Preto não pode ser sinônimo de morte, seja na dramaturgia ou na vida real

Como a novela Amor de Mãe tratou os seus personagens negros ao longos dos capítulos

Por Luiz Oliveira

Nesta sexta-feira (9), a novela Amor de Mãe, exibida pela Rede Globo, chega ao fim após quase um ano de sua paralisação devido a pandemia de coronavírus. O enredo, escrito pela autora Manuela Dias, acompanha a trajetória de três mães que, em algum momento da trama, terão as suas vidas conectadas. A história de Lurdes (Regina Casé), Vitória (Taís Araújo) e Thelma (Adriana Esteves) teve enorme repercussão nas redes sociais, principalmente nessa segunda e final parte da trama. 

Contudo, o objetivo desse texto não é falar sobre a qualidade e os caminhos para lá de questionáveis que a novela teve nessa volta, mas sim analisar a maneira como os personagens pretos tiveram o seu desenvolvimento no folhetim. Tendo em vista que a emissora tem uma concessão pública, logo o debate sobre a maneira como utiliza esse espaço é aceitável, ainda mais quando se trata da representação de metade da população brasileira. 

De acordo com o perfil da novela no site Gshow, ao todo, Amor de Mãe teve a participação de 12 atores negros dos 43 que fizeram parte da história. Desse número, quatro morreram ao longo dos episódios de uma forma bastante cruel e algumas vezes da maneira mais vazia possível. 

Para exemplificar, trago o que ocorreu com os personagens Marconi, interpretado pelo ator Douglas Silva, e Lucas, defendido por Nando Brandão. O primeiro teve a sua participação encerrada após ser perseguido  pela polícia, que o matou com vários tiros a queima roupa sem o menor sinal de resistência vinda da outra parte, enquanto o Sandro (Humberto Carrão), homem branco, não teve sequer um arranhão. 

A cena é muito bem dirigida e, principalmente, dá a oportunidade do ator Douglas Silva brilhar, algo que não vinha acontecendo durante toda a novela. A representação de um homem preto sendo morto covardemente pelo Estado toca um lugar muito particular e angustiante para aqueles que vivem diariamente com esse medo.

Portanto, não demorou para que começasse uma enxurrada de comentários sobre a cena nas redes sociais, questionando a autora se realmente era necessário esse desfecho para o personagem. O que fica é a sensação de que se é muito fácil matar um personagem negro nas novelas brasilieiras, não há um senso de perda, beirando quase uma fetichização. 

Banal é a melhor maneira de resumir a morte do advogado Lucas que, logo após perceber que estava sendo vigiado por Penha (Clarissa Pinheiro), comparsa do seu antigo chefe Álvaro, simplesmente aceita que será morto e sai pela rua levando um tiro dado pela assassina que estava dentro de um carro, em plena luz do dia. 

A cineasta Renata Martins compartilhou em seu perfil no Instagram um post em que diz estar exausta, pedindo que: “Parem de nos matar na Vida e na Teledramaturgia”. O que deve ser levado em consideração é o direito de outros tipos de  representações de nossas vivências. A morte de pessoas negras não pode ser vista como apenas mais uma, vulgarizada, o direito à longevidade, a uma velhice saudável tem que ser a norma para esta população. Preto não pode ser sinônimo de morte, seja onde for. 

Contudo, preciso ainda refletir sobre a condição dos outros personagens negros que não tiveram a morte como o destino. Destaco a participação das atrizes Taís Araújo, Erika Januza e Jéssica Ellen. As três tiveram inícios bastante promissores, com premissas que fugiram do óbvio destinado às mulheres negras na teledramaturgia, no entanto se perderam ao longo da história. 

O exemplo mais forte entre elas é de Taís Araújo, que ocupa o cargo de protagonista, ao lado de Regina Casé e Adriana Esteves. No entanto, Taís teve o seu desenvolvimento muito aquém quando comparado ao de suas colegas. Parece que a autora gastou todas as fichas da personagem e não sabia mais como desenvolvê-la na trama. 

Algo que não acontece pela primeira vez, se tratando de Manuela Dias. Na série Justiça, de sua autoria, exibida pela Globo em 2016, a personagem Rose, uma das protagonistas, interpretada por Jessica Ellen, teve sua história ofuscada em virtude do enredo da amiga branca. Ellen virou uma coadjuvante.

Outro ponto a ser discutido é a quantidade de casais interraciais na novela. Não é possível existir na teledramaturgia brasileira representações de relações amorosas entre pessoas pretas? Pergunto pois é um incômodo muito válido quando se trata de nossas subjetividades. Parece que nosso amor e afeto só é direcionado para pessoas brancas. 

A televisão exerce um papel importante na construção de nossa identidade. Portanto, não dá mais para acreditar que o “interesse é individual” ele parte de exemplos como esse. Ainda mais num país que clama a sua mestiçagem e no entanto não reflete como esse processo ocorreu. 

No ensaio, “amando a negritude como resistência política”, do livro Olhares negros, raça e representação (editora elefante, 2019), a autora e professora bell hooks explica como tem sido a postura de pessos brancas, em cargos de poder, sobre o tratamento dado a pessoas negras: “A verdade é que muitas pessoas lucram imensamente com a dominação dos outros e não estão feridas e sofrendo de nenhum jeito que se aproxime da condição dos explorados e oprimidos”. 

Assim, ela pretende localizar o lugar e o papel da branquitude, que se diz antirracista, reconhecendo que estes índivíduos que gozam de muitos privilégios, que não são injustiçados de alguma maneira, irão conseguir trabalhar a favor dos oprimidos por meio de suas escolhas políticas. 

Portanto, o debate se dá sobre como a autora Manuela Dias usou o seu poder para auxiliar na luta contra o racismo, tendo em vista que não há autores negros escrevendo novelas no Brasil. Não se trata da falta de profissionais, mas sim de oportunidades. Logo, a branquitude deve ser cobrada cada vez mais em como está contribuindo para este processo. 

Por fim, quero trazer as palavras de Malcolm X a respeito do processo potente e libertador que é amar a negritude. Merecemos ter as nossas experiências representadas a partir desse olhar. “Temos que mudar nossas próprias mentes… Temos que mudar nossos pensamentos a respeito uns dos outros. Temos que nos ver com novos olhos. Temos que nos aproximar de modo caloroso”. 

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