O mito da beleza na era das redes sociais

Após Brasil ser líder pelo segundo ano consecutivo no ranking mundial de procedimentos estéticos, como as mídias digitais transformaram os brasileiros em marionetes de plásticas?

Por Vitória Marcondes

Pelo segundo ano consecutivo, de acordo com os dados divulgados pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil é o país líder no ranking mundial na realização de cirurgias plásticas. Em 2018, foram registradas mais de 1 milhão 498 mil operações no país, além de mais de 969 mil procedimentos estéticos não-cirúrgicos. Em 2021, cresceu em mais de 140% o número de cirurgias realizadas em jovens de 13 a 18 anos, uma situação alarmante tendo em vista que a maioria ainda nem passou por todo o processo de amadurecimento fisiológico e hormonal. Diversos especialistas debatem a respeito das causas para o aumento exponencial da procura, contudo, grande parte aponta o fenômeno das redes sociais como um dos fatores principais.

Não é de hoje que a busca pelo padrão de beleza, constituído essencialmente pelo modelo capitalista ocidental, condiciona os parâmetros sociais através de preconceitos e na desvalorização da diversidade. Entretanto, a partir do avanço das mídias digitais, é possível perceber a reprodução contínua de imagens utópicas e corpos irreais, seja em decorrência dos filtros que mudam as feições ou da exposição de fotos editadas. Cada vez mais os usuários passaram a se sentir insatisfeitos com sua aparência, tanto que dados publicados pela BBC News, da Academia Americana de Cirurgia Facial Plástica e Reconstrutiva, indicaram que 55% dos cirurgiões em 2017 já tiveram pacientes os quais solicitaram operações para “melhorar sua aparência em selfies”.

Nesse cenário, tornou-se comum a divulgação de procedimentos estéticos nas redes pelos denominados influenciadores digitais, que são personalidades com grande número de seguidores nas plataformas. Essas figuras fazem publicidade para clínicas, muitas vezes sem preocupação com a saúde física e mental das pessoas que as acompanham nas mídias. 

Um evento extremamente problemático em 2020 foi o procedimento de Lipoaspiração LAD (para definição do abdômen) realizado pela influenciadora de 18 anos Giovanna Chaves, compartilhado em seu perfil no Instagram. Além das críticas devido a sua pouca idade, e ao fato de que seu corpo já era considerado dentro do padrão estético, a exposição também representa a divulgação banalizada de cirurgias por indivíduos desvinculados da área da saúde, principalmente para o público adolescente que segue a jovem na rede social. 

É imprescindível ressaltar que os jovens ainda são o grupo de maior impacto nesse quesito, uma vez que a formação do cérebro humano é finalizada apenas após os 20 anos, como, por exemplo, na zona frontal, a qual controla impulsos e forma percepções. Ou seja, durante a juventude as informações recebidas são processadas de maneira mais intensa por questões cognitivas. Dessa forma, a pressão social para fazer parte do padrão de beleza é muito perigosa para a saúde mental dos mais novos, que, ao serem bombardeados constantemente com perfis inatingíveis, tendem a desenvolver transtornos físicos e mentais, como depressão, distúrbios alimentares, ansiedade, entre outros.    

Entre os procedimentos mais realizados são destaque o silicone, a rinoplastia e a lipoaspiração. A busca pelo aumento dos seios com próteses mamárias não é novidade, muito decorrente da sexualização dos corpos femininos pela pornografia. Contudo, é importante também observar que a procura pelo afinamento do nariz não é apenas uma “tendência moderna”, mas sim resultado do racismo estrutural que oprime pessoas com traços grossos ou largos. Ademais, é importante pontuar que existem casos em que essas intervenções são procuradas para correções necessárias e com recomendação médica, mas ainda assim a maioria está atrelada aos estereótipos sociais.  

A questão principal quanto à gourmetização das cirurgias plásticas gira em torno da venda desses procedimentos como uma solução rápida e fácil que pode mudar sua vida, mas poucas vezes são divulgadas histórias das possíveis complicações e dos reais prejuízos a longo prazo. Em abril de 2021, a influenciadora digital Jéssica Frozza utilizou das suas redes sociais para compartilhar as consequências após um ano da realização de sua bichectomia (retirada da massa de gordura do rosto), nas quais divulgou imagens do rosto deformado. O cirurgião Dr. Fernando Bianco, em entrevista à revista Marie Claire, afirmou que com a massificação das cirurgias, muitos profissionais sem especialização, como por exemplo dentistas e pessoas não relacionadas com a área da saúde, passaram a fazer esse tipo de operação, o que compromete os resultados e coloca em risco a vida dos pacientes.

Ainda em 2021, também ocorreu o caso da morte da influencer Liliane Amorim, que tinha apenas 26 anos, após problemas durante uma cirurgia de lipoaspiração. Em média, no Brasil, são realizadas 596 lipoaspirações a cada 24 horas, mas, apesar de a taxa de mortalidade não ser tão alta, 19 a cada 100 mil procedimentos, é imprescindível destacar que muitas pessoas sofrem complicações que são estendidas pelo resto da vida. Atualmente, o grupo de Facebook denominado “Vítimas de Cirurgia Plástica” possui mais de 3 mil mulheres integrantes, que relatam suas histórias como forma de solidariedade à dor da outra. 

Dentre o número de intervenções estéticas realizadas por ano, apenas 27% são reparadoras. De acordo com a ISAPS, a maior parte é realizada por mulheres em idades entre 35 a 50 anos. Mas por que um número tão alto? Apesar de as redes sociais serem ferramentas de impulsionamento para esse fenômeno, não são as únicas responsáveis pela sua origem. Devido ao machismo estrutural e sua influência, as mulheres crescem dentro de uma sociedade competitiva a qual ensina que a beleza deve vir antes de tudo. Além disso, devido à objetificação feminina, o corpo nunca de fato pertence a elas, visto que os homens se apropriam de suas escolhas e poder de decisão. Isso se deve ao objetivo de enfraquecimento das mulheres, pois quanto mais defeitos forem criados, menor será sua força de combate ao patriarcado. 

Tal questão pode ser observada no caso de violência médica que ocorreu em dezembro de 2020 com a apresentadora Luisa Mell, que foi submetida a uma lipoaspiração involuntária nas axilas enquanto estava inconsciente. De acordo com a ativista, ela havia combinado com seu dermatologista de realizar apenas um procedimento a laser, mas quando acordou da sedação o médico informou que tinha feito outra cirurgia como forma de presente, sem seu consentimento, autorizada por seu ex-marido, Gilberto Zaborowsky.   

Com relação aos dados apontados, a função não é provocar abominação às intervenções estéticas, sejam cirúrgicas ou não, tendo em vista que cada um deve ter o direito de escolher o que fazer com seu próprio corpo, sem contar que certos procedimentos vão além da vaidade e têm relação com a saúde física e/ou mental dos indivíduos. Mas os números e informações, servem como alerta para a maneira como a indústria cultural se apropria do conceito do padrão estético para gerar uma corrida sem vencedores, e até que ponto somos influenciados por isso todos os dias em nossas redes sociais. Enquanto não for estabelecido um limite, muitas vidas serão perdidas na guerra pela beleza.

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