VESTIDAS PARA CONFRONTAR

Roupas demarcam identidades e momento histórico, político e cultural vivido; para mulheres, ainda são motivo de discursos sexistas

Por Letícia Mouhamad

Neste último mês, a seleção feminina de handebol da Noruega foi punida por usar shorts, em vez de biquíni, no Campeonato Europeu de Handebol de Praia. Segundo a Federação Europeia de Handebol (EHF, na sigla em inglês), a roupa seria “imprópria” e iria contra o regulamento da prática esportiva. 

Esse fato retomou a discussão acerca da enorme diferença – de tamanho – entre os uniformes masculinos e femininos, que parecem cumprir objetivos distintos perante os órgãos responsáveis, o público e a mídia. Inúmeros jornais veicularam a notícia. A BBC News, por exemplo, destacou o quanto o sexismo se reflete nas roupas das atletas. 

Conforme é relatado pelas próprias esportistas, o biquíni é um traje pouco prático e que as hiperssexualizam, situação que não ocorre com os competidores masculinos, por exemplo. A punição levanta vários questionamentos a respeito da flexibilização no uso dos uniformes. Por que seria uma atitude negativa reformular os trajes para que eles sejam mais confortáveis para as atletas?

As roupas, das mais casuais às institucionalizadas, estabeleceram papéis sociais ao longo dos anos que ditam o que é apropriado e aceitável, não para qualquer pessoa, mas especificamente para as mulheres. Como pode ser um instrumento de controle dos corpos femininos, o vestuário considerado adequado, normalmente, é aquele condicionado à opinião e ao olhar masculino.  

Por isso, não é interessante para os dirigentes da EHF, em grande parte homens, que as atletas modifiquem seus uniformes, já que, mais do que a partida, seus corpos também são motivo de atenção do público e da mídia.

“A questão não é o short. A questão é que mesmo em 2021 as mulheres ainda têm que ouvir o que podem ou não podem vestir, porque seus corpos ainda são vistos como objeto para o proveito dos homens, algo sobre o que se tem direito de comentar, de exigir e de decidir”

Tova Leigh, criadora de conteúdo digital em entrevista à BBC

No século 19, os espartilhos, que poderiam trazer inúmeros problemas à saúde, eram símbolo de virtude e o seu uso propagava a ideia da mulher como um ser frágil 

Não é preciso ir longe para encontrar um exemplo semelhante no Brasil. Em 2016, estudantes do tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, organizaram uma manifestação onde tanto meninas quanto meninos utilizavam saias. O  “saiato”, nome pelo qual o movimento ficou conhecido, seria uma resposta às ofensas e assédios que as alunas teriam sofrido por estudantes de outra instituição que fizeram comentários machistas sobre o comprimento das roupas das garotas. 

O objetivo, então, seria acabar com a obrigatoriedade das saias para meninas e, caso os garotos também quisessem usar, poderiam. Deu certo. A manifestação resultou na eliminação da obrigação do uso do uniforme escolar por gênero, ou seja, não há mais distinção entre uniformes masculinos e femininos e os estudantes podem optar por usar calças ou saias. 

O objetivo da decisão do Colégio Pedro II foi manter a identidade e igualdade entre os alunos

Roupas não se tratam apenas de questões estéticas, elas vão além e é de extrema importância levantar esse questionamento. Segundo o site História da Moda, feministas do século 19 que ousavam usar roupas mais práticas e leves, como a calça, eram ofendidas e chegavam a ser agredidas nas ruas. Foi esse traje, inclusive, que demarcou, no século seguinte, a inserção das mulheres em profissões antes exercidas sobretudo por homens, além de permitir que elas tivessem maior mobilidade ao praticar esportes, como o ciclismo. Com a evolução da indústria e o aumento das demandas de inúmeros grupos sociais,  recentemente, a moda plus size, por exemplo, tem ganhado espaço, contrariando padrões de beleza e prezando pela autoestima das mulheres.

Nessas situações, a mídia tem o papel de escolher o que abordar e de que forma. No caso ocorrido na Olimpíada, as imagens retratadas sobre as esportistas são importantes: o que a fotografia vai mostrar? Aspectos do jogo ou do corpo das mulheres e o que elas vestem? Qual ângulo será utilizado? Já com relação ao texto, é relevante pensar no que veicular acerca dos acontecimentos: a notícia diz mais sobre o fato ou sobre as pessoas? Ao destacar personalidades, falar de aspectos estéticos ou físicos é interessante, se eles não tiverem relação com a pauta? Todos esses questionamentos devem ser feitos pela mídia, em especial, pela imprensa, já que ela possui grande influência na opinião pública.

Equipe da marca Lela Brandão Co., focada na produção de roupas confortáveis, com a logo da empresa ao fundo


O que vestimos possui um significado – político, social e cultural – e diz muito mais sobre a nossa personalidade do que imaginamos. Então, se durante muito tempo, o vestuário foi instrumento de repressão e até mesmo de violência de gênero, ele também pode contribuir para um processo de emancipação e resistência, como algumas marcas já têm proposto, ao sugerirem o uso consciente das roupas e prezando pelo conforto. Curta, longa, larga, apertada, do estilo que for… o importante é sentir-se bem. Afinal, “uma mulher confortável em si é uma revolução”.

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