Príncipe Philip, a realeza e o valor-notícia

Família real britânica é tema do seriado The Crown e, na sexta-feira (9/4), a morte do marido da rainha Elizabeth foi notícia em todo o mundo

Por Marina Dalton

Ontem, os portões do Palácio de Buckingham estiveram repletos de flores. Aos pés das grades pretas e douradas que cercam a moradia oficial da realeza britânica, súditos deixaram suas homenagens. A bandeira do Reino Unido estava hasteada a meio mastro: morreu um membro da família real.

“É com profunda tristeza que Sua Majestade a Rainha anunciou a morte de seu amado marido, Sua Alteza Real o Príncipe Philip, Duque de Edimburgo”, dizia o comunicado oficial. A notícia foi dada pouco depois de meio-dia na Inglaterra — próximo às 8h da manhã no Brasil. “Sua Alteza Real faleceu pacificamente esta manhã no Castelo de Windsor.”

Entre fevereiro e março, Philip esteve internado no hospital King Edward VII, no centro de Londres, para tratamento de uma infecção. Ele também passou por um procedimento cardíaco em outro hospital da cidade, o St. Bartholomew. Em 16 de março, o príncipe retornou ao Castelo de Windsor.

O Duque de Edimburgo, aos 99 anos, deixou o mundo. Seu casamento com a Rainha Elizabeth já durava 73 anos e, em junho, ele completaria cem anos de vida.

Morte mediatizada

Por ser membro da família real britânica, diversos jornais ao redor do globo noticiaram a morte de Philip. E, no próprio Reino Unido, a rede britânica BBC interrompeu a programação normal no momento em que aconteceu o comunicado oficial e abordou somente o tema por, ao menos, quatro horas seguidas.

Esse acontecimento mostra o quanto a família real é importante e altamente noticiável — ou seja, de grande valor-notícia — para os jornais de lá. Os critérios que jornalistas usam para definir o que terá cobertura parecem sempre tomar a realeza como algo merecedor de espaço nos veículos.

E não somente no Reino Unido. Diversos países noticiam as mortes de membros da família real, transmitem os casamentos e, às vezes, compartilham acontecimentos bobos ou quase fofocas do Palácio de Buckingham. A intensa cobertura da morte da princesa Diana ou do casamento do filho dela, o príncipe William, são bons exemplos.

Uma possibilidade é que essa atenção extrema se deva ao grande sigilo e reserva que a família procura manter. Talvez esse distanciamento seja justamente o que atrai atenção do público e torne aquelas pessoas interessantes o suficiente para, até mesmo, ser o foco de uma série da Netflix (The Crown).

Seria a curiosidade do público o que motiva os meios de comunicação a falar da família? A vontade do povo leva jornalistas e outros profissionais da comunicação a colocar o assunto em voga, a fim de ter uma boa audiência e arrecadar dinheiro.

A noticiabilidade da realeza seria, assim, equivalente à de celebridades. A cobertura de pessoas famosas transforma ações corriqueiras em notícias, apenas pela popularidade de quem as praticou.  

Outra, e mais óbvia, razão é o papel diplomático e político da Rainha. Ela é a Chefe de Estado do Reino Unido, enquanto o Primeiro-Ministro desempenha a função de Chefe de Governo. Assim, as ações e decisões de Elizabeth 2ª podem afetar todo o reino, que por sua vez é importante para a economia mundial.

O fato é que todo tipo de acontecimento envolvendo a Rainha e sua família são amplamente noticiados.

Assim que o anúncio oficial da morte de Philip saiu, a BBC, por exemplo, fez um post apressado com as principais informações. A matéria “Família real britânica: morre príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth 2ª” trouxe dois trechos do comunicado do Palácio de Buckingham e algumas frases curtas sobre os filhos e pais do príncipe.

Uma hora depois, entretanto, o veículo publicou outra matéria com o mesmo título, que contava o fato de forma muito mais elaborada. Havia foto do anúncio afixado nos portões do palácio, fala do Primeiro-Ministro, breve história de quem foi Philip e, enfim, uma abordagem muito mais completa.

Vários outras matérias foram publicadas pela BBC sobre o assunto ao longo do dia. “Morre o príncipe Philip: sem papel constitucional, marido de Elizabeth 2ª teve grande força na monarquia”, “Príncipe Philip: 99 anos, 143 países e uma mulher muito famosa” e “Morre Príncipe Philip: a vida do marido da rainha Elizabeth 2ª em imagens” são alguns exemplos.

Isso é uma prova da corrida contra o tempo dos jornalistas em “dar o furo”. É importante publicar a notícia o mais rápido possível e, por isso, apenas depois reportagens mais completas chegam ao público. Por outro lado, a diversidade de matérias em um mesmo veículo com vários enfoques no tema destaca ainda mais o grande valor-notícia agregado à morte de um membro da realeza britânica.

