Nem filha, nem mãe

Porque homens devem parar de distorcer a imagem de suas parceiras amorosas

Por Vitória Carmo

No dia 14 de fevereiro, comemora-se o Dia Internacional do Amor, conhecido como Valentine’s Day, e muitas declarações foram espalhadas pelas redes sociais. Uma delas ganhou atenção excepcional: o pré-candidato à presidência Ciro Gomes (PDT), de 64 anos, decidiu homenagear a esposa, Giselle Bezerra, ao citar um trecho da música “Minha mulher”:

“Quem vê assim pensa que você é muito minha filha/Mas na verdade você é bem mais minha mãe”

Coincidentemente, naquele dia, Giselle completava 43 anos de idade. A música referenciada é de Caetano Veloso, cantor e compositor casado com Paula Lavigne, a qual conheceu e se relacionou sexualmente pela primeira vez quando tinha 40 anos, e ela, 13.

A postagem de Ciro Gomes gerou controvérsia pois, ao querer brincar com a diferença de idade entre ele e sua esposa— exatos 21 anos — resolveu citar a canção de Caetano Veloso, que construiu seu relacionamento com sua atual esposa, 32 anos mais nova, em cima de uma situação problemática por si só, para não admitir, pedófila. Assim, em uma declaração amorosa de uma frase, o ex-governador do Ceará conseguiu dar ênfase aos termos “filha” e “mãe”, que em nada remetem ao amor romântico, mas mostram uma face social sobre como mulheres são vistas dentro de relacionamentos.

Meninas devem ser mulheres e mulheres devem permanecer meninas

Ao pesquisar “Porque homens preferem mulheres mais novas” no Google, são muitos os estudos que argumentam sobre a questão evolutiva, em que homens buscam mulheres de idade fértil. Outra pesquisa, realizada em 2016 pela Universidade McMaster, no Canadá, mostrou que talvez o caminho se inverteu — processo evolutivo que, por limitar o potencial de reprodução de mulheres mais velhas nessa faixa etária, resultou na menopausa precoce e, se não fosse esse fenômeno, mulheres poderiam ter seu potencial reprodutivo por quase toda a vida, assim como homens.

Estariam mesmo os homens a todo tempo dispostos a procriar? A discussão pode ser mais complicada. Em 2018, o jornal Science Advances publicou um estudo que trouxe uma revelação talvez não muito surpreendente, mas que reafirma como o machismo é estrutural nas relações românticas: Mulheres mais jovens e com menor escolaridade são as mais visadas por homens em aplicativos de relacionamento. Mulheres desse perfil possuem algo em comum – estão mais sujeitas a vulnerabilidade.

Parece que, quanto maior a relação de poder do homem com a sua parceira, maior a satisfação para eles. A pesquisa ainda mostra que homens preferem graduadas do que pós-graduadas. Possivelmente, porque mulheres bem instruídas têm mais chances de serem independentes financeiramente, além de oferecerem uma bagagem intelectual da qual muitos potenciais parceiros estão dispostos a fugir, por não poderem se sentir superiores nesse aspecto. Por outro lado, mulheres maduras são mais experientes emocionalmente, e sabem se proteger melhor. Sim, é sobre dominação, mas ainda há mais para se indignar: a obsessão por corpos juvenis.

Lolita e a normalização da pedofilia

O romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov, que ganhou notoriedade através das lentes cinematográficas do diretor Stanley Kubrick, é o melhor exemplo para essa discussão. Lolita é uma adolescente – tem 12 anos no livro e, 14 no filme) – que se envolve sexualmente com um homem de mais de 40 anos que, posteriormente, torna-se seu padrasto.

Lolita é retratada como uma jovem sagaz e provocadora, e o enredo, de forma bizarra, romantiza o relacionamento. A história nada romântica é “mãe” da narrativa pedófila dos falsos consentimentos presentes em relações de homens com crianças e adolescentes fetichizadas na TV, cinema e, principalmente, na pornografia, que, infelizmente, também existe em muitos lares reais.

Foi também Nabokov que popularizou o termo “ninfeta”. A palavra tem origem em “ninfa”, que na mitologia grega significava divindades menores que habitavam o Monte Olimpo. Na biologia, o termo remete a insetos que ainda não se desenvolveram completamente.

O autor decidiu se referir diversas vezes a Lolita como ninfeta, e em suas próprias palavras, explicou que o termo foi usado para descrever “meninas entre 9 e 14 anos capazes de causar atração sexual”. Isto é, há um termo popular que responsabiliza meninas por serem alvos sexuais de outros, e que circula em sites pornôs como título para vídeos que exploram relações sexuais de homens com mulheres de corpos e comportamentos infantis.

Contudo, para além da procura por corpos juvenis, homens ainda querem mulheres que refletem a imagem de suas mães, e que irão tratá-los como filhos, como ilustrado por Caetano Veloso e Ciro Gomes. Apesar do desejo de dominância e controle, seja emocional, intelectual ou econômico, eles querem ser vistos, de alguma forma, como eternos garotos.

E não é apenas sobre o Complexo de Édipo, que sugere que homens procuram parceiras parecidas com suas mães, mas sim sobre o desejo de uma imagem materna, de uma figura feminina que cuida, mima, passa a mão na cabeça, e dá a eles, como meninos, o direito ao infinito perdão.

Há uma incrível bagagem do machismo estrutural nas situações cotidianas que determinam como meninas e mulheres devem se comportar na vida e nos seus relacionamentos amorosos. E para enfatizar, essa dinâmica é sobre relacionamentos heterossexuais, não entre homens e mulheres, mas de homens para mulheres, e de como eles ditam de que forma elas devem se portar.

Um exemplo é o caso do presidente Jair Bolsonaro, 27 anos mais velho que sua atual esposa, Michele Bolsonaro, que zombou da aparência física de Brigitte Macron, primeira-dama francesa, 24 anos mais velha que o, presidente da França, Emmanuel Macron. Isso pode ser interpretado como: “Mulher, não ouse envelhecer, não ouse ter um relacionamento com um homem mais novo. Esse direito não foi dado a você.”

Mulheres querem ser filhas de seus pais e — se quiserem — mães de seus próprios filhos

Não é a deslegitimação ou desconfiança de que haja amor para além da diferença de idade entre homens maduros e mulheres jovens, mas a reflexão necessária sobre a normalidade dessa relação específica, o preconceito quando é o inverso, e o olhar cuidadoso para situações que explicitam a diferença de poder social entre os gêneros. Pois, em um relacionamento, mulheres não deveriam precisar lutar para ter um corpo de menina e temperamento passivo. Elas devem ser valorizadas para além do físico, com o direito de envelhecer em paz. Assim, no grande acervo da música popular brasileira ao retrato do amor, a certeza que fica é a de que Ciro Gomes poderia ter buscado uma referência melhor.


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