Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal na luta contra o sistema de saúde

Por meio de nota publicada em seu site, o conselho do Distrito Federal atacou o lockdown e espalhou mentiras sobre o combate ao coronavírus enquanto o país passa pelo seu pior momento na pandemia

Por Lucas Guaraldo

O Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF), responsável pelo auxílio à comunidade médica no DF, publicou, nesta segunda-feira (01/03), uma carta aberta que critica diretamente o lockdown decretado na última sexta (26/02). A carta, além de disseminar dados não comprovados sobre os efeitos das restrições, coloca em risco o já debilitado sistema de saúde de Brasília, que no final de semana dispunha de apenas uma vaga adulta em suas UTIs.

A publicação do CRM-DF se juntou a outras manifestações contrárias ao lockdown que ocorreram desde a publicação da medida. Durante o fim de semana, empresários e comerciantes bloquearam a rua que dá acesso à residência oficial do governador e pediram o fim das restrições com cartazes que diziam “Ibaneis, paga minhas contas”. Em resposta, o governo flexibilizou as medidas e ampliou a lista de atividades liberadas, que agora passam a incluir academias, escolas particulares, óticas e papelarias, dentre outras. 

Após doze estados decretarem lockdown em resposta ao iminente colapso do sistema de saúde, recorde de número de casos e mortes e atrasos na distribuição de vacina, Bolsonaro criticou os governadores e se disse contrário às medidas, voltando a defender o tratamento precoce e a elogiar a própria atuação durante a pandemia que já matou mais de 266 mil brasileiros.

Na nota publicada, sem citar qualquer dado como suporte, o grupo afirma que a intensificação do isolamento acarretaria no “aumento de transtornos mentais e abuso de álcool e/ou outras drogas”. Além disso, o conselho de medicina argumenta que a imposição de medidas restritivas ao comércio causaria um “prejuízo irremediável à economia”. 

Além das afirmações infundadas, a carta também mente e descontextualiza uma fala do médico e consultor da ONU, David Nabarro, ao afirmar que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) é contra o lockdown como medida de combate à pandemia. Trata-se, na verdade, de um trecho retirado de uma entrevista maior, em que Nabarro afirma que governantes devem “aplicar um pacote de medidas” contra a covid-19 e usar o lockdown como forma de controlar surtos locais, já que tem efeitos muito duros nos grupos mais pobres da sociedade.

Embora o uso desonesto da citação pelo Conselho Regional de Medicina seja absurdo, vale lembrar que o mesmo argumento de David Nabarro foi usado de maneira irresponsável por diversos jornais na época de sua publicação. A própria entrevista da revista Veja, que motivou as frases soltas do CRM-DF, tem como manchete um trecho que pode ser entendido como uma manifestação totalmente contrária ao lockdown, por mais que essa não seja a posição da instituição. 

Portais como o Uol, o terceiro site mais acessado do Brasil, foram ainda mais irresponsáveis. O veículo publicou há quatro meses a chamada  “OMS não recomenda confinamento para evitar agravamento na pobreza”, como título da matéria que citava e explicava a entrevista de Nabarro e as declarações de Jair Bolsonaro e Donald Trump, contrários ao isolamento social.

Além do uso polêmico de citações, cabe ressaltar o tratamento que a nota do conselho tem recebido na mídia. A carta foi respondida com duras críticas por veículos de notícia e instituições públicas. A Universidade de Brasília (UnB) publicou uma nota criticando o posicionamento do conselho e lamentando os efeitos que ele poderá ter na adesão às medidas restritivas, que foi divulgada por diversos veículos de notícia. A Veja também foi crítica sobre a  nota, ressaltando em sua matéria o colapso do sistema de saúde do DF e os riscos de uma manifestação como essa. 

No entanto, a Gazeta do Povo, jornal conservador e contrário às medidas de combate à pandemia, publicou uma matéria que usava a nota do conselho como um argumento legítimo de especialistas contrários ao lockdown, além de descontextualizar as falas de Nabarro. A matéria mostra o perigo de declarações como as do CRM-DF que, mesmo que duramente repreendidas, servirão de combustível para boicotes ao combate à pandemia. 

Portanto, mais do que nunca, é necessário o posicionamento de veículos sérios e engajados no combate a mentiras e desinformação durante a pandemia, como forma de conter a disseminação de postagens como essa. Além de divulgar a indignação de instituições e profissionais da área, é importante que veículos usem suas plataformas para explicar as inconsistências dessas declarações e defender medidas concretas e comprovadamente eficazes no combate ao coronavírus. 

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