Oscar 2022, entre tapas e polêmicas

Verbal ou física, as agressões no evento continuam gerando debates sobre limites do humor, defesa à família e o apagamento da mulher negra nas pautas

Por Pedro Sales e Ana Luiza Brandão

A 94° cerimônia do Oscar, que ocorreu em Los Angeles, no dia 27 de março, diferentemente das últimas edições, teve grande repercussão. Para a infelicidade da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, organização responsável pela premiação, quem roubou os holofotes não foram os filmes premiados, mas o tapa dado por Will Smith em Chris Rock. “No Ritmo do Coração”, filme vencedor da principal categoria, foi rapidamente esquecido nas manchetes, que repercutiram a agressão como assunto mais relevante da noite. 

Tudo começou quando o comediante Chris Rock fez uma piada de claro mau gosto sobre a aparência de Jada Smith, atriz e esposa de Will. A associação ocorreu com a personagem de Demi Moore em “Até o Limite da Honra”, sobretudo em razão do penteado de ambas mulheres, que são carecas. O que Rock não esperava era a reação de Will Smith em “proteção” à esposa, que resultou na agressão física e em xingamentos.

A surpresa e o choque causados pelo momento fizeram com que muitos duvidassem da veracidade do ocorrido, pensando que se tratava de uma brincadeira previamente combinada entre os artistas. O episódio repercutiu entre os presentes no evento e também nas redes sociais. Somente após os tweets de veículos especializados como The Hollywood Reporter e IndieWire, verificou-se que não se tratava de uma encenação, mas de violência real. 

O público, então, se dividiu entre defensores e acusadores da atitude. Na TV e nas redes sociais, debates acalorados sobre quem estava certo. A discussão acerca do tapa no Oscar tomou diferentes vertentes conforme o assunto foi se espalhando. Afinal, será que a violência é justificável? Existem limites para o humor? E Jada, a pessoa ofendida, teve o destaque que merecia e uma defesa adequada?

Polêmicas e discussões na mídia dos EUA

A mídia estadunidense manteve uma posição contrária ao ocorrido desde o princípio. A ação foi reprovada pela esmagadora maioria dos veículos e das personalidades de Hollywood, que logo se pronunciaram. O apresentador de TV Jimmy Kimmel, por exemplo, chamou o ato de “chocante” em seu late show, comparável apenas com o episódio em que o boxeador Mike Tyson mordeu a orelha de Evander Holyfield, durante uma luta no ano de 1996 em Las Vegas  . No rádio, o polêmico radialista Howard Stern afirmou em seu programa que toda ação foi uma loucura. “É louco quando você não consegue se conter”, comentou. Will Packer, produtor do Oscar, informou em entrevista ao jornalista T.J Holmes que o ator só não foi expulso do evento porque Chris Rock não quis. A polícia de Los Angeles esteve disposta a registrar ocorrência e tirar Smith da premiação, porém obteve recusa do humorista. Por fim, Packer elogiou a calma de Rock, que “manteve a cabeça, enquanto todos os outros a perdiam.”

As celebridades também tiveram opiniões polarizadas. Os atores Zoë Kravitz e Jim Carrey foram publicamente contra a atitude de Smith. Em entrevista à CBS, Carey disse: “Fiquei enojado com (Will sendo) aplaudido de pé. Você não tem direito de acertar alguém na cara porque ele disse palavras”. Já as personalidades que surgiram em defesa de Smith foram bem menos numerosas. A atriz Tiffany Haddish defendeu a ação em entrevista à The Hollywood Reporter: “Quando eu vi um homem negro se levantar por sua esposa, aquilo significou muito para mim… é o que um marido deve fazer, certo? Proteger você.” Denzel Washington, ator duas vezes vencedor do Oscar, conversou com Smith ainda na cerimônia, após o tapa: “Quem somos nós para julgar? Eu não sei todos os pormenores da situação.

Twitter e a justificativa da violência

Enquanto nos EUA a discussão pesou mais para o lado que se opõe à violência, no Brasil um levantamento mostra que 74% dos brasileiros defendem a atitude de Will. Segundo o jornal Metrópoles, a ação seria em defesa da “sua família e honra.” Muitos internautas levantaram situações de bullying e violência que sofreram e só foram interrompidas com o uso da força. Pessoas que possuem a mesma patologia de Jada também mostraram que se sentiram empoderadas com a atitude e tomaram coragem para assumir o cabelo raspado sem se deixarem afetar com o comentário alheio. 

Para muitos, a forma como Will defendeu sua esposa foi um ato de enfrentamento à opressão e a forma como ele foi visto pela mídia é um traço de comportamento racista, que coloca o preto como agressivo e não racional. Na internet, influenciadores negros ressaltaram esse preconceito racial na cobertura do caso: O usuário Leandro Santos afirmou que “colocar a marca de preto raivoso” no ator também é racismo. Levi Kaique, outro influencer do Twitter, pontuou que Will deveria ter resolvido a situação de outra forma. Para ele, o próprio Chris podia ter evitado, se não fizesse piada com a doença de Jada. 

