As jornalistas na mira de ataques machistas, misóginos e de conotação sexual

Em ano com recorde de agressões a jornalistas, cresce também a violência de gênero contra as profissionais de imprensa

Por Malu Sousa

Mais que o dobro do ano anterior: 105,77%. Esse foi o percentual de crescimento da violência contra jornalistas no ano de 2020, totalizando 428 casos. É o que revela o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil (2020), elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). O levantamento traz outro dado preocupante: o aumento da violência de gênero. É certo que se trata de um reflexo da conjuntura social que independe da área no mercado de trabalho, mas aqui vamos nos debruçar sobre as condições de atuação das profissionais de imprensa.

Jornalistas foram, frequentemente, atacadas no decorrer do ano passado. Foram 64 denúncias de mulheres relatando algum tipo de agressão. Esse número ainda é subnotificado, uma vez que as jornalistas são vítimas recorrentes de assédios no ambiente de trabalho e temem perder os empregos caso façam denúncias dos comportamentos inapropriados sobre elas. As respostas negativas e a gravidade dos ataques são fatores responsáveis por desacreditar as comunicadoras da importância de denunciar. Por vezes, o gênero é usado como instrumento para desqualificar a capacidade profissional das jornalistas e, também, para questionar qualquer mérito obtido por mulheres no ramo. 

Há resistência em se ver como fragilizada nas relações de trabalho porque isso pode significar falta de aptidão, de habilidades ou de todos os recursos necessários para exercer a profissão. Dessa maneira, entende-se que tal fragilidade pode dificultar ainda mais o acesso a cargos com maiores responsabilidades e mais bem remunerados. As áreas de atuação que respondem por mais denúncias são segurança, política e esportes, fato que se deve a uma cultura machista já estruturada nesses setores. O que faz com que seja cada vez mais necessária a criação de canais seguros de denúncia.

Ataques online

O índice de ataques em redes sociais contra jornalistas mulheres também cresceu. Nos últimos anos, os ataques virtuais têm sido cada vez mais relatados contra jornalistas em geral, a diferença é que contra as profissionais de imprensa são utilizadas ofensas de cunho machista, misógino e de conotação sexual. Geralmente buscam atingir a vida pessoal, a aparência física, a liberdade sexual e a família da vítima. Além de perseguir e expor dados pessoais.

À prática de procurar e divulgar informações privadas ou de identificação pessoal de um indivíduo, como número de documento ou endereço, em um ambiente que encoraja ou culmina na intimidação da pessoa exposta, é dado o nome de doxing. “No âmbito criminal, não há uma resposta ao doxing propriamente dito”, indica a cartilha sobre medidas legais para a proteção de jornalistas contra ameaças e assédio on-line, feita pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pelo Observatório da Liberdade de Imprensa do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Mesmo que a legislação brasileira não tenha, ainda,  nenhum tipo de punição para o doxing, desde 2019 tramitam pelo menos 11 projetos de lei para tipificar tal conduta que, no geral, faz mais vítimas entre as mulheres. Essa falta de mecanismos legais e institucionais para repreender ataques físicos e morais às mulheres jornalistas é um problema frequente em toda a América Latina.

Em novembro de 2020, a Abraji chegou a emitir quatro notas de repúdio. Todas eram referentes a ataques contra mulheres jornalistas. Três das quatro notas tratam, justamente, de casos de retaliação no ambiente digital a repórteres que cumpriam seu papel profissional. Nesse mesmo novembro, um dos alvos de ataques de ódio na internet foi a jornalista catarinense Schirlei Alves, após publicar uma reportagem no site The Intercept Brasil, denunciando o machismo estrutural da Justiça brasileira a partir do caso da influenciadora digital Mariana Ferrer, que foi humilhada pelo júri durante audiência sobre acusação de estupro em uma boate de Florianópolis. A jornalista teve que fechar o perfil pessoal Instagram após ser agredida por diversos comentários misóginos e xingamentos. Relatou, também, ter sofrido ameaças à sua integridade física, vindas de grupos organizados e utilizando perfis falsos.

