Big Brother Brasil: a representação trans na mídia brasileira

No mês da visibilidade trans, a internet volta a discutir a presença de trans e travestis na mídia

Por Alice Oliveira e Vinícius Ramos

No dia 20 de janeiro, Linn da Quebrada, uma das participantes do BBB 21, afirmou em sua apresentação para os colegas de confinamento como se identifica: “Não sou mulher, nem homem. Sou travesti”. Uma fala de grande peso no maior reality do Brasil gerou desdobramentos e um extenso debate acerca da representação de trans e travestis na mídia brasileira. Desde então, buscas pelo termo “o que é travesti?” cresceram 110% no Google Trends, e o que explica isso é justamente a presença da jovem no reality. 

Diante das diversas questões relacionadas à diversidade, as que prevalecem são as dúvidas referentes à expressão de gênero, que nada mais é do que o jeito que uma pessoa manifesta sua identidade ou se relaciona com sua identificação, não necessariamente, tendo que concordar com seu sexo biológico.

Desse modo, é comum que ainda existam algumas dúvidas sobre o assunto: o que é ser trans? O que é ser travesti? São a mesma coisa? E não. Não são. Transgênero é a pessoa que se identifica como sendo do gênero oposto ao que foi biologicamente designado em seu nascimento. Já travesti é uma identidade feminina e política, e se trata de uma questão de identificação. Enquanto mulheres trans se identificam como mulheres, travestis também estão no campo feminino e optam por serem chamadas por pronomes femininos, mas nessa situação, não necessariamente seguindo o binarismo homem-mulher. E esse é o caso de Linn, que tem tatuado em sua testa a palavra “ela”, para reforçar como deve ser tratada. Travestis devem ser tratadas sempre no feminino: “a travesti”.

Representação travesti na mídia brasileira: de Rogéria a Linn da Quebrada 

Em meados de 1960, o Brasil conheceu a primeira multiartista travesti da televisão. Rogéria começou sua carreira como maquiadora na TV Rio e logo foi parar nas telas de milhões de brasileiros como atriz, cantora e jurada de programas de auditório como o Cassino do Chacrinha. Tendo ganhado fama durante a ditadura militar no Brasil, implantada a partir de 1964, Rogéria disse em entrevista para o El País que “não se interessava por política”, porém seu nome se tornou grande para tantas outras travestis que viviam com medo de existir entre os anos de 1964 e 1985  no Brasil. Chamada por si mesma como “A travesti da família brasileira”, a atriz introduziu em centenas de lares a existência de outras sexualidades que fugiam da cisgeneridade, e junto a outros nomes da comunidade LGBTQIA+, manteve o teatro de pé em meio ao maior período de censura vivido no país. 

Outro nome que marcou a mídia brasileira nos anos  1960 foi a travesti Jane Di Castro. Com mais de 10 papéis em novelas e documentários, a atriz encantou por anos a noite carioca, chegando até a fazer apresentações internacionais. Jane era filha de um casal conservador, sua mãe era evangélica e seu pai militar, portanto, ela conheceu logo cedo a transfobia que lutou contra e falou abertamente durante os anos de ditadura, sendo um exemplo de luta e resistência para travestis de todo o país. 

Jane Di Castro – arquivo pessoal 

Em 2011 o Brasil conheceu Ariadna Arantes, participante do Big Brother Brasil daquele ano. Mesmo já tendo atravessado a ditadura e vivenciado os anos 80 e 90, quando a diversidade ganhou a mídia com grandes nomes da comunidade LGBTQIA +, o público do reality não reagiu bem à presença da jovem no programa, lotando a internet com comentários transfóbicos e torcidas exageradas pela sua saída do BBB. A mídia também a depreciou e Ariadna foi vítima de uma capa do jornal Meia Hora com conteúdo transfóbico e crimes disfarçados de piada, na qual ela foi questionada por não ter deixado explícito aos outros jogadores que era uma mulher trans. 

Além disso, a ex-BBB foi alvo de piada e comentários abertamente transfóbicos por Boninho, diretor que comanda o reality show:

Ao ser a primeira eliminada da edição do BBB 11, Ariadna relata em suas redes sociais a perseguição que sofreu após sair da casa, além da falta de trabalhos que a deixaram abalada financeira e psicologicamente. Para a jovem era claro: a família brasileira que assistia ao programa não estava disposta a lidar e respeitar a existência de travestis e transexuais.  