Ainda no Twitter, comediantes como Maurício Meirelles, Rafinha Bastos e Danilo Gentili se opuseram ao uso da violência contra a “piada”, o que já era esperado, visto que compartilham  da profissão de Chris Rock. Muitos outros usuários acharam o acontecimento cômico e reagiram com bastante bom humor. Houve uma enxurrada de memes sobre a situação:

Referência a Um Maluco no Pedaço, série cujo protagonista era Will Smith, e Todo Mundo Odeia o Chris, série autobiográfica de Chris Rock. 

Apesar disso, ainda existe a parcela que acredita ser inadmissível dois homens resolverem esse conflito de forma tão deselegante.

As piadas com Jada Pinkett Smith

Aparentemente, as piadas de Chris Rock não são novidade para Jada Pinkett Smith. Até alguns anos atrás, a relação entre o casal Smith e Chris Rock era amigável, mas, segundo a Rolling Stone, isso teria mudado depois de outra piada de Rock sobre Jada no Oscar de 2016. Na ocasião, a atriz teria boicotado o evento por conta da falta de representatividade no evento. O comediante fez então uma piada dizendo que ela nem mesmo havia sido convidada. 

É difícil dizer que uma inimizade teria surgido nesse momento, mas o fato é que a reincidência de piadas com sua esposa fez com que Will estourasse. A insensibilidade do humor de Rock toca em feridas reais do casal. Jada Smith está com os cabelos raspados em razão da alopécia, doença autoimune que causa calvície.

Portanto, faz sentido os Smith terem se abalado com a piada sobre uma questão tão delicada como um problema de saúde. No vídeo, vê-se que Will ri da piada. Quando ele percebe a desaprovação de Jada, que revira os olhos, entretanto, sobe ao palco e toma a atitude que marcou o Oscar 2022. 

Nesse contexto, a polêmica toma um novo foco: qual foi o destaque que Jada, a mulher ofendida e o centro da discussão, recebeu da mídia e do público? Muitos levantaram a pergunta depois de perceberem que as manchetes se voltaram totalmente para a questão entre os dois homens, e apagaram Jada. Will chegou a fazer seu discurso justificando a própria atitude e pedindo desculpas, mas a causa de todo o conflito — uma piada maldosa — não teve retificação. Num momento em que representatividade é pauta constante, como pode uma mulher negra, tendo sido ofendida por causa de sua patologia, ter sido esquecida por todos e não receber sequer um pedido de desculpas?

Segundo a US Weekly, Jada não se irritou com a atitude do esposo, mas ambos reconhecem que houve exagero, e ela gostaria que a briga entre os dois homens não tivesse acontecido. 

Consequências e o futuro de Will

Independente da legitimidade da agressão e de todos os debates que sucederam ao ato, Will Smith não saiu impune. A primeira ação repercutida foi uma possível devolução do prêmio de melhor ator que Smith recebeu na noite da cerimônia. Todavia, revelou-se que a chance de isso ocorrer era mínima, conforme prevê o regulamento da Academia. 

Historicamente, a Academia nunca desistiu do prêmio de nenhum de seus ganhadores. O produtor Harvey Weinstein, acusado de mais de 10 casos de abuso sexual, não perdeu a estatueta que venceu por “Shakespeare Apaixonado”. Tampouco Roman Polanski ou Kevin Spacey tiveram seus prêmios cancelados. A permanência destes homens como votantes, contudo, foi contestada. Após as denúncias de assédio, através do movimento #MeToo, tanto eles quanto outros acusados foram expulsos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. 

Will Smith, apesar de não se enquadrar entre este malfadado grupo, foi convidado a se retirar da Academia. Para não passar pelo processo de expulsão, o ator renunciou sua posição de membro no domingo (3/04), uma semana após a premiação. “Eu traí a confiança da Academia. Eu tirei de outros indicados e vencedores a oportunidade de celebrar e ser celebrado pelos seus trabalhos extraordinários”, declarou em nota. Na prática, o desligamento do ator da Academia significa apenas que ele não poderá mais votar, mas ainda pode ser indicado e ganhar os prêmios, apesar do desgaste de sua imagem. 

As consequências mais imediatas e financeiramente perceptíveis foram o cancelamento de algumas produções estreladas pelo ator. A Netflix pausou a produção de “Fast and Loose”, filme que teria Smith como protagonista. Foram engavetados também o filme “Bad Boys 4”, que estava em desenvolvimento, e a série da Apple TV+ “Emancipation”, que mesmo em pós produção não teve sua data de lançamento divulgada,  em razão da recente polêmica. Além do cancelamento de projetos, as últimas notícias apontam que para controlar seu “acesso de raiva”, Will Smith se internou voluntariamente em uma clínica de reabilitação. 

É possível imaginar que a repressão ao tapa tenha sido uma tentativa de repúdio à violência tão marcante na cultura estadunidense, famosa pelo bullying presente nas escolas e universidades. A maneira como a mídia e os famosos escolheram declarar seu posicionamento foi por meio das punições a Will, incluindo o banimento de 10 anos da Academia. Mas, tendo em vista todos esses pontos, é visivelmente desmedida a retaliação que o ator vem sofrendo. Além de todo o circo midiático que foi criado, a verdadeira vítima foi invisibilizada. Jada não teve espaço nas manchetes e pouco se questionou a agressão verbal sofrida por ela. O problema da cobertura midiática, portanto, vai muito além do tapa.

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