Cidade Invisível mostra que o folclore brasileiro é o momento

Produção de Carlos Saldanha, que estreou na Netflix em fevereiro, se tornou uma das séries mais assistidas de 2021 em um mês de estreia

Por Christine Santos

Cidade Invisível, série de sete capítulos, foi lançada no dia 5 de fevereiro na Netflix, tendo como direção de Carlos Saldanha (Rio, Era do Gelo) e roteiro de Raphael Draccon e Carolina Munhóz. A estrela do show é o ator Marco Pigossi (das novelas A Força do Querer e Sangue Bom), seguido de uma das atrizes mais aclamadas no projeto, Alessandra Negrini (Paraíso Tropical, As Cariocas) que surpreende a todos por interpretar a personagem Cuca, tão marcada na cultura popular por conta dos livros e a série televisiva pela Rede Globo, Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato.

Em pouco tempo, Cidade Invisível se tornou uma das séries mais reproduzidas internacionalmente. O catálogo americano da Netflix chegou a mostrá-la como uma das mais vistas e entrou para a lista das dez produções mais assistidas de 48 países, segundo Draccon. A Netflix Brasil já confirmou a segunda temporada da série, devido ao sucesso estrondoso.

Saldanha inova ao mostrar o folclore brasileiro de um ponto de vista mais voltado para o suspense e o terror, ao invés das clássicas narrativas infantis dos livros de histórias, o que atraiu um público jovem adulto que há muito não se envolvia tanto com esses contos, tão presentes no imaginário de cada uma das regiões do Brasil.

Ao encaixar o mistério da morte de sua esposa com as ações da construtora de um resort na pequena Vila Toré, o policial ambiental Eric (Marco Pigossi) se vê encontrando com os mais diversos seres fantásticos. É uma trama curiosa e cheia de possibilidades de exploração de cada personagem folclórico, que já tem, por si só, uma liberdade de reprodução da história, visto que cada conto muda de acordo com a cultura e as regiões do Brasil.

Duas das principais referências para Saldanha e Draccon foram o livro de Abecedário de personagens do folclore brasileiro (ano, Sesc/FTD), da pesquisadora Januária Cristina Alves, e a série Deuses Americanos (2017), da Prime Video. A preocupação de ter uma curadoria que trouxesse as histórias de forma que respeitasse as variações regionais levou Saldanha a procurar a pesquisadora para ajudar na produção da narrativa.

Mesmo com os cuidados desses especialistas, Cidade Invisível foi alvo de críticas em relação a representação de certos mitos, como a Iara, interpretada por Jessica Córes, uma mulher negra e não indígena, como era esperado, ou até mesmo o Curupira, que tem um histórico e família indígenas, e mesmo assim não foi interpretado por um ator indígena. Outro ponto é o fato do cenário da série ser no Rio de Janeiro, que pouco se relaciona com o imagético dos contos em si.

As críticas são as mais diversas. Os ativistas indígenas Fabrício Titiah e Alice Pataxó comentaram em uma matéria do site Catraca Livre sobre suas interpretações e falaram sobre apropriação cultural, que concluíram ter ocorrido por conta dessas questões apresentadas no roteiro. Já Daniel Munduruku, escritor indígena, doutor pela USP, diretor e presidente da organização não-governamental Instituto Uka, teceu elogios sobre a série e chegou a rebater essa questão em suas redes sociais, refletindo que há de se ter equilíbrio ao julgar como apropriação cultural ou mau caratismo o uso de elementos dos povos originários. Ele reforçou que gostaria de escrever um roteiro no mesmo estilo.

O folclore brasileiro é uma mistura não só de contos, mas também de culturas, raças e povos, visto que através da colonização e da miscigenação, muitas narrativas foram se costurando e mudando por meio do tempo e dos lugares onde passaram. Um exemplo é a personagem Cuca, lembrada pelo visual trazido pela cultura pop na produção televisiva Sítio do Pica-Pau Amarelo, da Globo, que surpreende ao ser retratada como na forma inicial de sua história: ela é uma bruxa e não um jacaré, como na versão de Lobato. A história da Iara, como conhecemos hoje, passou por várias regiões e relaciona até as características físicas das sereias europeias, um verdadeiro reflexo de como a miscigenação molda as nossas histórias e contos. 

No mais, o que impressiona em toda essa magia contada por Saldanha é a repaginação das histórias para que atraíssem todos os públicos, brasileiros ou não. O sucesso mostra que o mundo está aberto para essas histórias, pois são contos que entretém as pessoas há muito tempo. O folclore é algo que cada povo leva consigo e molda sua imaginação, do celta ao japonês, do africano ao brasileiro, e por aí vai. Cada um tem suas diversidades e sua riqueza de histórias e costumes. Essas características narrativas e imagéticas são modificadas em nossas mentes pelo imaginário popular, as mídias e as influências culturais de cada povo. E essa riqueza do folclore brasileiro será reconhecida ao redor do mundo pelos episódios de Cidade Invisível e as prováveis pesquisas e novas histórias que virão.

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