Um estudo realizado pelo International Center for Journalists (ICFJ) classifica em três tipos de ameaças online enfrentadas pelas jornalistas, que podem ocorrer também de maneira simultânea: 

  • O assédio e abuso misógino (insultos à sua aparência, sexualidade e profissionalismo, além de ameaças de cunho sexual, agressão, estupro e assassinato); 
  • Disseminação de boatos, geralmente com narrativas misóginas (difamações sobre o caráter da mulher e deturpação maliciosa, como imagens e vídeos sexuais manipulados , memes abusivos, entre outros); e
  • Invasão generalizada da privacidade digital da vítima, com vigilância em massa, hackeamento de seus dispositivos, exposição de dados pessoais, endereços e padrões de movimento.

O mesmo estudo foi responsável por ouvir 1.210 profissionais de mídia ao redor do mundo (incluindo jornalistas brasileiros), e descobriu que o cenário é especialmente ruim para as mulheres: entre as respondentes, três quartos (73%) afirmaram já ter sofrido ataques online, como assédio e ameaças, por conta de seu trabalho.

    Um agravante dos ataques online é o efeito que eles causam na saúde das vítimas. Hostilizam mais ainda o exercício da profissão das jornalistas, reduzem a liberdade de imprensa e limitam a participação das mulheres no espaço público. Além disso, são representações genuínas da liberdade de expressão violada nas redes sociais que terminam por comprometer o direito do público de acessar informações.

Por todos os lados

Os assédios vêm de todos os lados: dos chefes (pois, no geral, cargos de chefia em redações são ocupados por homens, mesmo que as mulheres sejam maioria na profissão), pelas fontes, pelas autoridades e por colegas, tanto das mesmas empresas como de outros veículos. Temos como exemplo o caso relatado, no último fevereiro, pelo Uol, em que ao menos seis jornalistas, das emissoras Globo, SBT e Band, contam que foram perseguidas pelo repórter, Bernardo Lima, de Belo Horizonte. Os relatos vão desde ofensas e comentários inoportunos e recorrentes a ameaças de exposição com histórias falsas. 

Em fevereiro de 2021, a jornalista Livia Laranjeira, da Globo, publicou no Twitter print de uma mensagem de Bernardo em uma foto sua, onde ele afirma que vai “fotografar sua bunda e postar”. “A ideia não é assédio e sim te pilhar, você cai nas pilhas”, comentou Bernardo, através de um perfil de veículo de comunicação que ele afirma possuir, a “Web Radio Futebol BH”. 

Mesmo denunciado às instâncias jornalísticas, Bernardo segue se credenciando em eventos esportivos. Continua insistentemente perseguindo e assediando diversas jornalistas e, ao ser bloqueado, cria diversas contas e números de telefone para seguir assediando. 

Em uma profissão que propõe cenários cada vez mais desafiadores, este deveria ser um assunto já superado. Trata-se de um risco duplo, como sugere a Abraji, em texto veiculado em 2019. Se refere ao fato de que, conforme cresce a ocupação de mulheres em cargos políticos e de comunicação nas Américas, os direitos fundamentais para o livre exercício da profissão seguem sendo impactados pelo gênero. Se reflete de maneira salarial também. Mulheres são maioria no jornalismo, mas ainda assim é possível observar uma disparidade salarial de gênero. Cerca de 61,5% das jornalistas recebem ou já receberam menos que colegas homens ocupando os mesmos cargos.

Uma pesquisa lançada em 2018 pela Abraji, em parceria com a Gênero e Número, revelou que, no Brasil, 84% das jornalistas já sofreram algum tipo de violência psicológica no trabalho, incluindo insultos presenciais ou pela internet, humilhação em público, abuso de poder ou autoridade, intimidação verbal, escrita ou física e ameaças pela internet. Além disso, 70% delas já se sentiram desconfortáveis após abordagens de homens no trabalho. 

