CARNAVAL 2022: SÓ PRA QUEM PODE

A restrição do Carnaval de rua em contraste com a tolerância de festas privadas

Por Nikolas Furquim

O enfraquecimento da pandemia no final de 2021, proporcionado pelo aumento nos índices de vacinação, tornou crível a tese de que 2022 seria um ano de retomada das atividades sociais. No entanto, conforme os meses passaram, a promessa pareceu se dissipar. Com o surgimento de novas variantes e mais um pico no número de casos e mortes, os primeiros eventos do ano foram atingidos por restrições e cancelamentos. Entre eles, a maior festa popular brasileira, o Carnaval, que além de representar um momento de catarse para os foliões, injeta bilhões na economia e auxilia no sustento de incontáveis famílias.

Assim, em decisão acertada e de acordo com os protocolos de biossegurança necessários para o momento, a grande maioria dos municípios brasileiros proibiu os blocos de rua, enquanto os tradicionais desfiles de escolas de samba foram adiados para abril. Por outro lado, tanto no eixo Rio-São Paulo, quanto em várias outras capitais, a exemplo de Belo Horizonte, Salvador, Vitória, Aracaju, Natal, Curitiba, Belém e Florianópolis, os eventos privados seguem permitidos, com diferentes normas de regulamentação e restrição.

Surge então uma situação com dois pesos e duas medidas, afinal só poderão aproveitar o carnaval aqueles que conseguirem custear os ingressos de eventos particulares, enquanto a comemoração em espaço público seguirá proibida. Dessa forma, o que antes era uma medida de segurança em prol da saúde pública se torna também uma restrição elitista, na qual a permissão para aglomerar, curtir, beber e beijar é dada conforme o pagamento de uma entrada de festa.

Repercussão e realidade do problema

A situação provocou questionamentos de profissionais da saúde e revolta nas redes sociais. Porém, na semana de véspera do Carnaval, nenhuma ação concreta ou relevante parece ter sido tomada em qualquer estado. Podemos citar como exemplo a realização do “Ensaios da Anitta”, uma festa de pré-carnaval que aconteceu no sábado (12/2) em São Paulo, no Memorial da América Latina, e no domingo (13/2) no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Os blocos contaram com a participação de outros artistas e receberam muitas celebridades, como o ex-BBB Gil do Vigor, a atriz Bruna Marquezine e a apresentadora e comentarista política Gabriela Prioli.

Durante o período oficial de Carnaval também não faltam exemplos de festas privadas amplamente divulgadas, como a do bloco Carnarildy, no Rio de Janeiro, entre os dias 25/02 e 28/02, com a presença de dezenas de grandes artistas e ingressos que alcançam R$710 para um único dia de festa com Open Bar.

Já as famosas casas de shows da rede Cafe de La Musique também anunciaram programações nas redes sociais para o feriado de Carnaval, em cidades como Guarapari, Ubatuba, Guarujá, Araúna e Florianópolis. Esses eventos são apenas uma pequena amostra. Em suma, se um indivíduo possui o dinheiro necessário, muito provavelmente vai existir uma festa privada da qual ele possa participar.

É comum que surja o argumento de que tais comemorações seguirão protocolos de segurança para reduzir os riscos de transmissão do coronavírus, como a exigência do passaporte vacinal, a limitação de público e a obrigatoriedade do uso de máscaras. No entanto, é evidente que essas restrições são insuficientes e estão constantemente sujeitas a falhas, pois a imunização não anula a transmissão do vírus e a fiscalização do distanciamento e das máscaras é praticamente inviável em eventos de grande porte.

O Carnaval privado envolve dinheiro e, portanto, poder. Desenvolveu-se, então, uma política conciliadora, na qual os governantes buscam não prejudicar os interesses de grandes grupos e entes privados, limitando-se majoritariamente a aplicação de restrições brandas, que não impedem a realização das festas. Enquanto isso, indivíduos de baixa renda que enfrentam aglomerações diariamente, seja no transporte público ou no trabalho, não terão o direito de festejar. Nenhum evento realizado durante a pandemia, especialmente agora, será de todo seguro, mas segregar o público da maior festa brasileira com base em sua renda é gravíssimo.

Um outro lado das críticas

Paradoxalmente, entre os grupos políticos que mais criticaram a realização do Carnaval de 2022 estão os de Direita. Contudo, a manifestação se originou do já conhecido ódio conservador ao Carnaval, que por meio de preceitos morais cristãos condena a realização da festa. Acusações sobre o suposto caráter obsceno da celebração apenas representam o desprezo por comportamentos que não seguem suas doutrinas religiosas.

Como esperado, os comentários jamais discutiam os prejuízos à saúde pública que a aglomeração promovida pela folia pode trazer. Inclusive, seria incoerente um grupo que por vezes contrariou as medidas de biossegurança de súbito adotar uma postura consciente diante da pandemia. Os questionamentos também se fortaleceram pelos grupos liberais, que costumam contestar a validade dos investimentos públicos feitos no Carnaval.

Em 25 de novembro do ano passado, em entrevista à Rádio Sociedade da Bahia, Jair Bolsonaro afirmou: “Por mim não teria Carnaval”. Em contrapartida, o Presidente se utiliza do feriado para viajar, e está atualmente no Guarujá, entre passeios de moto aquática e aglomerações com apoiadores. No ano passado, as férias de Carnaval de Bolsonaro em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina, custaram próximo de R$1,8 milhão aos cofres públicos.

A política prevalece

A preocupação de parte das autoridades e políticos com a realização do Carnaval constantemente perpassa um campo que nada tem a ver com a segurança da população ou com a preservação da saúde pública, mas sim com a manutenção de privilégios econômicos, políticos e sociais. Em 2022, a folia, que sequer deveria acontecer, pertencerá apenas àqueles que podem pagar bastante por ela, enquanto o resto da população deve ficar em casa, exceto, é claro, se for sair para trabalhar.

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