Igualdade em campo

Organização e paciência: a definição do caso das atletas norte-americanas

Por Larissa Dias

Ao se falar de futebol feminino, é recorrente a palavra “igualdade” aparecer nos discursos. Entretanto, o que é verbalizado se esquiva do que acontece na prática. Em países em que o faturamento é priorizado, se colocar no mesmo pedestal de outro não é bom investimento. Com isso, entende-se um pouco do trajeto percorrido pelas atletas dos Estados Unidos durante suas carreiras. 

Na última terça de fevereiro, 22, foi anunciado que a federação americana de futebol — U.S. Soccer Federation — se comprometerá a pagar o mesmo às seleções masculina e feminina em todos os amistosos e torneios oficiais, inclusive na Copa do Mundo. No acordo,  US$22 milhões serão destinados para os atletas das modalidades, e um adicional de US$2 milhões para beneficiar jogadoras do USWNT em seu pós-carreira e ações de caridade para garotas da base.

Essa decisão, embora necessária, não foi rápida. A disputa começou há seis anos, em 2016, quando um grupo formado por Alex Morgan, Megan Rapinoe, Becky Sauerbrunn, Hope Solo e Carli Lloyd — as duas últimas já aposentadas — se organizaram e protestaram na Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego (EEOC), diante do tratamento diferente aplicado pela federação. 

A longa duração do processo promoveu um desgaste entre a corporação e as jogadoras. A relação piorou quando o ex-presidente Carlos Cordeiro escreveu uma carta que sustentava o argumento de que “homens são mais fortes e rápidos que mulheres” para justificar a diferença salarial. Com a declaração, Cordeiro logo foi substituído por Cindy Cone, ex-jogadora que ajudou os EUA a conquistarem a Copa do Mundo Feminina, em 1999.

Disparidade econômica

As “Estrelas” do time nacional e tetracampeão mundial em 2019, capa da revista Time. (Foto: Cait Oppermann)

Em 2019, ano importante para as “Estrelas” norte-americanas com a Copa do Mundo na França — na qual sagraram-se campeãs —, outra demonstração de iniquidade foi sentida pelas jogadoras. Tetracampeãs do torneio organizado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) e nomeadas atletas do ano pela revista Time, continuavam a ser pagas de maneira injusta. O sindicato que representava as 28 atletas, naquele mesmo ano, acionou a Justiça contra a US Soccer por discriminação de gênero.

Para estabelecer uma comparação, a FIFA destinou 400 milhões de dólares para as 32 seleções que disputaram a última Copa do Mundo masculina, em 2018. Para as companheiras de modalidade, com 24 seleções participantes em 2019, 30 milhões de dólares foram destinados. A Seleção Estadunidense, campeã do torneio, recebeu US$4 milhões.

O impacto da decisão

Em entrevista para o canal norte americano NBC Today, a precursora do movimento Equal Pay!, Megan Rapinoe, foi sucinta em suas palavras: “Para nós, isso (a decisão) foi uma grande vitória, ao garantir não só a correção dos erros do passado, mas que coloque a próxima geração pronta para algo que apenas sonhávamos”.

Com notoriedade, um ano antes da conquista na França, as jogadoras se tornaram um modelo a ser seguido também em outros esportes e países. No futebol canadense, no basquete e no hóquei, atletas começaram a lutar por melhores condições trabalhistas. Christen Press, meio-campista do recém-fundado Angel City, declarou em 2018: “Penso que agora existe um movimento de aproximação entre as mulheres, e está acontecendo no esporte e fora dele. E acho que pessoas ao redor do mundo começaram a perceber o quão importante é fazer essas conexões com pessoas na mesma jornada que a sua”.

Megan Rapinoe em sua comemoração, ao marcar o primeiro gol da partida contra a França, em 2019. (Foto: Elsa / Getty Images)

No Brasil, o início da mudança

Com o impacto das reivindicações feitas pelas americanas, a Confederação Brasileira de Futebol, CBF, comunicou, em 2020, igualar as diárias e premiações dos atletas das seleções feminina e masculina. O então presidente da confederação em 2020, Rogério Caboclo — afastado do cargo em 2021, após denúncia de assédio feita por funcionária da empresa — declarou na época que, desde março daquele ano, as jogadoras passariam a ganhar o mesmo que os jogadores durante as convocações.

O trio formado por Marta, Cristiane e Formiga — a última aposentada da seleção — foi longevo. Em relação a conquistas com o grupo, a equipe amarga resultados ruins, frutos de péssimas gestões e certo desdém da federação com a modalidade. No individual, porém, formam vozes importantes para gerações futuras. Marta, eleita seis vezes melhor do mundo. Cristiane, maior artilheira da história das Olimpíadas, entre homens e mulheres. Formiga, única atleta a participar de todas as edições de Jogos Olímpicos desde que a modalidade foi incluída na competição.

Os recordes não ficam restritos às quatro linhas. A camisa dez da amarelinha é Embaixadora Global da ONU Mulheres e luta pela igualdade de gênero. Na última Copa, ao fazer um gol contra a Austrália, Marta mostrou o símbolo de igualdade em sua chuteira, na intenção de promover a iniciativa Go Equal.

Marta, ao lado de seus seis prêmios de melhor jogadora de futebol do mundo. (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
Marta aponta para a chuteira ao abrir placar em pênalti contra Austrália, na Copa do Mundo da França (Foto: Jean-Paul Pelissier/Reuters)

Por uma geração melhor

Os detentores do poder, ao cometerem erros, muitas vezes não compreendem o quão benéfico é promover as mulheres. E como isso afeta o trabalho da próxima geração. A luta para o futebol feminino começa antes do jogo. Disparidades salariais e condições trabalhistas desreguladas, sem a voz e a ação das mulheres, seriam negligenciadas. Silenciar é um ato coercitivo e a mudança desse cenário foi possível devido a organização delas.

Carli Lloyd, em artigo produzido para o The New York Times em abril de 2016, explica porque luta por um tratamento igualitário. O equal pay for equal play (mesmo pagamento pelo mesmo jogo) revela a simplicidade do pedido e como é colocado de lado. Os movimentos que pedem pelo fim da iniquidade trabalhista, que não ficam restritos ao esporte, são fundamentais para que garotas jovens usufruam futuramente das conquistas das profissionais de hoje.

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