De graça, até injeção na testa

Como a cultura brasileira, as campanhas de imunização e a mídia influenciam na alta adesão à vacina

Por Alice Bela e Heloíse Gonçalves

Em 21 de setembro de 2021, o Brasil alcançou a marca de 90% da população adulta vacinada com pelo menos a 1º dose, o que corresponde a 68% da população total, ultrapassando os Estados Unidos, que estagnou e vem adotando a estratégia de dar recompensas (inclusive financeiras) para incentivar a população a se imunizar. Contrariando a influência do Presidente da República, o Brasil apresenta uma das menores taxas de rejeição à imunização, segundo estudo publicado na revista Nature. Desde o lançamento das vacinas, a procura e a adesão têm sido massivas, e o maior obstáculo é justamente a incompetência governamental, que fez campanhas contra a imunização, atrasou doses e ignorou medidas básicas de proteção

Diante desse cenário, fica o questionamento: por que, apesar de tudo, o movimento antivacina não “pegou” no Brasil? A resposta pode estar associada ao histórico positivo do país no incentivo à imunização. 

Início de um sonho

Tudo começou com a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV), em 1966, que de fato cumpriu seu objetivo: o Brasil se viu livre dessa doença em alguns anos. Com a mobilização de recursos nas instâncias da federação, de estados e de municípios, além do recrutamento de milhares de funcionários e da criação de “Dias Nacionais de Vacinação”, foi possível colocar tal plano em prática. Ficou marcado o início da história das campanhas de vacinação no país – experiência que muito em breve seria útil para promover a próxima campanha: a da poliomielite.

Quando a pólio teve sua vacina desenvolvida, houve a criação da “Campanha nacional de vacinação oral contra a poliomielite no Brasil”, bastante anunciada na mídia, o que  movimentou a procura das vacinas pelos pais das crianças que tomariam a gotinha. O número de casos, que antes estava em 1290, passou para 122 depois da segunda etapa da vacinação, e no ano seguinte registrou a marca de 45 casos confirmados, o menor número até então. 

O sucesso dessas campanhas se deu por conta da articulação entre os órgãos públicos, da elaboração de estratégias eficazes para a aplicação das vacinas e também pela grande cobertura midiática, que foi capaz de cristalizar na mentalidade da população o reconhecimento da importância da imunização para garantir a saúde.

Mas não foi sempre assim

A reurbanização da cidade do Rio de Janeiro, que aconteceu de 1902 a 1906, tinha como propósito torná-la parecida com cidades europeias – especialmente Paris –, e foi promovida uma transformação que se passou tanto no visual da capital fluminense quanto no combate às doenças que se alastravam no período. 

Uma das etapas da campanha de saneamento era a vacinação em massa, que foi realizada com autoritarismo, onde casas eram invadidas e vasculhadas sem nenhum esclarecimento sobre a vacina de fato. A população, boa parte já revoltada porque foi desalojada do centro da cidade e teve que se acomodar nos morros, diante de todo esse contexto de opressão, resistiu duramente e protestou contra. Tal evento histórico ficou conhecido como a “Revolta da Vacina”.

 Esse é um exemplo claro de como o descaso dos governantes, a tirania e a falta de comunicação devida comprometem a saúde pública. O Estado precisava lidar com todos de forma responsável e humana, inspirar confiança e deixar que as pessoas fossem parte da construção de uma sociedade consciente a respeito da saúde coletiva, uma mudança completa de mentalidade. A vacina deveria, antes de mais nada, ser algo desejável, não uma imposição. Para isso, houve uma mudança na postura do Estado e foram adotadas diversas medidas de incentivo governamental e midiático e a criação do Programa Nacional de Imunização (PNI), formulado em 1973, impactando na adesão por parte da população.

Deu tudo certo

Desde a reformulação da política de vacinação, o Brasil conta com diversos incentivos, desde a ampla cobertura e distribuição que só é possível devido ao Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo que existam vacinas de graça por todo o país, até a valorização através das mídias e campanhas que contam com a presença de famosos e figuras públicas.

Um marco importante para a reformulação da política de imunização foi a criação de uma personalidade que é, hoje, não só largamente conhecida como também adorada pelos brasileiros, o Zé Gotinha. Criado em 1956 como estratégia do PNI, tinha como papel ajudar na vacinação infantil diminuindo o medo e a resistência, pois foi apresentado para as crianças (e para os pais) como uma figura amigável. Em pouco tempo, ele já havia virado mascote de várias outras campanhas.

Assim como o Zé Gotinha, outras figuras ganharam popularidade e relevância no cenário nacional e também usam sua influência para reforçar a necessidade da vacinação, como o divulgador científico, Átila Iamarino e o médico Drauzio Varella. Mas o que isso tem a ver com o avanço da vacinação?

A credibilidade é um fator de extrema eficácia quando tratamos de campanhas que buscam conversar com a população, seja porque essas pessoas são vistas como especialistas ou simplesmente por despertarem vínculos afetivos. É através dessa conexão que é possível alcançar atenção e persuadir uma grande parcela de pessoas a tomar a vacina. Esses famosos também usam sua influência e popularidade para difundir informação de uma forma mais acessível, inclusiva e orgânica, como as celebridades que comemoram a imunização postando fotos nas redes sociais se vacinando, por exemplo. Além disso, ao se apropriar de uma linguagem tipicamente brasileira compreendida pela cultura popular, MC Fiote lançou um remix com letra adaptada de sua música Bum Bum Tam Tam, homenageando o Instituto Butantan, onde ocorre a produção da CoronaVac no Brasil.

Utilizar memes como ferramenta de comunicação é uma estratégia que tem crescido nos últimos anos, isso se deve ao grande alcance que esse conteúdo pode atingir. Apesar de usado para espalhar fake news, é possível, por outro lado, ser usado para veicular informações de utilidade pública, educar, ou até expressar um pensamento comum. As próprias redes sociais permitem que qualquer pessoa crie e compartilhe conteúdos engraçados, com grande potencial de viralizar.

Seguindo esse caminho, diversas prefeituras e cidades também criaram seus próprios memes para convidar a população a se vacinar. A mídia tradicional também desempenha bem seu papel ao difundir informação combatendo notícias falsas e boatos, desmistificando a vacina e alertando o público sobre datas e locais de vacinação.

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