#StopAsianHate: xenofobia e racismo contra asiáticos escancaram pandemia de ódio

Surto de covid-19 intensifica o número de casos de agressões físicas e verbais contra asiáticos e evidencia que o coronavírus não é o único inimigo invisível entre nós

Por Bruna Yamaguti

No início de 2020, escrevi um texto para o SOS Imprensa intitulado “Coronavírus infecta brasileiros com ignorância”, no qual relatei alguns episódios de xenofobia vividos por descendentes de asiáticos, quando a covid-19 ainda não tinha se alastrado para o resto do planeta. Na época, a doença totalizava cerca de 1.114 vítimas, todas em território Chinês. Um ano após a publicação desse artigo, o cenário é outro, mas o medo é o mesmo. Embora vacinas tenham sido desenvolvidas e milhões de pessoas já estejam imunizadas, a pandemia deixou a insegurança de um inimigo invisível que pode sofrer mutações. E, para algumas milhares de pessoas com os olhos puxados, é preciso lidar ainda com um outro adversário, de múltiplas facetas e que insiste em permanecer: o racismo. 

O movimento #StopAsianHate ganhou força nas redes sociais nos últimos dias. A tag, que estava em alta no Twitter, sugere o fim do ódio contra asiáticos, intensificado pelo fato do primeiro caso de infecção pelo coronavírus ter sido identificado na cidade de Wuhan, na China. Apesar do preconceito e da discrimação estarem presentes em todo o mundo, o epicentro do vírus da xenofobia é agora os Estados Unidos, que registraram um aumento de 1900% nos ataques direcionados a leste-asiáticos, de 2019 para 2020.

O procurador-geral do estado de Connecticut, Willian Tong, afirmou à CNN que o responsável pela insegurança vivida pela comunidade asiática no país é o ex-presidente Donald Trump: “Ele começou uma guerra contra os imigrantes e chamou o novo coronavírus de vírus da China”, disse.

Segundo o Departamento de Polícia de Nova York, os ataques incluem cuspidas, assédio verbal, moral e agressão física, sendo os principais alvos idosos e mulheres. O Stop AAPI Hate foi uma plataforma criada exclusivamente para registrar esse tipo de incidente de ódio e atender as vítimas dos ataques. Segundo relatório, 3.292 casos foram relatados em 2020 e, há apenas três meses desde o início de 2021, 503 novos casos foram registrados. Esses números, no entanto, representam apenas uma pequena parcela da proporção que o racismo e a xenofobia contra asiáticos tomou. Esse cenário não foi criado com a pandemia, mas, sim, intensificado por ela. 

Um ataque recente a três casas de massagem no estado da Geórgia, no qual seis das oito pessoas mortas eram mulheres de origem asiáticas, foi o estopim para que organizações, ativistas e personalidades se manifestassem nas redes sociais pedindo o fim desse tipo de violência. O ex-presidente norte americano Barack Obama disse, em seu perfil do Twitter: “Enquanto batalhamos contra uma pandemia, continuamos negligenciando a mais duradoura epidemia de violência com armas nos EUA. Mesmo que o motivo do atirador não seja claro, a identidade das vítimas revela um alarmante aumento nas mortes de asiáticos que precisa acabar”. 

Na mídia

Alguns veículos de comunicação também têm seu papel na incitação, ainda que indireta, da xenofobia. Apesar de Wuhan já ter controlado a disseminação do novo coronavírus na cidade e voltado praticamente ao normal, ainda é comum ver a mídia tratando a China como a grande vilã da história. Basta uma rápida verificada em manchetes dos últimos meses, que insistem em chamar o país asiático de ‘berço da pandemia’, ou em matérias que, para falarem da recuperação de Wuhan, tendenciosamente frisam que o resto do mundo colapsa enquanto os chineses ‘se divertem’. 

Em oposição a isso, estudos mostram que a origem do vírus causador da covid-19 permanece uma incógnita. 

