Gaslighting na mídia

De atritos no Big Brother Brasil a personagens da ficção, o termo gaslighting voltou a ocupar a mídia e abriu espaço para debates sobre esse tipo de violência

Texto por Fernanda Fonseca

O que o participante do BBB22 Arthur Aguiar e Christian, personagem da novela Um Lugar ao Sol, têm em comum? Ambos foram acusados, nas últimas semanas, de praticar gaslighting contra mulheres. 

Arthur, que integra o elenco da vigésima segunda edição do reality Big Brother Brasil, foi apontado por internautas, na noite de segunda-feira (21/03), como autor desse tipo de violência e de estar praticando-a contra outra integrante do reality, a médica Laís Caldas. A acusação veio após um jogo da discórdia, no qual Laís externou, durante a edição ao vivo, seu incômodo com algumas falas do colega de elenco, afirmando que ele sempre a menospreza e invalida seus posicionamentos dentro da casa: “Você (Arthur) vira e fala ‘você fica criando coisas que não existem’. (…) Você diz que não sei o que estou falando, que dou show, que sou rasa e me diminui”. 

Mesmo Laís tendo sido eliminada do programa na terça-feira seguinte, internautas repercutiram a argumentação de Arthur e seu modo de se posicionar nas discussões, alguns afirmando que a forma como o participante se comunica, principalmente com as mulheres da casa, segue o que seria a prática de gaslighting. Na noite em que aconteceu o jogo da discórdia marcado pelo embate entre Laís e Arthur, o termo gaslighting foi um dos mais comentados do Twitter, acumulando mais de 40 mil tweets sobre o assunto. 

Nas redes sociais, se estabeleceu, então, um debate sobre se as práticas de Arthur Aguiar dentro do programa realmente se encaixam como gaslighting ou seria apenas uma consequência do convívio dentro de um reality show. O termo que se refere a um tipo de abuso psicológico em que informações são manipuladas até que a vítima não consiga mais acreditar na sua percepção dos acontecimentos foi desenvolvido a partir de um filme com o nome semelhante: “Gaslight”, de 1944. Na trama, a personagem Paula Alquist, interpretada pela atriz Ingrid Bergman, é manipulada por seu marido a acreditar que está enlouquecendo. Gradativamente, o cônjuge da vítima distorce acontecimentos do cotidiano para que a esposa passe a questionar a sua própria sanidade mental, levando-a a duvidar de sua compreensão da realidade. Em um dos momentos mais emblemáticos do longa-metragem, Paula questiona o motivo pelo qual as luzes da casa estavam falhando constantemente e seu marido afirma que isso era mais um de seus episódios delirantes, escondendo sua autoria nas falhas de iluminação. A cena, que evidencia os mecanismos utilizados pelo personagem para invalidar as percepções da protagonista, deu origem ao nome do filme: Gaslight (“iluminação à gás”). 

Gaslighting na dramaturgia

Além de Arthur Aguiar, o personagem Christian dos Santos, escrito por Lícia Manzo para a novela Um Lugar ao Sol, também teve suas atitudes colocadas em evidência nas redes sociais. Na mesma semana do polêmico jogo da discórdia do Big Brother Brasil, a novela foi finalizada após seis meses de exibição na Rede Globo e o público discutiu algumas das ações do personagem ao longo da trama. Christian que, na novela, assumiu a identidade do irmão gêmeo para ter a oportunidade de melhorar sua qualidade de vida, também se casou com a namorada do irmão para conseguir se integrar à vida dele. Por mais que, inicialmente, Christian tenha sido pensado para ser o “mocinho” e Bárbara a vilã, as atitudes de manipulação do personagem com a esposa ao longo da novela fizeram o público questionar as boas intenções do protagonista. 

Para manter sua farsa, Christian repetidamente invalidava as desconfianças de Bárbara e a responsabilizava pelas falhas no casamento. Além de fingir ser uma pessoa que não era, o protagonista de Um Lugar ao Sol também a traiu repetidas vezes no decorrer da novela, inventando histórias para encobrir suas ações e culpando a saúde mental fragilizada da esposa pelo comportamento ciumento. Como resposta às suspeitas de Bárbara, Christian manipulava a narrativa e a vilanizava, fazendo com que ela questionasse constantemente sua percepção da realidade. Na reta final da novela, diante do risco de ter sua farsa descoberta novamente, Christian chegou a afirmar: “Eu sempre digo a verdade Bárbara, mas não adianta porque você não acredita”. 

Mesmo não sendo diretamente nomeada na novela, a prática de gaslighting foi, então, apontada por internautas como um comportamento recorrente do personagem, principalmente em relação à esposa, que teve sua sanidade questionada durante toda a duração do casamento. Nas redes sociais, o encerramento da trama fez o público repercutir as atitudes de Christian, com alguns apontando que o personagem da ficção e Arthur Aguiar se comunicavam de forma semelhante e tinham em comum o uso do gaslight para desacreditar mulheres:

A popularização do termo gaslighting 

Antes mesmo da polêmica envolvendo Arthur Aguiar e a repercussão do personagem de Christian, o Fantástico já havia, semanas antes, produzido uma reportagem especial explicando a prática do gaslighting e a origem do termo. No quadro “Isso tem nome”, a jornalista Ana Carolina Raimundi ouviu especialistas e mulheres para debater três práticas de violência de gênero que são comuns no cotidiano, traduzindo para a realidade brasileira expressões importadas de outros países e que por isso são mais difíceis de serem popularizadas e nomeadas. No segundo episódio da série de reportagens, a questão do gaslighting foi colocada em evidência: “Sabe quando você tem certeza absoluta de que alguma coisa está acontecendo, mas alguém tenta repetidamente te convencer de que é ‘loucura da sua cabeça’? Pois isso tem nome, em inglês gaslighting e, em português, seria algo como ‘abuso emocional’, um tipo de violência psicológica”. 

Após o embate entre Laís e Arthur e as críticas à postura do participante em relação às mulheres da casa, o perfil oficial do Fantástico e o site da Rede Globo reapresentaram a reportagem: 

Através de reality shows, novelas e jornalismo, foi possível evidenciar, no dia a dia, a prática de gaslighting e levar seu entendimento para uma parcela maior da população. Além disso, a popularização desse termo também reacende discussões sobre diversas outras práticas de violência de gênero que ainda são naturalizadas no cotidiano, facilitando a sua identificação e combate. 

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