Grammy e representatividade: qual a importância do funk brasileiro na apresentação da Cardi B?

Subtítulo: O que 20 segundos de exposição na cerimônia significam para a produção cultural das minorias e da periferia

Por Layla Abdon e Vitória Marcondes

No penúltimo domingo (14/03), foi celebrada  a sexagésima terceira edição do Grammy Awards, uma das maiores e mais reconhecidas premiações de música do mundo. Como de costume, foram realizadas apresentações performáticas de figuras importantes do meio musical, e, neste ano, apesar da pandemia, não deixaram de marcar presença vários artistas, como: Beyoncé, Harry Styles, Billie Eilish, Megan Thee Stallion, Roddy Ricch, entre outros.

Dentre os grandes acontecimentos da noite, destacou-se a apresentação de Cardi B., não apenas pelo cenário e coreografias sensuais, mas porque a rapper optou por cantar a versão remix do DJ brasileiro Pedro Sampaio do seu sucesso “WAP”. A artista, conhecida por seu estilo exuberante e suas músicas com letras de teor sexual, ousou novamente ao trazer pela primeira vez o funk do Brasil para os palcos do evento. 

Por se tratar de um gênero musical com origem nas favelas e periferias, ainda hoje existe muito preconceito em torno do funk, principalmente devido ao racismo estrutural evidente na sociedade. Porém, não é a primeira vez que um estilo musical com semelhantes origens é discriminado e estigmatizado e, muito menos, a primeira vez que o próprio funk recebe críticas dessa natureza. Afinal, a cultura dominante se sente ameaçada com a disrupção e conquista de espaço, de voz e representação da cultura periférica em grandes veículos de mídia.

O receio da cultura predominante é dividir ou até mesmo perder o espaço, visto que a cultura influencia e é influenciada pelas outras estruturas sociais, como a política, economia e religião. A produção cultural das minorias escancara verdades e mazelas sociais que a sociedade prefere distanciar, mascarar e até mesmo esconder. E, como a contracultura é um ato de resistência que desafia a ordem, é historicamente representada pela grande mídia como “vilã”.

Como exemplo de expressões musicais estigmatizadas, podemos relembrar produções de raízes negras como o Jazz, o Hip-Hop, o rap, o samba, entre outros. Segundo Adorno, um dos fundadores da escola de Frankfurt, o Jazz era um gênero que conduzia os ouvintes à regressão da audição e argumentos que, como esse, questionam a qualidade da cultura marginalizada, são perpetuados até hoje. Vemos o exemplo da performance de Cardi B, que desencadeou novamente discussões a respeito da qualidade e legitimidade do funk como expressão cultural.

Nesse contexto, as críticas não vieram apenas do cenário internacional, mas também do próprio Brasil. O produtor musical Rick Bonadio, o qual já realizou trabalhos para bandas renomadas como Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr. e CPM22, utilizou seu twitter pessoal para fazer um comentário negativo a respeito da exibição do ritmo na cerimônia. De maneira incoerente, expressou sua posição através de uma opinião pessoal, sem justificativa técnica ou artística, atitude imprópria, principalmente, vindo de alguém que também trabalha com música. Em seu perfil alegou: “Já exportamos Bossa Nova, já exportamos Samba Rock, Jobim, Ben Jor. Até Roberto Carlos” Afirmou. “Mas o barulho que fazem por causa de 15 segundos de Funk na apresentação da Cardi B me deixa com vergonha. Precisamos exportar música boa e não esse fica de quatro!”

No entanto, tais argumentos polêmicos foram arduamente rebatidos por diversos telespectadores e, em especial, pela cantora Anitta, que defendeu não apenas seu trabalho, como o de todos os artistas que representam o funk nacional. Em suas redes sociais a cantora ironizou o comentário do produtor, visto que, no ponto de vista dela, a curta aparição já foi um passo muito grande comparada com a dificuldade de se exportar músicas para fora do país.     

Dentro dessa questão, vale discutir o que é cultura. De acordo com Thiago Torres, também conhecido como “Chavoso da USP”, “a cultura não é um adjetivo, ela é um substantivo”. Em outras palavras, a cultura existe independentemente de classificações, preferências da alta sociedade ou premiações arbitrárias. Assim, ela vai além do preconceito e representa visões de mundo, inspira o sentimento de pertencimento e dá oportunidade aos criadores para narrarem a própria história.

No meio musical, ainda é possível destacar a extrema marginalização que grupos minoritários sofrem, como a ausência de indicações do cantor The Weeknd nas categorias do Grammy 2021. Esse episódio foi um contraponto às expectativas, considerando que após ele ter lançado o álbum “After Hours”, a música Blinding Lights” foi a mais escutada em 2020 no spotify e, durante 37 semanas consecutivas, permaneceu no Top 5 da Billboard Hot 100. Outro exemplo é a renomada artista Beyoncé, que apesar desse ano ter batido o recorde como a mulher com mais Grammys na história, nunca ganhou na categoria mais importante de “Álbum do ano”. Faz 22 anos que o prêmio não é  entregue a uma cantora negra. 

Apesar da aparição curta na performance de Cardi B., a presença do funk na premiação deu o que falar. As críticas são inerentes às novidades e disrupções, mas a mensagem foi clara. Na noite do Grammy, embora ainda haja um longo trajeto a ser percorrido, a força da produção cultural das periferias ultrapassou as barreiras da grande mídia internacional.

Um comentário sobre “Grammy e representatividade: qual a importância do funk brasileiro na apresentação da Cardi B?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s