Na 21ª edição do maior reality show do Brasil, há pela primeira vez na história uma participante travesti. Linn da Quebrada é uma multi artista brasileira que ficou conhecida em 2017 pela música Enviadescer. Suas composições musicais e o documentário “Bixa Travesty” falam de sua vivência política como travesti, sem deixar de lado seu gosto pessoal, orientação sexual, sonhos, lutas e poesia. Segundo o Google Trends, a pesquisa ‘O que é travesti?’ teve um pico no dia 21 de janeiro de 2022, um dia depois de o programa transmitir a apresentação da participante para os demais confinados, na qual ela diz: “Não sou homem, não sou mulher, sou travesti”, mostrando como a mídia influenciou o comportamento de pesquisa do público a respeito da comunidade trans. 

Transfobia na mídia e seus reflexos na sociedade

Em 2008 o jogador Ronaldo Nazário, conhecido como Ronaldo Fenômeno, foi acusado de não ter pago o valor combinado por um programa com 3 travestis no Rio de Janeiro. O caso logo tomou conta da mídia. Já jornais, revistas e a internet falaram sobre como as mulheres envolvidas no caso buscavam extorquir Ronaldo para que o assunto fosse encerrado. Veículos midiáticos, como a Folha de S.Paulo, se referiram às travestis com pronomes errados e termos violentos, iniciando assim o arco de “homem enganado”, o qual Ronaldo recorreu durante anos para justificar seu interesse por elas naquela noite. No mesmo ano, o jogador foi entrevistado para o Fantástico, e ao tentar justificar o ocorrido, declarou: “eu sou um ser humano”, além de usar termos como “vergonha”, “decepção” e “medo”. 

Em outubro de 2021, um caso revoltante em Aracaju, Sergipe, repercutiu em todo o país. A travesti Alana faleceu em decorrência de problemas nos pulmões, e em seu sepultamento ela foi vestida com roupas masculinas pela própria família, causando indignação na comunidade LGBTQIA+. Alana havia sido trajada de terno e teve barba e bigode desenhados em seu rosto. Mesmo causando indignação na internet e sendo pauta de discussões dentro da comunidade, poucas foram as emissoras de televisão e os jornais a falarem do ocorrido. A informação do caso foi divulgada pela vereadora trans Linda Brasil, do PSOL, em seu Twitter.

“Alana foi desrespeitada pela família, que colocou até um bigode nela e a enterrou de terno, indo contra a sua identidade de gênero. A família não aceitava a orientação sexual dela. Eu achei uma violência. Só quem é trans sabe o que já passou até conseguir assumir a identidade. Nem na grande despedida, que é a morte, ela foi respeitada. Lana morreu de tristeza”, afirmou Jéssica Taylor, dirigente da Transunides, instituição que promove ações sociais junto a pessoas trans de Aracaju.

A mídia ao longo dos anos reforçou a imagem de que travestis e transexuais são pessoas violentas, não confiáveis e, como subtendido pelo jogador Ronaldo, não humanas, dignas de vergonha e desrespeito. Esse discurso é a base de violências diárias que a comunidade LGBTQIA+ sofre no Brasil, resultando no país que mais mata transexuais no mundo

Bixa travesty e a mídia produzida por e para travestis

O cinema LGBTQIA+ surgiu como forma de aumentar o protagonismo das personalidades da comunidade e produzir uma espécie de conteúdo que, de forma inovadora, não se definisse pelos olhos de pessoas não LGBTQIA+.

O documentário Bixa Travesty é protagonizado e co-roteirizado por Linn da Quebrada e conta com a presença de Jup do Bairro, Liniker, Raquel Virginia e Assucena Assucena,  artistas trans. O longa retrata a vivência diversa dessas mulheres que reivindicam seus corpos como atos políticos, passando desde assuntos delicados a assuntos rotineiros e falando de sexualidade, arte, desejo, consumo, poesia, carreira, entre outros assuntos.  

O documentário passou por diversos países antes de estrear no Brasil e conquistou em Berlim o Teddy Awards de 2018 na categoria Melhor Documentário Estrangeiro. Linn da quebrada coleciona prêmios em diversos festivais de cinema ao redor do mundo, inclusive em Brasília, onde “Bixa Travesty” foi eleito melhor longa pelo júri popular no Festival de Brasília de 2018.

Mesmo com todo o sucesso internacional, no Brasil Bixa Travesty entrou em cartaz em poucas salas de cinema, em sua maioria nos cinemas Itaú e Cinépolis. Segundo o diretor Kiko Goifman, o filme não é comercialmente viável  e essa escolha parece consciente, já que o elenco e a produção tem a liberdade de escolher falar sobre o que quiser e como quiser, utilizando assim a mídia a seu favor e se comunicando com um público específico. 

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