“Se a benção vem a mim, reparto”

No documentário AmarElo: É tudo pra ontem, o cantor Emicida mostra a importância de contar sua própria história, em oposição à deturpação das representações vigentes na mídia

Por Catarine Cavalcante Torres

“É importante firmar um lugar físico e um lugar físico grandioso. Isso existe, isso é grande!”. Foi assim que o rapper Emicida justificou a escolha do Theatro Municipal de São Paulo como local para a realização do show histórico de seu último álbum, AmarElo. A apresentação deu origem a um documentário que está disponível, desde o dia 8 de dezembro, na plataforma de streaming Netflix. 

A produção conta com a participação do cantor em todas as etapas do processo. Narrado por ele, o filme mostra muito mais do que relatos pessoais e o making-off do espetáculo. Ao reconhecer que muitos tiveram que vir antes dele para que um evento como aquele pudesse acontecer, Emicida decide recontar de forma muito sensível e particular a história da negritude no Brasil. Afinal, é como foi dito em vídeo,  não há uma viga na cidade de São Paulo, e aqui faço questão de estender a afirmação para todo o país, que não tenha tido a mão de obra preta na sua concepção.

Um dos aspectos mais bonitos do documentário AmarElo: É tudo pra ontem (2020), é que se trata da história do povo negro contada por um homem negro, sob seu ponto de vista e um olhar de si para si. Durante anos, a população negra tem sido mal compreendida e reduzida a estereótipos decorrentes das narrativas da branquitude. Essa infantilização remonta a lógica escravocrata, em que o escravo sempre tinha alguém que falasse por ele. A mídia se apoiou por muito tempo na desculpa de não haver quem colocar em evidência. 

Viola Davis, atriz estadunidense, questionou o porquê de ser a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Emmy na categoria de melhor atriz, algo que só foi acontecer em 2015. Em seu discurso, ela diz: “A única coisa que separa mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Não é possível vencer um Emmy por papéis que simplesmente não estão lá”. A verdade é que pessoas negras capacitadas sempre existiram e estiveram produzindo, a própria mídia é quem contribuía para a sua invisibilização aliada à estrutura racista em que a sociedade brasileira foi moldada.

Durante este ano, a temática racial foi bastante pautada midiaticamente, isso muito se deve aos protestos ocorridos nos Estados Unidos contra a violência policial que reverberaram no Brasil, uma vez que o que não falta aqui são casos de abuso de autoridade e assassinatos mal explicados de pessoas negras, os quais os motivos não são surpresa para ninguém. Em um desses casos, um homem negro de 40 anos foi espancado até a morte em um supermercado da rede Carrefour e as gravações repercutiram nos noticiários por mais de uma semana, sem nenhum respeito à memória da vítima, sua família e o próprio público, que muitas vezes era pego de surpresa durante a exibição do conteúdo extremamente sensível, uma vez que não havia qualquer tipo de aviso e as cenas eram repetidamente mostradas por diversos ângulos. 

O que parece, e há tempo vem se confirmando, é que a mídia não se importa muito com a representação da imagem da pessoa preta. A cara do povo preto quem tem que dar é o povo preto, longe das imagens de controle e estereótipos que só fazem colaborar com sua invisibilização e desumanização. Por isso é tão importante que cada vez mais pessoas ocupem esses espaços, falem sob sua ótica e se autodefinam. Por isso, é tão importante o documentário de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida.

Em outubro de 2019, quando AmarElo (2019) foi lançado, Leandro já estava propondo algo novo. Algumas faixas de batida mais suave, remetendo ao samba, outras trazendo vozes de crianças, não se pareciam com o que era esperado de um álbum de rap. Aqui, ele já tinha começado a falar algo que retomou no filme: a união. Ora, “o samba é o Brasil que deu certo”, o ritmo que carrega tanto da história brasileira e, que se reparar bem, foi um dos precursores do rap no Brasil. Para Emicida, há muito tempo, o samba já percebeu que é no encontro que a nossa vida faz sentido, então, nada mais justo que promover encontros. 

A força que carrega o gesto de promover o encontro do Candomblé com o Cristianismo,  colocando lado a lado  Mateus Aleluia, responsável por incorporar os cânticos da religião de matriz africana em seus discos e influenciar a música brasileira como um todo,  e o Pastor Henrique Vieira. Aleluia afirma que nós nascemos para viver incluídos, quem nos separa é o homem com a sua moral, que não é algo próprio da natureza mas sim criação humana. Muitos pensadores, inclusive trazidos no documentário, como Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento, defendem que a liberdade tem que ser buscada em conjunto, não adianta lutar sozinho. Enquanto ainda houver algum oprimido, ainda que seja um só,  não existe ninguém livre. O próprio Emicida já disse tempos atrás: “se o triunfo não for coletivo, é do sistema”.

Posto isso, fica evidente a relevância social desse filme documental em dizer o que já esperou-se tempo demais para ser dito, mais que dito, escutado. Há muita beleza em tornar popular o que empreenderam tanto esforço para tentar apagar. Não “vindo”, mas “voltando”, resgatando a história de um país e entendendo como cada um parou onde está e quem lutou para que estivesse. 

Uma realidade em que AmarElo: É tudo pra ontem (2020) é possível, foi o sonho de muita gente no passado e é muito interessante que seu idealizador realmente tenha declarado que a primeira música do álbum de fato nasceu de um sonho. Em um tempo onde é tão difícil encontrar força e tão fácil se desesperançar, esse documentário possui o objetivo de fortalecer, atua como combustível para quem assiste. O discurso proferido por Emicida é urgente, o título já diz, é tudo pra ontem.

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