Arte amável, artista desprezível – um conflito em questão

É possível separar obra de artista?

Por Vitória Carmo

É árduo definir o conceito de arte, essa que acompanha a humanidade desde os primórdios, na tentativa de ser um suspiro de fuga da realidade bruta. E, apesar de muitos a considerarem fruto de técnicas, habilidades e uma inteligência estética necessária, a arte só se consagra quando posta ao público, provocando, sensações e emoções, ao ponto de criar uma conexão com alguém.

A arte não se idealiza sozinha e, por trás de cada obra, há um ser humano falho. Mas e se tais falhas não forem meros erros cotidianos e sim atos abomináveis que ferem existências e vidas específicas, até mesmo consagraram-se crimes? Como seguir consumindo algo criado por alguém assim? Este é o debate que se destaca, cada vez mais, como inevitável.

A pergunta que ecoa no mundo artístico e na sociedade que o viabiliza parece criar mais indagações do que retornos, e a resposta mais corriqueira é “depende”. Mas, depende do que? Do tipo de ligação que existe entre consumidor e arte? Ou da gravidade dos atos cometidos pelo artista?

 “Depende” é uma resposta genérica e que simplesmente não conclui nada. Independente do posicionamento, há uma inquietude dos dois lados – da parte dos que escolheram separar a obra, vemos o desconforto casual de saber que ela foi concebida por um criador indigno. E, do lado dos que decidiram renegá-la junto com quem a produziu, observamos a repressão do mínimo desejo ou memória, escondidos por sentirem-se ligados a obras e narrativas fascinantes na procura de êxtase.

Afinal, a arte é um código livre e que fala muito mais sobre a pessoa que a consome do que com o cruel humano que, em um lapso de tempo, escreveu por linhas tortas algo magnífico? Ou é uma parte intrínseca do artista e, quando se aplaude uma criação, quem recebe o triunfo através da visibilidade e sucesso é ele, e por isso, nada mais justo do que colocar ambos, criador e criação, em esquecimento?

É fácil consumir uma obra incrível com a qual você tem ligação, mas também é fácil desprezá-la se você conhecer a pessoa infeliz que a fez. E talvez o ponto seja esse: a dificuldade de ser racional quando se fala de algo que envolve sensibilidade, o que transforma essa problemática em uma disputa entre o sentimento de indignação com o criador e o afeto que temos com uma obra específica – e, mesmo que um prevaleça, ninguém sai ganhando.

Portanto, parece que o público é quem sofre mais. Ele está em um lugar onde, progressivamente, surge a necessidade de checar a história daqueles que oferecem arte, antes de se apaixonar por ela à primeira vista, sendo obrigado a repulsar algo que, no fundo, lhe faz bem. No mínimo, um jogo de contradições interessante.

Brian Sherwin, crítico inglês, conduziu uma pesquisa de psicologia para entender como as pessoas avaliam a arte ao conhecer quem a fez – um grupo de estudantes qualificam dois quadros, o primeiro foi mais admirado, o segundo mais rejeitado. Depois, ao ser revelado que o primeiro pertencia a Adolf Hitler, os pontos de apreciação diminuíram, enquanto o segundo, que foi revelado pertencer a John Lennon, recebeu mais elogios. Sherwin também citou que o público que admira as obras de Frida Kahlo apresentou aumento após tomar conhecimento da vida trágica da artista. Isso mostra que, ainda que haja uma relação estabelecida entre pessoa e obra, é possível uma repulsa ou admiração natural, a partir do conhecimento do criador.

Separar obra de artista envolve classe, raça e gênero

A discussão não possui apenas dois lados, que se respaldam em conflito de razão e emoção, ela também fala sobre classe, raça e gênero.

Afinal, quantos homens vêm à mente quando se fala de separar obra de artista? Bernardo Bertolucci, Woody Allen, Eric Gill, Caetano Veloso, Monteiro Lobato, Pablo Picasso, Roman Polanski e uma imensa lista que se segue, majoritariamente, de homens brancos que atingiram o sucesso em uma época na qual não seriam sequer colocados em julgamento por seus atos. Um poder infinito. No que tange artistas negros, pode-se citar R. Kelly, Akon, Chris Brown como exemplos. Quanto às mulheres, um exemplo atual é J. K. Rolling, autora da saga Harry Potter, mas a procura de má atitudes e comportamentos delas é mais complicada.

A autora J.K. Rowling. Foto: Getty Images

Na realidade, há um número grande de mulheres que sofreram por não terem sido separadas de suas magníficas obras, estas que foram subjugadas pelo gênero e raça de quem as produziu. Quando amplia-se o desfavorecimento para artistas negras a lista aumenta. Carolina de Jesus, Clementina de Jesus, Ruth de Souza entre outras que não podem ser citadas, porque não foram conhecidas suficientemente por suas obras para estarem aqui.

Assim, é plausível dizer que separar obra de artista é também sobre poder e conveniência. Entretanto, nesse conflito infinito que divide opiniões, independente da negação ou apreciação, o certo é que a arte tornou-se um motor que avalia a moral da sociedade, e esta, cada vez mais crítica, movimenta-se para que artistas não sejam mais ídolos intocáveis. Continuem assim. Este é o caminho.

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