A ascensão de Guilherme Boulos na política

Após ter o pior resultado do PSOL nas eleições presidenciais de 2018, Boulos disparou nas redes sociais e chegou ao segundo turno da Prefeitura de São Paulo

Por Geovana Melo

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) teve o pior desempenho da história do grupo político na disputa pela Presidência da República em 2018. A aposta era Guilherme Boulos, aos 36 anos e recém filiado ao PSOL — pessoa mais jovem a tentar o Planalto, o candidato teve 617 mil votos, ou seja, 0,58% do total de válidos. No entanto, o cenário parece mudar para o paulistano que atualmente concorre ao cargo de prefeito de São Paulo, em oposição a Bruno Covas (PSDB). No primeiro turno, Boulos conquistou 1.080.736 votos, quase o dobro de quando tentou ser presidente do Brasil. Apesar de não eleito, o bom desempenho dele pode ser explicado, em parte, pelo uso da internet. 

Com 17 segundos nos blocos de propaganda eleitoral na tevê e no rádio, o ex-líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) focou nas redes sociais para promover a campanha e se comunicar com o público, em maioria jovens. O uso de memes, o apoio de famosos e a produção de um reality show foram estratégicos para marketing pessoal. Entre brincadeiras, elogios e críticas, ele foi o candidato de SP que mais conquistou seguidores e interações desde o dia 27 de setembro, quando a Justiça Eleitoral autorizou o início das campanhas na internet. 

Em linguagem memética e com trocadilhos com o próprio sobrenome, o ativista faz sucesso com o  “Café com Boulos”, programa no YouTube em que ele rebate críticas feitas à esquerda e discorre sobre a própria vida. O quadro registra entre 40 mil e 180 mil visualizações. Ele também visita eleitores na série “Boulos invadiu minha casa e meu coração”, nome que ironiza a relação dele com o MTST e a percepção de alguns brasileiros. 

Com uma ecleticidade de conteúdos criativos, o psolista lidera entre os jovens de 16 e 24 anos, de acordo com a pesquisas do Ibope. “O apoio dos jovens mostra que há um grande desejo de romper com a política da exclusão, do autoritarismo e do ódio”, disse Boulos em entrevista ao portal UOL

“Temos acertado na comunicação para esse público nas redes, inclusive levantamento recente mostra que temos a melhor performance nas redes sociais”, completou Josué Rocha, coordenador da campanha do Boulos, em entrevista ao site.

Os mais novos estão menos vulneráveis quando se fala em pandemia do novo coronavírus por não integraram o grupo de risco da doença. No entanto, as pesquisas de intenção de voto apontam que eles são os que mais disseram que se ausentariam na eleição por medo de contaminação. Segundo o Ibope, 6% dos mais jovens disseram que não votariam de jeito nenhum em decorrência da covid-19. Esse número cai para 2% entre os mais velhos.

Luiza Erundina e Guilherme Boulos em campanha eleitoral no centro de São Paulo – Crédito: Zanone Fraissat/ Folhapress

Se Boulos tem facilidade em se comunicar com a juventude, a imagem de Luiza Erundina faz contato com o público mais velho. A ex-prefeita de 85 anos é um rosto conhecido e experiente na capital paulista, tendo governado a cidade entre 1989 e 1993, e, até hoje, é popular nos bairros periféricos. A presença dela na chapa ainda reforça a experiência em gestão, visto que Guilherme Boulos nunca ocupou um cargo público.

Segundo um levantamento da Folhapress, a vice-candidata à Prefeitura de São Paulo foi mencionada em 802 publicações no Facebook e no Instagram do professor desde o início da campanha eleitoral até às 13h da última sexta-feira (27/11). Erundina aparece com frequência nos textos, fotos e memes publicados pelo psolista nas redes.

A repercussão da chapa se intensificou ao ganhar apoio de famosos, como o de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Felipe Neto, Gregório Duvivier,  Paola Carosella, Wagner Moura, Camila Pitanga, Marieta Severo, Sônia Braga e Maria Fernanda Cândido, Petra Costa, Maria Gadú, Marcelo Adnet, Bruno Gagliasso, Mônica Iozzi, entre outros.

A candidatura de Boulos deu fôlego à esquerda, abatida nos últimos anos em decorrência das denúncias de corrupção envolvendo governos do PT em escândalos como o Mensalão e a Operação Lava Jato. A situação permitiu o avanço da direita no país, expressada pela vitória de Jair Bolsonaro (sem partido) e outros líderes nas eleições de 2018. 

No dia do primeiro turno, em 15 de novembro, o nome de Guilherme Boulos ficou nos trending topics do Twitter como assunto do momento ao lado da hashtag #Vote50 — número da chapa do candidato. Neste domingo (29/11), o feito se repetiu. 

Um levantamento realizado por Fábio Malini, pesquisador e analista de redes pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aponta que o líder de esquerda desperta maior interesse na internet do que o concorrente Bruno Covas. De acordo com Malini, na primeira semana após o primeiro turno, os candidatos tiveram desempenhos diferentes no Instagram. Boulos ganhou 78 mil novos seguidores, já Covas apenas 5 mil.

As redes sociais influenciam voto de 45% da população, segundo uma pesquisa do DataSenado realizada em 2019. Se dependesse apenas do número de seguidores, a aposta do PSOL levaria a melhor no segundo turno, visto que no Twitter, Facebook e Instagram, Boulos reúne mais de 1 milhão de seguidores e tem forte atuação no YouTube e no TikTok, enquanto o maior público de Covas é de 210 mil seguidores no Instagram. No entanto, as urnas deste domingo não confirmaram a tendência e o representante do PSDB foi eleito com 59% dos votos. Mesmo com esse resultado, é inegável que Guilherme Boulos ascendeu na política desde 2018 até agora. 

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