Luísa Sonza e a cultura pornificada 

O que a sexualização de mulheres na cultura pop tem a ver com a pornografia e a manutenção do patriarcado 

Gabriela Boechat

“Viver numa cultura na qual as mulheres estão rotineiramente nuas, enquanto os homens não o estão, equivale a aprender a desigualdade aos pouquinhos, o dia inteiro” – Naomi Wolf, O Mito da Beleza, pág. 205

No 5 de fevereiro deste ano, a cantora pop Luísa Sonza realizou a primeira apresentação ao vivo da música “Café da Manhã”, no parque Hopi Hari, em São Paulo.  A performance, na qual Luísa se apresenta usando somente biquíni e faz movimentos sexuais numa cama, polarizou opiniões na internet. Parte da audiência argumenta que a apresentação escancara como a hipersexualização de mulheres é um projeto político patriarcal. A outra parte, contudo, afirma que tais críticas são machistas e que a cantora está exercendo sua liberdade sexual.  

É de extrema importância reparar que ambos os pontos de vista partem de critérios ideológicos que se consideram feministas. No entanto, a defesa da segunda perspectiva se mostra muito problemática para muitos pois, além de colocar o feminismo como valor individual de cada mulher — enquanto é, na verdade, um movimento político coletivo —, ainda o utiliza como autorização ética para a objetificação extrema de mulheres e para a cultura pornificada.  

Cultura pornificada 

A cultura pornificada é um conceito desenvolvido pela professora Gail Dines em seu livro Pornland, publicado em 2010, mas ainda sem edição brasileira. Ele define que, enquanto a pornografia foi se tornando mais extrema e violenta, a cultura pop passou a acomodar as imagens mais “leves”, usando a hipersexualização de mulheres para atrair patrocinadores. Isso se torna evidente quando comparamos grande parte da cultura pop atual à pornografia de algumas décadas atrás.  

Foto 1: Luísa Sonza em show “Chá da Alice”, 22 de janeiro/ foto retirada de vídeo publicado no Instagram da cantora 

Foto 2: Helen Ganzarolli para a capa da revista Playboy, setembro 2000 

Gail Dines diz que “o que vemos hoje é o resultado de anos de estratégias cuidadosas de marketing da indústria pornográfica para ‘higienizar’ seus produtos, removendo a ‘sujeira’ e reformulando o pornô como divertido, ousado, sexy e atraente”. Isso ocorre porque a indústria pornográfica é capitalista como qualquer outra e visa sempre o lucro. 

Com o aumento das imagens pornificadas na cultura pop, a pornografia passa a ser vendida como liberdade e arte, quando é, na realidade, muito prejudicial, como bem apontado por @psiamandapalmar. No seu texto “Visível ou invisível: crescer fêmea numa cultura pornificada”, Gail Dines argumenta que hoje as mulheres não mais precisam assistir pornografia para serem afetadas por ela, pois, a partir da cultura, internalizam “a ideologia pornográfica, que muitas vezes se disfarça de conselho sobre como ser gostosa, rebelde e legal para atrair um homem”. 

Dines também diz que as mulheres de hoje são cativas de imagens que contam mentiras sobre elas. A maior mentira é que agir em conformidade com essa imagem hipersexualizada dará às mulheres poder real no mundo, já que numa cultura pornográfica, o poder delas está, não na capacidade de moldar as instituições que determinam suas vidas, mas em ter um corpo “gostoso” que os homens desejam e as mulheres invejam.  

A professora defende que, diferentemente de algumas décadas atrás, a hipersexualização das artistas pop hoje se sobrepuseram e excluíram quaisquer imagens alternativas do que é ser mulher. “A onda atual de imagens pornográficas soft-core normalizou o visual da pornografia na cultura cotidiana a tal ponto que qualquer coisa menos parece desleixada, primitiva e completamente chata.” 

Liberdade? 

Luísa Sonza é o exemplo perfeito disso. Por mais de uma vez, a cantora teve vídeo clipes censurados e excluídos do Youtube e decidiu postá-los em site pornográfico. Esse fato simboliza o nível em que a nossa cultura foi pornificada. 

