Rezar para jogar

Como o futebol se comunica com a religião dentro dos gramados brasileiros

Por Larissa Dias

Em momentos de desespero, se recorre ao desconhecido. No futebol não seria diferente, visto que prende o público pela emoção e esperança na busca de algo incerto, mas proporciona a glória. Por isso, a religião se encaixa dentro do esporte de maneira certeira. Entretanto, essa relação é mais complexa do que parece. Dados indicam que cerca de 60% da população brasileira é adepta ao futebol — segundo levantamento feito pela Nielsen Sports em 2018 — e mais da metade é cristã , de acordo com pesquisa feita pelo Datafolha em 2020. Mas como essas duas frentes se relacionam? O que se observa em campo é o que também acontece em centros religiosos: a fé.   

O desrespeito é presente

A expressão espiritual do jogador, muitas vezes demonstrada nos jogos ao apontar o dedo para cima ou ajoelhar-se com os companheiros, mostra apenas um lado, e não é recebida da mesma forma pelo público com outras formas de credo coletivo. Exemplo recente de intolerância religiosa foi Paulinho, jogador do Bayer Leverkusen e da seleção brasileira que durante as Olimpíadas de Tóquio, sofreu ofensas ao comemorar seu gol contra a Alemanha. No caso, o atacante candomblecista se refere a ofá, arma sagrada do orixá Oxóssi, seu protetor. E seu ato simples, que tantos outros jogadores praticam, causou grande repercussão. Por consequência, teve suas redes sociais dominadas pelo preconceito e incompreensão. A conclusão desse caso e de diversos outros é a mesma: a prevalência da ignorância.

Religiões de matrizes africanas são alvo comum daqueles que não aprenderam a lição básica de convivência: o respeito. Existe uma cultura de repulsa em relação ao que não é aceito e foge do padrão. País laico no papel e intolerante na prática é o retrato de um povo limitado de oportunidades e cheio de desigualdades. A liberdade religiosa, portanto, não deveria ser enxergada como algo que causasse prejuízo àqueles que não simpatizam com a mesma. Porém, tudo aquilo que escapa do limite da aceitação tem lugar garantido no preconceito da maioria.

As justificativas para os ataques descabidos a atletas como Paulinho não representam o futebol. Local de pluralidade, onde todos participam – da criança ao idoso – o preconceito não cabe. Um ambiente em que a força está no grupo e na esperança, deveria estar também no bem-querer do próximo.

E na terra dos inventores do futebol?

Por outro lado, em países europeus, lugar em que o futebol tem forte apelo popular — inclusive, com grandes investimentos por parte dos clubes em estrutura e na modalidade feminina — os hábitos são diferentes. A celebração do triunfo é enfática, mas poucos jogadores manifestam sua fé dentro do campo, a não ser se forem brasileiros. Na Europa, a religião é praticada de maneira mais privada e isso vai de acordo com a cultura do continente. 

Esse cenário, porém, começa a sofrer alterações com fenômenos de imigração e o choque de comportamentos que divergem. Atletas como Mohamed Salah, jogador da seleção do Egito e do  Liverpool da Inglaterra, e Sadio Mané, senegalês e também do Liverpool, ambos muçulmanos, passaram por momentos difíceis ao expressarem seu credo. Na final da Champions League, em junho de 2019, — o Ramadã, período marcado por intensas orações e jejuns é realizado nesse mês — o calendário religioso convergiu com o compromisso profissional, visto que deveriam jejuar, o que poderia prejudicá-los em campo. Jurgen Klopp, treinador do time, disse, na época: A religião é privada, como eu a entendo. Nada a dizer sobre isso, mas tudo bem, você vai vê-lo lá fora. No treinamento, ele está cheio de poder — você precisa estar no dia antes de uma final”.

O Brasil e suas particularidades

De volta ao Brasil, existem fatores que merecem atenção. Por mais que se demonstre a fé de maneira profunda, no sentido de existir “uma figura maior a olhar por mim”, também é raso, ou seja, não é doutrinador. Grande parte das famílias brasileiras sofrem com a lacuna deixada por algum membro e as crianças crescem sem alguma figura importante. Assim, encontram na fé e em sua espiritualidade algo em que possam confiar os seus mais profundos segredos e ambições. 

É dessa maneira, portanto, que o esporte e a religião se completam. Um atleta que atua em alto nível possui algo que acredita e leva para o resto de sua jornada. Entretanto, outro tão focado quanto, constrói sua vida com base em outros fundamentos e não se torna menos importante. O ponto em que esses dois convergem é no respeito.

O aprendizado que fica

Dessa maneira, analisar um esporte de dimensões mundiais que atua de maneira intrínseca com a miscigenação de credo é fundamental para entender o que se passa dentro da sociedade. A crescente intolerância prejudica não apenas o meio futebolístico, mas também como as pessoas se comportam diante das diferenças. Dentro das quatro linhas, esperam-se boas atuações dos jogadores, e fora, o show da torcida. 

Apelar para a violência é o caminho mais utilizado pelo fanatismo, seja ele religioso ou não, e mostra comportamentos frágeis, mas que ganham força por puro desconhecimento. Manifestar irritação com o desempenho do time em campo é natural, o que não significa que a agressão seja justificada com hostilidade. Um esporte de interesse midiático e econômico não se permitirá reconhecer-se pela maldade.

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