Ainda que a BBC seja um veículo de comunicação britânico, os posts citados são da BBC News Brasil e refletem também a cobertura de jornais brasileiros. O Estado de São Paulo publicou pelo menos cinco matérias sobre a morte do Príncipe Philip e a Folha de S. Paulo veiculou pelo menos quatro.

The Crown

A série da Netflix, The Crown, é uma ficção histórica sobre a vida da família real britânica. Com quatro temporadas, abordou vários acontecimentos marcantes da história da Inglaterra e dramatizou outros tantos, que não necessariamente aconteceram na vida real.

Philip, como marido da personagem principal, a Rainha Elizabeth, aparece muito nos episódios. Mas nem tudo que se conta sobre ele aconteceu de fato.

Na série, Príncipe Philip não queria se ajoelhar para Rainha Elizabeth. Contudo, é muito improvável que o Duque de Edimburgo tenha dito aquilo à mulher. Ele próprio veio da realeza e estava ciente dos rituais e protocolos a seguir. Além disso, ele sabia o que era esperado dele em público e ajoelhar para a rainha era sinal de respeito pelo monarca.

Uma verdade, porém, são as dificuldades políticas que Philip enfrentou na infância. Em 1922, a Turquia invadiu a Grécia e seu pai, que servia o exército, desobedeceu ordens e foi acusado de traição. Philip e sua família foram expulsos da Grécia. Fugiram para Paris de Barco e ele realmente precisou ser transportado dentro de uma caixa de laranjas.

Outro fato é que ele quis Mountbatten para o sobrenome real. Philip lutou para que seu sobrenome fosse o que as crianças carregariam e, assim, a casa real também. Ele precisou ceder e a realeza continua sob o nome Windsor até hoje. Todavia, no verdadeiro Palácio de Buckingham, aconteceu uma meia vitória: os descendentes têm direito a usar Mountbatten-Windsor — o príncipe André e a princesa Anne, por exemplo, carregam essa combinação.

Na série, e também na vida real, Príncipe Philip teve aulas de voo. Contudo, não foi Peter Townsend, a grande paixão da princesa Margaret (irmã de Elizabeth), que o ensinou. O Duque de Edimburgo teve aulas com o tenente Caryl Ramsay Gordon.

The Crown retrata uma relação conturbada entre Philip e o filho Charles. O pai o chama de fraco e aparenta ser distante e frio. O príncipe Charles seria delicado demais para seu gosto. Não há nenhum indício de que a relação dos dois seja assim, mas é impossível também confirmar o contrário.

Além disso, a série insinua muitas vezes — mesmo que nenhuma fala ou cena evidencie — que Philip teria traído a Rainha Elizabeth. The Crown propõe que o casal real não se divorciou apenas porque Elizabeth representa o topo da Igreja Anglicana, que não aprovava separações.

Polêmica em The Crown

A série se propõe a contar a vida da família real, com foco na Rainha Elizabeth. Entretanto, existem lacunas que não podem ser preenchidas apenas com pesquisas históricas. Como dito, a realeza é muito reservada e é impossível saber com precisão as emoções e conversas íntimas.

Por isso, The Crown usa liberdade criativa para preencher a narrativa e, também, para tornar o seriado mais interessante ao público. É verdade que existe uma adição generosa de drama em alguns casos, o que pode não agradar a verdadeira família real.

A mídia apenas tem acesso a comunicados oficiais e talvez por isso goste tanto das fofocas ou “enfeites” acerca da vida da realeza do Reino Unido.

Em novembro do ano passado, o ministro da cultura britânico, Oliver Dowden, expressou ao Daily Mail críticas à Netflix. “É um trabalho de ficção lindamente produzido, assim como outras séries. A Netflix deveria deixar bem claro desde o começo que é apenas isso”, disse.

Em resposta, a plataforma de streaming afirmou que não vê necessidade e não colocará avisos de que a série é ficção, como pedia o governo.

Essa liberdade criativa é válida e perfeitamente compreensível, uma vez que a proposta de The Crown é o entretenimento. Em nenhum momento é colocada como um documentário fiel.

Além disso, a família real está em posição de destaque. Os holofotes estão voltados para eles, logo é preciso estar preparado para ver e ouvir abordagens que não necessariamente são favoráveis.

Existe, sim, uma aura de respeito que a Netflix usa para abordar questões da realeza, o que é eticamente correto. No entanto, as pessoas são retratadas como humanos, que também possuem falhas. Isso, provavelmente, é a preocupação do Palácio de Buckingham, que teme perder o encanto e distanciamento que a monarquia prevê.

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