A manutenção da velha política na busca por cliques

Como a imprensa contribui para que gerações das mesmas famílias permaneçam no poder

Por Malu Souza

No início deste mês, a deputada federal Joice Hasselmann oficializou sua saída do Partido Social Liberal (PSL) e filiou-se ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), marcando mais uma troca de sigla bastante comum em ano pré-eleitoral. Em post na página do último partido no Instagram, o adolescente Tomás Covas, 16 anos, filho do ex-prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, comentou que a filiação de Joice era uma “vergonha”.  

A partir disso, uma enxurrada de manchetes semelhantes a “‘Vergonha’, diz Tomás Covas sobre Joice no PSDB; deputada rebate” foram publicadas em diversos veículos de comunicação. Além do Metrópoles, veículos como Folha, G1, Extra, UOL, Jovem Pan, Poder360, O Antagonista, entre tantos outros, surfaram na onda da repercussão do comentário de Tomás. A opinião do adolescente gerou uma saia justa para ele que, além de ser criticado por diversas personalidades do campo político, no dia seguinte teve que almoçar com a deputada federal. O que faz com que Tomás Covas, ainda tão jovem, se sinta tão à vontade nesse meio? Uma das variáveis que respondem a essa pergunta é a mídia.

Desde a morte do pai, em maio, o rapaz vem tendo amplo espaço na imprensa, principalmente quando o assunto envolve o universo político. Já concedeu entrevista ao Fantástico e rebate com frequência as falas do presidente da República. Alguns exemplos de matérias que são veiculadas sobre o adolescente são relacionadas ao futuro dele no partido, como um levantamento sobre os planos do PSDB, o contrato como estagiário no Palácio dos Bandeirantes (sem passar por qualquer tipo de seleção), a filiação ao PSDB, entre outras. Cada passo de Tomás é monitorado e a imprensa já coloca a opinião dele como relevante, com destaque para a Folha de S. Paulo

A ligação de Tomás com o PSDB se explica no fato de que o bisavô, Mário Covas, foi um dos fundadores do partido em 1988 e, desde então, vários membros da família se elegem a cargos políticos pela sigla. Se famílias nordestinas enraizadas na política são apelidadas pela imprensa de coronelistas, o que acontece no Sudeste se chama como? Sempre tem um mandatário de sobrenome Covas ocupando quadros no partido e, com o falecimento precoce de Bruno Covas, restou para o único filho representar a família no PSDB.

A imprensa é uma das grandes responsáveis pela manutenção de famílias políticas tradicionais no poder. A reverberação e a busca incessante pelo posicionamento de um adolescente de 16 anos beira o sensacionalismo na caça por cliques. Em textos jornalísticos, frequentemente, o termo “herdeiro do PSDB” é atribuído a Tomás, que também já é projetado como futuro prefeito de São Paulo. Pelo que se coloca, aparentemente o partido é um reino que caiu no colo de um adolescente que teve que assumir a coroa. A mesma coisa foi feita com João Campos, filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes.

João Campos

Com a morte de Eduardo Campos, em um acidente aéreo em 2014, os olhos da imprensa se voltaram para o filho mais velho, João Henrique Campos, como “herdeiro político” da família dentro do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Na época, João tinha 20 anos de idade. Esse frisson da imprensa durou até 2018, quando João, aos 25, foi eleito como o deputado federal mais votado da história pelo estado de Pernambuco. Dois anos mais tarde, em 2020, ele viria a se tornar prefeito da capital pernambucana, Recife.

Os motes da campanha de João em 2018 eram “menino de Eduardo” e ‘filho da esperança” aproveitando bem o título de herdeiro político, conferido a ele pela mídia. Atrelado às figuras do pai e do bisavô, foi eleito como uma ideia de continuidade do legado da família. Em dois anos como deputado federal, apresentou um trabalho inexpressivo, se candidatou a prefeito de Recife pelo PSB, em 2020, tendo como oponente a própria prima, Marília Arraes (PT). Juntos, protagonizaram uma disputa digna do programa Casos de Família, com direito a baixarias e fake news

Assim como São Paulo está para os Covas, Pernambuco pertence politicamente aos Arraes/Campos, e a mídia tradicional é uma grande colaboradora para a manutenção desse cenário, mas com o singelo detalhe de só apontar as famílias nordestinas como coronelistas.

Perspectivas

A mídia se contradiz e vive uma dualidade ao criticar legados políticos familiares, hereditariedade na política, mas, na primeira oportunidade, emplacar herdeiros no cenário político nacional. Essa prática se dá pelo fluxo frequente de chamadas sobre os filhos dos políticos. Com tamanho volume de mídia espontânea e imprensa contribui ativamente para a mais uma geração da mesma família ascender ao poder.

Mesmo cansada dos velhos “caciques”, faz com que Sarney, Neves, Magalhães, Maia, Covas, Brizola, Mello, Calheiros, Crivella, Picciani, Richa, Jereissati entre tantos outros sejam sobrenomes que sempre ocuparão o espaço político como dinastias enraizadas no poder. Ao que tudo indica, uma vez que a história se repete, assim que tiver idade suficiente, Tomás Covas ocupará um cargo eletivo como João Campos. Pedir diariamente renovação política no país, buscar terceiras vias e chamar famílias de políticos nordestinos de coronéis, sulistas de caudilhos, o Partido dos Trabalhadores (PT) de feudo, enquanto ignora as mesmas práticas que acontecem no Sudeste, faz parte do dia a dia da imprensa brasileira. A mídia tradicional está fechada com a política tradicional nas mãos de famílias tradicionais.

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