O Brasil tem fome

Em meio à pandemia do coronavírus, os preços dos alimentos vêm subindo rapidamente. Nesse momento de crise, parte da imprensa tem evitado tratar da grave crise humanitária afetando a maioria da população, optando por desculpas e eufemismos

Por Lucas Guaraldo

    O Brasil passa por um dos seus piores momentos na história. Além dos quase 400 mil mortos pela covid-19, o preço dos alimentos tem subido vertiginosamente. Em 2020, trabalhadores que recebiam até um salário mínimo gastavam mais da metade de seu dinheiro apenas para conseguir se alimentar. Somado à alta do custo de alimentação, o desemprego no primeiro trimestre de 2021 chegou à marca recorde de 14,3%, fazendo com que mais 116 milhões de brasileiros não tenham comida suficiente ou passem fome. 

Apesar do número de brasileiros famintos ter quase dobrado desde 2018, quando IBGE registrou 10 milhões de pessoas nessa condição, a cobertura midiática da crise tem sido tímida, ou até mesmo omissa, em muitos casos. Conforme os valores subiam, cresciam também os números de matérias recomendando a substituição de alimentos e dicas de cortes de gastos. No fim de setembro, a Folha de S. Paulo e o G1 repercutiram uma matéria da BBC News que ensinava a população a comer alimentos mofados com segurança.

Causadora da alta dos preços, a inflação brasileira fechou o ano de 2020 em alta de 4,52% e afetou principalmente os produtos de supermercado, devido à intensa exportação de produtos brasileiros incentivada pela desvalorização do real frente ao dólar, causada pelo governo Bolsonaro, além da desvalorização proveniente da pandemia. No entanto, em março deste ano, o Exame, portal de notícias que cobre principalmente pautas de economia e finanças, publicou uma matéria afirmando que o auxílio emergencial, distribuído às famílias mais vulneráveis durante a pandemia, seria um dos culpados pelo descontrole.

    Culpar os mais pobres pela crise brasileira não é só um costume altamente desonesto do mercado financeiro nacional, como também retira toda a culpa da equipe econômica e a “ala técnica” da atual gestão, que criou as condições para a exportação desenfreada. Quando o presidente da República prefere implorar “patriotismo” dos donos de mercado como forma de controlar os preços no lugar de aplicar medidas concretas de controle, procurar qualquer outra razão para a inflação é fugir do problema. 

    Como observou o economista e ganhador do prêmio Nobel, Amartya Sen, “não existe essa coisa de problema de alimentos apolítico”. Mesmo que a demanda externa das commodities e a injeção de bilhões de reais na economia tenham contribuído para a inflação brasileira, são as ações dos governantes que vêm determinando a severidade e os atingidos pela falta de alimentos. Em 2020, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a alta dos preços foi dez vezes mais sentida nas famílias mais pobres, mais vulneráveis às flutuações dos valores nos mercados.

    A pandemia do coronavírus, como todo momento de crise, pode ter acentuado os problemas do Brasil, mas não podemos culpá-la pela desigualdade, pela fome e pela forma como ignoramos as crises que afetam principalmente as camadas mais pobres do País. Minimizar os efeitos e as causas da crise alimentar no Brasil é simplista e só ajuda a piorar a situação. Tratar a fome como um pequeno inconveniente que pode ser superado com dicas de substituição de ingredientes dignos de Maria Antonieta – que em 1789 supostamente recomendou à população que comprasse brioches para matar a fome causada pela falta de pão -, é escancarar a desumanização imposta às camadas que mais sentem os efeitos dessa crise. 

    Portanto, é dever da imprensa investigar, denunciar e cobrar respostas dos responsáveis por todas as diferentes crises que afetam o Brasil atualmente, sejam eles empresários, economistas ou políticos. No momento, os jornais brasileiros têm a chance de lidar de frente com um problema que nos assola há séculos. Tratar do maior número de famintos dos últimos 17 anos no segundo maior exportador agrícola do mundo, que tanto representa para a segurança alimentar de outras nações, da forma como parte da imprensa vem tratando, é um desserviço e uma covardia.

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