Afinal, por que levantar a bandeira da diversidade no futebol é tão importante?

Clubes brasileiros se posicionam contra o preconceito e promovem ações no mês do orgulho LBGTQIAP+

Por Marcela Alvim

No dia 27 de junho de 2021, o Vasco da Gama se tornou o primeiro time brasileiro a entrar em campo com uma camisa feita em homenagem à causa LBGTQIAP+. O uniforme especial fez muito sucesso e  teve seu estoque de vendas zerado em menos de uma hora após o lançamento. Ainda no Rio de Janeiro, outros times fizeram alterações em seus uniformes. Flamengo e Fluminense, por exemplo, jogaram com numerações coloridas. Essas ações viralizaram nas redes sociais e chamaram a atenção da imprensa mundial.

O futebol ainda é um ambiente homofóbico vide o que aconteceu com Gil do Vigor após visita à Ilha do Retiro, casa do Sport Club do Recife, time ao qual o economista dedica a sua torcida. Gilberto José Nogueira Júnior, mais conhecido como Gil do Vigor, ganhou notoriedade ao participar da vigésima primeira edição do Big Brother Brasil, da qual foi o décimo sexto e último eliminado. Em um vídeo divulgado em suas redes sociais, o ex BBB aparece dançando “tchaqui, tchaqui, tcha” no gramado do estádio. Contudo, um dos dirigentes do clube não gostou da visita, oferecida de presente pelo próprio Sport, e enviou um áudio com teor homofóbico a outros membros da equipe.

“Isso é uma desmoralização! Isso é ausência de vergonha na cara. Não tem mais respeito por pai e filho. 1,2 milhões de pessoas achando que o Sport só tem “viado”, só tem bicha. Vai vender é camisa. A viadagem todinha vai comprar . Se ele tivesse feito a dancinha na casa dele ou no bordel, eu não estava nem aí. Foi dentro da Ilha do Retiro”, disse o conselheiro.

As críticas relacionadas como, por exemplo, o comentário realizado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP), evidenciam que o preconceito nesse espaço está longe de acabar. O parlamentar usou a linguagem neutra, pauta amplamente debatida pela comunidade LGBTQIAP+, em uma publicação, após o posicionamento de um clube. “Já sabemos que o Fluminense é um time de todXs”, afirmou.

Apesar das retaliações, o jogo do Vasco contra o Brusque, pela Série B do campeonato brasileiro, foi um grande show em combate à intolerância. As bandeiras que  traziam as cores do  arco-íris, foram espalhadas pelo estádio de São Januário. Além disso, as arquibancadas do local exibiram um mosaico com a palavra respeito. No entanto, o momento mais representativo da partida ainda estava por vir.

Ao abrir o placar do jogo, o atacante argentino Germán Cano retirou a bandeira LBGTQIAP+, que estava sendo usada como marcação de escanteio, e a ergueu em comemoração ao gol. Ele, literalmente, levantou a bandeira da causa. “O que o Cano fez em São Januário talvez tenha sido o maior gesto já feito por um atleta no futebol brasileiro nos últimos tempos. Isso está à altura do que o LeBron James fez na NBA, do que o Kaepernick fez na NFL”, afirmou Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios no esporte, em entrevista concedida ao jornal O Globo.

A véspera do dia internacional do orgulho LBGTQIAP+ também marcou o Vasco fora do gramado. Na manhã do dia 27, o clube assumiu a responsabilidade de se posicionar sobre o tema e publicou um manifesto onde apontou a homofobia e a transfobia como alguns dos problemas mais graves do nosso tempo. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, a cada 23 horas uma pessoa LGBTQIAP+ morre no Brasil. O país é o que mais mata pessoas trans no mundo. 

Manifesto e o respeito à diversidade

O histórico de luta do Vasco em favor das maiorias é exemplar. O clube cruz-maltino, de 1923, não aceitou o racismo naturalizado no século anterior e foi um dos precursores na luta contra esse tipo de preconceito no futebol. Agora, é o primeiro time a levantar um movimento contra a homofobia e a transfobia no esporte brasileiro. A carta feita pelo Vasco foi publicada em diversos veículos de notícias. O portal Globo Esporte, por exemplo, fixou o texto em todas as matérias referentes às ações promovidas pelo clube. 

O mundo esportivo não é um ambiente adepto a mudanças. Ele é, por sua vez, um reflexo da sociedade que o rodeia e, com isso, acaba reproduzindo seus estereótipos e preconceitos. “Reproduz, enfim, sua inércia” (trecho retirado do manifesto). Diante disso, não assumir um posicionamento já é se posicionar. 

O simbólico texto publicado pelo Clube de Regatas Vasco da Gama é um marco de acolhimento. Torcedores e atletas se sentiram livres e representados. É o caso do jogador João Pedro que aproveitou o momento para homenagear suas mães e o clube em que joga. “Orgulho é a palavra de hoje, orgulho dessas duas mulheres, orgulho de fazer parte de um clube tão GIGANTE”, publicou o atleta na legenda de uma foto postada em seu instagram.

O manifesto convida clubes, atletas, torcedores, dirigentes, federações e sociedade a assumirem  um compromisso conjunto de debate acerca do tema e é fundamental para que situações semelhantes às que aconteceram na Eurocopa deixem de existir.

Quando o assunto é diversidade, a UEFA (União das Federações Europeias de Futebol) vem se destacando negativamente. Veículos jornalísticos do mundo todo noticiaram o que ocorreu durante o jogo entre a Dinamarca e a República Tcheca, realizado no último sábado (3/7/2021), onde torcedores dinamarqueses foram impedidos de levantar a bandeira da  comunidade LBGTQIAP+.

Algo parecido também aconteceu antes do jogo entre Alemanha e Hungria, na Allianz Arena, em Munique. Na ocasião, a UEFA  (União das Federações Europeias de Futebol) também impediu que o estádio fosse colorido em protesto a uma lei, que proíbe conteúdos LBGTQIAP+, aprovada na Hungria.

Precisamos, portanto, combater a homofobia com firmeza, sermos parte da mudança e não do problema. No entanto, isso só será possível se a mídia, de maneira geral, fizer com que essas discussões ganhem espaço na esfera pública, gerando visibilidade para a luta contra o preconceito. Que ações como as dos clubes brasileiros, relatadas neste texto, ganhem mais notoriedade e jamais sejam ignoradas. O respeito à diversidade é fundamental para uma sociedade livre de intolerância.

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