Eleições 2020, o que mudou?

Fake news e desinformação ainda existem no contexto eleitoral e, apesar do seu uso ainda corrente, o cenário atual é relativamente diferente do ano de 2018

Por Lara Costa

      O ano de 2020 está sendo marcado por muitos acontecimentos que vão entrar para a história. Começou com uma pandemia, em que o isolamento social se tornou urgente no mundo inteiro, com milhões óbitos em decorrência da Covid-19. Também foi o segundo ano de um mandato presidencial marcado por polêmicas, como a fala do presidente de que a doença era uma “gripezinha”, por exemplo, e pelas eleições municipais. 

     No dia 15 de novembro, foi realizado o primeiro turno da votação. O resultado do pleito foi histórico para grupos minoritários. Foram eleitos quatro políticos trans para o cargo de vereador: Erika Hilton (PSOL) e Thammy Miranda (PL) em São Paulo, Duda Salabert (PDT), em Belo Horizonte, e Linda Brasil (PSOL) em Aracajú. Eles foram os primeiros vereadores trans eleitos em suas respectivas cidades.

     Segundo a Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), mais de 50 quilombolas foram eleitos vereadores, no país todo, em estados como Goiás e Maranhão. Na região Sul, foram eleitos sete vereadores negros: Ana Lúcia Martins (PT), em Joinville, Bruna Rodrigues (PCdoB), Daiana Santos (PCdoB), Karen Santos (PSOL), Laura Sito (PT) e Matheus Gomes (PSOL), em Porto Alegre, e Carol Dartora (PT), em Curitiba. Todos foram os primeiros vereadores negros eleitos em seus respectivos municipios. 

     Além disso, o período da campanha foi marcado pela renovação da esquerda na questão da comunicação com o eleitorado, ou seja, os políticos conseguiram usar as redes sociais  de forma efetiva. Os que foram para o segundo turno são: Manuela D’ávila (PCdoB-Porto Alegre), Marília Arraes (PT-Recife), Sarto (PDT-Fortaleza), Edmilson Rodrigues (PSOL-Belém) e Guilherme Boulos (PSOL-São Paulo), mas todos perderam.

Internet

     A internet vem tomando o protagonismo no debate político. Agora, pessoas comuns, emitindo suas opiniões sobre candidatos, podem influenciar os resultados. Ela se tornou um meio de comunicação importante com alcance maior hoje, se comparadocom uns anos atrás. Uma pesquisa feita pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP), no dia 14 de novembro, comprovou isso.

     A DAPP identificou, entre os dias 4 e 10 de novembro, 288,9 mil postagens com conteúdos relacionados aos debates eleitorais. Isso representa um número expressivo diante do fato de que um em cada quatro brasileiros não têm acesso à internet.

 Ao mesmo tempo que o meio digital pode servir como um meio de livre expressão de diversos assuntos, em queas informações chegam de maneira quase instantânea, ele também pode funcionar como um instrumento de poder e de manipulação da informação. Podemos analisar o Whatsapp, que tem 136 milhões de usuários, com 79% afirmando que recebem notícias pela rede social em questão.

Os aspectos citados acima foram decisivos em acontecimentos políticos recentes, tais como as eleições americanas de 2016, que elegeram o republicano Donald Trump e as eleições brasileiras de 2018, com Jair Bolsonaro. O que esses eventos tiveram em comum? Fake news sobre os partidos adversários e sobre os próprios oponentes contribuíram para a eleição dos dois candidatos à presidência.

 Diferença de cenários

 É interessante comparar o cenário das eleições deste ano com as de 2018. Segundo estudo Global Advisor, Fake News, Filter Bubbles, Post Truth and Trust, do Instituto Ipsos, em 2018, com 27 países entrevistados, 62% dos brasileiros afirma ter acreditado em notícias falsas. 

Essa questão se refletiu nas eleições daquele ano, uma vez que fake news e desinformação estavam presentes nas plataformas digitais durante o período de votação e contribuíram para a eleição de Jair Bolsonaro.

 O Instituto DataSenado fez um levantamento em que 45% dos brasileiros afirmaram ter levado as redes sociais em conta para a decisão de voto e 80% dos participantes do levantamento afirmaram ver grande influência das redes na opinião política das pessoas. Diante desses dados, é notável o desempenho digital de Manuela D’ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), que conseguiram se reinventar, usando o Twitter e o Instagram a favor da campanha deles.

No segundo turno, tanto Manuela D’ávila, quanto Guilherme Boulos perderam na votação para Sebastião Melo (MDB) e Bruno Covas (PSDB), respectivamente. Entretanto, independente do resultado, ambos tiveram êxito no planejamento de suas comunicações digitais, conseguindo assim atingir setores da população que poderão ser importantes nas eleições de 2022.

 Há dois anos, nas eleições nacionais, a maioria dos políticos vitoriosos foram de direita: Jair Bolsonaro (na época no PSL) na presidência, Wilson Witzel (PSC), João Dória (PSDB), Ibaneis Rocha (MDB), por exemplo, e os meios de comunicação tiveram impacto nessas vitórias, porque era num período que acontecia com maior frequência as fake news e não existiam tantas informações sobre esses procedimentos. Esses fenômenos eram recentes, e não existiam agências de fact checking que combatessem a desinformação, como por exemplo, o Fato ou fake, do G1, e a Agência Lupa.

 Agora, aconteceram falhas por parte dos meios de comunicação tradicionais, como a Rede Globo não ter adaptado o debate que seria presencial para um modelo on-line, após Boulos, candidato a prefeitura de São Paulo, ter sido diagnosticado com Covid-19, optando por cancelar o evento, o que prejudica o processo democrático. 

Além disso, a disseminação de notícias falsas ainda é um fator determinante nas votações, mesmo sendo inegável que os meios de comunicação tenham demonstrado maior responsabilidade na divulgação de notícias eleitorais, o que indica um avanço na questão e esperança para eleições melhores em 2022.

2 comentários sobre “Eleições 2020, o que mudou?

  1. Sandro César Silvério da Costa disse:

    Parabéns Lara pelo artigo lúcido, isento, perspicaz e constituído por informações verídicas a partir de fontes nacional e internacionalmente confiáveis. Um texto esclarecedor aos que permanecem mentalmente doentes pelos seus pensamentos e comportamentos misóginos, racistas, machistas, transfobicos… A esses o destino sempre reserva o que merecem (pelo conjunto de suas obras).

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