A cobertura mais rápida (e menos responsável) da Guerra

O conflito Rússia X Ucrânia chegou ao Brasil, também, por meio de influenciadores e páginas de fofoca

Por Ana Luiza Brandão

A iminência de uma guerra

Na manhã de quinta-feira (24/02), o mundo acordou com a notícia de que mais uma guerra se iniciava. A tensão dos últimos dias entre a Rússia e a Ucrânia atingiu seu ápice quando, pela televisão, o presidente Vladimir Putin anunciou uma “operação militar especial” no território vizinho, ao mesmo tempo em que mísseis sobrevoavam o país e tanques do exército ultrapassaram suas fronteiras.

 A iminência de um conflito bélico de grandes proporções aterrorizou não só aqueles que fazem fronteira com a região, como também aqueles mais distantes, que costumam demonstrar pouco ou nenhum interesse nas tragédias ocorridas do outro lado do planeta.

A cobertura mais rápida (e menos responsável)

No Brasil, a polêmica se deu não apenas por conta dos conflitos armados, mas também pela forma como foram noticiados fora do âmbito dos chamados meios tradicionais de comunicação e notícias. O portal de celebridades Choquei foi um dos assuntos mais comentados no Twitter, após deixar de lado as novidades do Big Brother Brasil para “fazer” a cobertura da guerra. Diversos internautas se mostraram insatisfeitos com a postura da página, cuja maioria dos posts não citava a fonte e foram, mais tarde, desmentidos por jornais.

Foi o caso do tweet “URGENTE: Dezenas de milhares de corpos mortos estão nas ruas da capital ucraniana. Muitos civis não estão conseguindo escapar”, que alcançou mais de 37 mil curtidas. Mesmo com nenhuma confirmação por fonte oficial ou jornal internacional, a página levou diversos brasileiros a acreditarem que um conflito de poucas horas havia levado a centenas de milhares de óbitos. A publicação foi, posteriormente, deletada.

Nos comentários da página, alguns se mostraram surpresos com a página de fofocas ter sido quem deu o “furo de notícia” sobre o conflito, ultrapassando grandes veículos de imprensa na corrida pela notícia rápida. Em defesa do jornalismo profissional, vários comentários alegavam que isso só ocorreu porque o Choquei não teve o compromisso de apurar os fatos antes de postá-los, como costuma fazer a imprensa responsável.

Foto: Twitter/Screenshot

O ocorrido resulta não somente da desinformação daqueles que leram e acreditaram nas publicações, como também do pânico que uma notícia desse tipo pode gerar. Diversas manchetes chamaram a atenção para uma possível Terceira Guerra Mundial, e os impactos dessa linguagem — que serve mais para chamar atenção do que para informar — são incalculáveis em larga escala.

Em paralelo às polêmicas sobre fake news, outra situação, ocorrida também no twitter, evidenciou a necessidade de cada vez mais urgentemente se buscar informações em  veículos especializados: o fio de posts feito pela influenciadora e ex-BBB Rafa Kalimann. Com a intenção de situar seu público sobre os recentes acontecimentos, Kalimann fez seu próprio “resumo” da guerra, narrando de maneira superficial os antecedentes do conflito e suas causas. Embora não tenha cometido erros graves na narrativa, a blogueira foi bastante criticada por ter abordado o assunto sem ter qualquer tipo de credenciamento ou especialidade em Geopolítica ou Relações Internacionais. Muitos internautas chegaram a comparar sua atitude com a do comentarista esportivo Casimiro, que foi bastante elogiado por convidar um mestre em Relações Internacionais para uma live, na qual explicaram a crise no leste europeu para o público leigo.

Rafa também chegou a repostar uma notícia do G1 explicando melhor o conflito, e, sobre a repercussão negativa na internet, apenas comentou: “Já posto esperando.”

Jornalismo responsável

Embora sejam situações distintas e com interesses diversos por trás, os dois acontecimentos evidenciam a necessidade de um jornalismo credenciado e comprometido com a informação de qualidade. Mesmo que, na maioria dos casos, as fake news tenham intuitos desonestos, como propagação de ódio e manipulação do público, às vezes elas são compartilhadas por pessoas com boas intenções, mas atitudes ingênuas. Mesmo com a pressão para publicar as notícias mais rápido que seu concorrente, a imprensa precisa resguardar seu maior valor: o compromisso com os fatos. Resta aos jornalistas profissionais a missão de “arrumar a bagunça” feita por essas pessoas que decidem publicar o que vem à cabeça.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s