É de grande importância esclarecer que Luísa não está exercendo sua liberdade sexual, mas é parte de um sistema que a obriga a se hipersexualizar. Luísa é objetificada pelo simples fato de isso gerar lucro. Não é uma escolha individual de expressão da sua sexualidade, é condicionamento. “Por trás dela cantando, praticamente nua e simulando sexo em palco, há vários profissionais vestidos e preservados e gravadora que ganham em cima disso”, diz @aquelamaya em post para o Instagram.  

Outra evidência disso é reparar quais são os corpos que estão sendo sexualizados na cultura pop. Não são o de mulheres gordas, por exemplo. São corpos que atendem ao padrão de consumo, ou seja, o nu só é valido como mercadoria e voltado ao olhar masculino. 

Como agir exatamente de acordo com o que é designado às mulheres pelo patriarcado e capitalismo pode ser libertário ou revolucionário? A escritora Yasmin Morais afirma em post para o Instagram @vulvanegra: “Os mecanismos de controle sobre a classe feminina são deveras refinados e passam, sobretudo, pelo quesito econômico. Desse modo, as mulheres que desejam ascender socialmente carecem de se submeter àquilo que foi pré-estabelecido para nós. A sexualização não se trata exclusivamente de sexo, mas sim, de poder e controle.” 

Foto: diferença de vestimenta, Luísa Sonza e o cantor pop Jão no vídeo clipe “Fugitivos :)” 

A sexualização feminina é a manutenção das hierarquias sexuais 

As questões apontadas a respeito da cultura pornificada e da distorção da ideia de liberdade sexual possui raiz na forma como as hierarquias sexuais foram construídas. Essa tese é explorada no livro de Deel L. R. Graham, “Amar para Sobreviver”, publicado em 2021 pela editora Cassandra. No terceiro capítulo da obra, a autora retrata como aspecto notável o fato de grande parte da violência masculina contra as mulheres ser direcionada aos órgãos sexuais — assédio, importunação, estupro —, se diferenciando, portanto, das violências contra outras minorias. 

Segundo Graham, isso acontece porque o patriarcado utiliza das diferenças anatômicas para definir quem pertence ao grupo oprimido ou opressor, e assegura que os órgãos sexuais femininos sejam vistos como subordinados e os masculinos como dominantes. Assim, os homens, ao sexualizar compulsivamente suas relações com mulheres e vê-las como objetos, lembram a si mesmos e a outros homens de que as mulheres são inferiores. 

Por essa razão, exige-se que as pessoas anunciem seu sexo o tempo todo — por meio de vestimentas, linguagem, etc. A sexualização das pessoas são práticas centrais ao patriarcado porque mantém destacado o pertencimento aos grupos e, portanto, as relações de poder. 

Logo, entende-se que a hipersexualização de mulheres na cultura pop, como a de Luísa Sonza, é mais uma prática patriarcal. É uma maneira de manter equilibrada as hierarquias sexuais, pois, mesmo que hoje mulheres como Luísa possam alcançar espaços de poder a partir de seu talento e trabalho, elas devem ser constantemente lembradas a qual grupo pertencem, o grupo subordinado.  

Na sua obra “O mito da Beleza”, publicada em 2018 pela editora Rosa dos Tempos,  Naomi Wolf diz: “Imagens que transformam as mulheres em objetos ou que dão valor erótico à degradação das mulheres surgiram para contrabalancear a recém-adquirida confiança delas. Essas imagens são bem-vindas e necessárias porque os sexos se aproximaram demais para o gosto dos poderosos. Sua atuação tem como objetivo manter a separação entre homens e mulheres, sempre que as restrições religiosas, legais e econômicas se tornaram muito fracas para continuar sua função de sustentação à guerra dos sexos”. 

Às mulheres, lembrem-se sempre: quanto mais avançamos em nossos direitos e conquistamos espaços de poder, mais complexas serão as estratégias do patriarcado para manter as hierarquias sexuais. 

2 comentários sobre “Luísa Sonza e a cultura pornificada 

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