Participação Direta do Presidente

A explosão do número de violência se deve ao contexto pandêmico enfrentado desde março do ano passado. A nova realidade trouxe novos questionamentos e, consequentemente, a necessidade de cobertura por parte da imprensa. O Distrito Federal foi campeão em registros de denúncias de ataques contra profissionais de comunicação. O motivo? A concentração de poder. O presidente da República Jair Bolsonaro responde, sozinho, por 175 dessas ofensivas contra jornalistas. As agressões são mais frequentes quando os jornalistas cumprem seu papel de questionamento. 

As ofensivas de Bolsonaro enquadram também as profissionais de comunicação com insultos de cunho machista e misógino, com o claro intuito de ferir a credibilidade e intimidar. Da boca do presidente, constantemente, saem xingamentos de “burra”, “feia”, “vadia”, “prostituta” e insinuações de que mulheres jornalistas venderiam seu corpo por notícia. Foi o que sofreram as jornalistas Constança Rezende, Miriam Leitão, Juliana Dal Piva, Marina Dias, Vera Magalhães e Patrícia Campos Mello, pelo simples fato de investigar e revelar aspectos nebulosos sobre a vida política da família Bolsonaro.

O caso de Campos Mello ganhou bastante destaque no início de 2020. O presidente se referiu à repórter, em entrevista em frente ao Palácio da Alvorada, da seguinte maneira: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo” seguido de risos e concluindo, “A qualquer preço contra mim”. Na época, a repórter da Folha de S. Paulo tinha publicado uma matéria sobre apoiadores do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que financiaram uma campanha para disseminar notícias falsas no WhatsApp.

Essa busca por humilhar, desonrar e desacreditar jornalistas tem se mostrado bastante comum em governos, não só no do Brasil, e nos convida a refletir sobre os desafios do jornalismo nos tempos atuais frente aos avanços e retrocessos de direitos das mulheres. Principalmente diante das novas tecnologias, que trouxeram mais um ponto de vulnerabilidade para a vida das repórteres. Campos Mello foi perseguida por apoiadores do presidente nas redes sociais, teve sua conta do WhatsApp invadida e foi alvo de notícias falsas, que também citaram membros de sua família.

Em julho de 2020, Bolsonaro foi denunciado à Organização Nacional das Nações Unidas (ONU), no Conselho de Direitos Humanos, por 54 casos de ataques contra mulheres jornalistas. A denúncia ocorreu justamente quando a violência contra mulheres jornalistas foi apresentada na entidade como tema da relatora especial das Nações Unidas sobre a Violência contra a Mulher, suas Causas e Consequência, Dubravka Simonovic. 

As atitudes do presidente e de seus apoiadores contra a imprensa livre fazem parte de um conjunto de estratégias utilizadas para minar instituições democráticas e são recorrentes graças ao trabalho essencial desempenhado, sobretudo, em períodos de instabilidade política. A tendência é que as jornalistas fiquem cada vez mais em posições vulneráveis.

Esse ambiente de trabalho que já era hostil se tornou pior quando uma autoridade como o presidente da República se juntou aos que atacam as jornalistas: trata-se de uma legitimação de tal atitude. Ecoar o machismo e a misoginia aumenta o risco para todas as mulheres brasileiras. Pois, se aquelas que se colocam diante das autoridades para trabalhar são tratadas dessa maneira, não há como esperar um ambiente melhor para tantas anônimas e invisíveis nesse país. Expõem a fragilidade da liberdade de imprensa e o declínio do regime democrático. Ser contra as tentativas de intimidar as jornalistas, se faz necessário para todos que têm apreço pela democracia. 

Regime fragilizado pela pandemia na América Latina, a democracia junto da livre atuação da imprensa, deve ser protegida por toda a sociedade para que o debate público esteja cada vez menos desinformado. Se a queixa dos jornalistas em governos anteriores era que o estado se omitia diante dos ataques sofridos pela imprensa, o ambiente mudou. Agora é ele que ataca.

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