Pesquisas identificaram a presença do patógeno em amostras de esgoto coletadas meses antes do primeiro caso registrado oficialmente na cidade chinesa Wuhan. Segundo a BBC News, o estudo que mais chamou a atenção foi liderado por pesquisadores da Universidade de Barcelona. Segundo eles, havia presença do novo coronavírus em amostras congeladas — coletadas na Espanha — do dia 12 de março de 2019 (nove meses antes do primeiro caso reportado na China).

Outro estudo, este realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, revela que 39 pessoas de três Estados do país já tinham desenvolvido anticorpos contra o coronavírus duas semanas antes do alerta na China. 

A mídia, no entanto, não divulga essas descobertas de forma ampla e mantém uma postura de retaguarda, mesmo sendo notório que o perigo deixou de ser a Ásia há tempos. Enquanto isso, no Brasil, muitos atacam os chineses e julgam seus hábitos e cultura, fechando os olhos para o colapso no nosso sistema de saúde, que faz mais vítimas todos os dias e pode ser uma fábrica de mutações do novo coronavírus. 

Dignidade, um valor (quase) coletivo

Os casos de xenofobia relatados desde 2020, até agora, não se restringem aos EUA. No início do mês, um professor universitário chinês foi vítima de um ataque racista anti-asiático no Reino Unido. Peng Wang, de 37 anos, foi espancado em plena luz do dia enquanto fazia uma corrida nos arredores de sua casa. Segundo reportagem da Época, entre janeiro e junho de 2020, 457 relatórios policiais de crimes com motivação racial contra pessoas que se identificaram como chinesas foram registrados no país europeu.

“Alguns malucos gritaram comigo de seu carro do outro lado da estrada. Eles disseram ‘vírus chinês’, saia deste país”, relatou Wang ao jornal South Morning China Post. Após rebater os ataques verbais e xingamentos, o professor foi agredido com socos e pontapés. 

No Brasil, a aversão a estrangeiros é endossada pelo próprio governante do país. Em outubro do ano passado, Jair Bolsonaro declarou que não compraria a vacina chinesa, então em testes, para combater o novo coronavírus. “A da China nós não compraremos, é decisão minha”, declarou à rádio Jovem Pan, “A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá” acrescentou o presidente, sem apresentar provas, insinuando que o imunizante não inspirava confiança por ser chinês.  

O cenário mundial não é favorável para ninguém, sobretudo para as minorias, étnicas e sociais. Em momentos difíceis como o que estamos vivendo, o mundo deveria se unir em prol da saúde da humanidade, mas o que vemos, infelizmente, é a segregação cada vez maior entre os indivíduos da nossa espécie. 

“O preconceito e o ódio contra o estrangeiro se aliam à discriminação devido a características físicas, sociais e culturais de grupos étnicos. No Brasil, isso não é novo. Não raro passa despercebido por conta da integração dessas minorias à elite branca brasileira. Mas, inevitavelmente, elas são lembradas que nem toda diferença é tolerada. Por isso, soa estranho falar de racismo e xenofobia a orientais. Mas é preciso, pois diz respeito a um país que não consegue efetivar a dignidade como um valor coletivo”, explica o jornalista Leonardo Sakamoto, em sua coluna no UOL.  

Historicamente, pessoas da raça amarela foram tratadas como a “minoria modelo”, ou seja, são usadas como exemplo para desmoralizar outras minorias, como pretos e indígenas. Esse tratamento, no entanto, nunca foi benéfico para os asiáticos, uma vez que, se eles não atendem às expectativas de dóceis e trabalhadores, são violentamente inferiorizados e ‘mandados de volta pra casa’. É uma política que agride, maltrata e exclui. Um ano atrás, quando meu primeiro texto sobre o assunto foi publicado, o sentimento era, não apenas de indignação, mas de impotência. 

Se o cenário de ódio e preconceito se repetiu ao longo de toda a história, não me surpreende que, no intervalo de um ano, ele tenha se repetido também.

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