e debatido se não é o momento de interromper todos os campeonatos esportivos que estão em atividade no Brasil.

Na manhã desta sexta-feira, foi atualizado o números de contaminados no Palmeiras. Depois dessa divulgação, André Rizek voltou a se pronunciar em seu perfil no Twitter. Enquanto isso, Neto defendeu o movimento que reivindica nova paralisação do futebol durante o programa Donos da Bola de hoje. 

“O futebol, nessa sequência, vai ter que parar. Não é possível o que está acontecendo. Não é só jogar futebol, não é ir à praia, não é ser hipócrita. A gente tem que fazer isso para todos nós. Quando a gente não tem isso, o que a gente prova? Que a gente não se importa com o ser humano que está do outro lado”, afirmou Neto. 

André relembrou a partida Palmeiras e Flamengo pela 12ª rodada do Campeonato Brasileiro, no momento, o rubro-negro sofria um surto de covid-19 e o palestra se posicionou contra os pedidos de adiamento do duelo

O que se vê com o posicionamento da CBF é que, mesmo com várias pessoas sendo contaminadas pelo coronavírus, o futebol no Brasil não será interrompido. O que se percebe também é que a entidade se mostra irredutível em buscar alternativas para conter os surtos, o que é confirmado com a posição dada à revista Veja em “CBF diz que não mudará protocolo anti-Covid; sindicato estuda ação”.

Se isentando de qualquer culpa sobre o atual cenário visto no futebol, ela afirma que as contaminações ocorrem no âmbito de treinamentos (dentro dos clubes) e não durante os jogos. Em matéria divulgada no blog do PVC, no site do ge, consta que o comitê médico da entidade está fazendo um estudo sobre os casos de infecção. Ela aponta como exemplo que o treinador do Atlético-MG não usava máscara e, por esse motivo, pode ter disseminado o vírus entre as pessoas da comissão técnica do galo. Outro quesito apontado foi o relaxamento das medidas sanitárias por parte dos jogadores, como evitar contato e manter a distância apropriada. Mas o questionamento que deve ser feito é: como fazer o distanciamento em um esporte que é necessário haver contato?

Entretanto, tais indicações feitas pela CBF, como responsáveis pela disseminação do vírus entre os jogadores, podem ser resolvidos por ela própria. De acordo com o Guia Médico da retomada do futebol, não é previsto quais medidas sanitárias os técnicos devem adotar no andamento dos confrontos. Algumas ações são recomendáveis, mas não é proibido comemoração com abraços e outras trocas. 

O setorista do Vasco pelo grupo Band, Lucas Pedrosa, divulgou por meio do seu Twitter no fim da manhã a situação do jogador Talles Magno. De acordo com a apuração do jornalista e do ge, o atacante jogou na quinta-feira contra o Fortaleza durante o primeiro tempo. Hoje, ele foi testado positivo em um exame prévio e estava se sentindo mal há três partidas. Contudo, não se pode atribuir uma responsabilidade ao clube. 

Conforme aponta o protocolo sanitário, os exames são feitos com três dias de antecedência dos confrontos e os times visitantes devem enviar o relatórios de testagem 12h antes de viajarem, enquanto os mandantes informam os resultados 24h antes da partida. Nesta situação, o mandante do duelo foi o Vasco, portanto, o elenco do Fortaleza teve que ir ao Rio de Janeiro. Com isso, teve um longo período entre as avaliações. 

Como ainda não há um consenso sobre o tempo entre a infecção e a resposta do sistema imunológico do corpo, em testes rápidos podem existir resultados falso-negativo e falso-positivo. Isso pode ter ocorrido no caso de Talles, que tinha dado negativo no exame para o confronto contra o tricolor.

No atual contexto, a melhor ação a ser adotada é a paralisação por completo dos campeonatos de futebol, rever os protocolos e adotar medidas que realmente sejam seguras e que possam ser implementadas em um momento de desaceleração da pandemia. Porém, a suspensão de torneios não devem ser restritas somente ao futebol, mas abranger todas as outras modalidades, pois, além de, ter surto em time da Superliga, a maioria da população brasileira deve entender que o covid-19 ainda circula pelo mundo todo. O vírus causou a morte de quase 1,5 milhões de pessoas, mais de 168 mil somente no nosso país e é uma doença séria que pode causar sequelas. 

Entretanto, o interesse financeiro por parte dos patrocinadores, da própria CBF, dos clubes e de outros envolvidos nesses eventos interferem em qualquer tipo de intenção de por a saúde pública em primeiro plano e o esporte em segundo. E, assim, suspender os campeonatos em atividade no Brasil e retornar em um momento seguro. A imprensa tem um papel fundamental para este movimento.

É necessário que mais profissionais da área esportiva – e, até mesmo, fora dela – se posicionem e cobrem uma postura responsável da CBF e dos clubes, sem contar que deve ser interrompido o discussão de uma proximidade entre o coronavírus e uma lesão em que o jogador rapidamente se recupera. Além disso, é importante que programas e jornais não reduzam as informações apresentadas sobre a covid-19, a medida em que se diminuem as notícias sobre a pandemia, é levado ao falso entendimento de que ela está sendo contida e superada. Porém, a realidade é que ela está em aceleração novamente e no Brasil, erroneamente, ela já não é mais tratada com seriedade, não só em campo e quadra, mas fora deles também.

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