Em meio a lutas e perseguição, povos indígenas querem um dia para chamarem de seu

Indígenas criticam o “Dia do Índio” e pedem que sua história seja lembrada para além dos estereótipos.

Por Lucas Guaraldo

Em abril de 1940, durante o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, um grupo formado por representantes da maioria dos países americanos votou pela criação do “Dia do Índio”. Dentre as resoluções do evento estão o “respeito por valores positivos da identidade histórica e cultural dos grupos da população da América a fim de melhorar sua situação econômica”, “adoção do indigenismo como política de Estado”. Por último, estabeleceu “o Dia do Aborígene Americano em 19 de abril”

Apesar de debaterem questões referentes aos povos indígenas, como direitos civis, delimitação de terras e resolução de conflitos, apenas Estados Unidos, México, Panamá e Chile possuíam indígenas em suas delegações oficiais. Com medo de serem ignorados, representantes indígenas boicotaram o Congresso e só após uma série de protestos, participaram ativamente dos debates. 

No Brasil, o “Dia do Índio” foi criado por decreto-lei apenas em 1943, já que o país não aderiu às deliberações do Congresso. A participação dos povos indígenas na criação da data foi mínima, sendo esse um projeto defendido especialmente por Roquette Pinto, pai da radiodifusão no Brasil e representante do país no congresso, e Marechal Rondon, engenheiro militar e indigenista.

Mas qual o problema?

Daniel Munduruku, doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor de mais (Mais de uma pode ser 10, 20, 40… Precisamos de um número aproximado. Uma dezena ou duas dezenas, ou algo que o valha. dezenas de livros infanto-juvenis, afirma que o termo “índio” remonta a preconceitos, como a ideia de que o indígena é selvagem e um ser do passado, e ajuda a esconder a diversidade dos povos indígenas, tratando como unitário um grupo infinitamente diverso e diferenciado.

Além disso, segundo Daniel, o “Dia do Índio” serve apenas para reforçar uma série de estereótipos e mentiras referentes aos povos indígenas. Nas  escolas, por exemplo, é comum que o dia seja “celebrado” com pinturas faciais caricatas, cocares e ocas retiradas diretamente de filmes de velho-oeste norte-americanos dos anos 60. 

Em entrevista para a BBC, concedida no dia 19 de abril de 2019, Daniel afirma que celebramos “uma ideia folclórica e preconceituosa. A palavra ‘indígena’ diz muito mais a nosso respeito do que a palavra ‘índio’. Indígena quer dizer originário, aquele que está ali antes dos outros. As pessoas acham que é só uma questão de ser politicamente correto. Mas, para quem lida com palavras, sabe a força que a palavra tem.”

Ou seja, além do uso de termos pejorativos e antiquados, a própria celebração do “Dia do Índio” serve para alienar as populações que pretendem representar. Esse processo, por exemplo, é extremamente comum em veículos de imprensa e em filmes que se propõem a representar esses povos. 

Em 2019, a deputada federal Joênia Wapichana (REDE-RR) apresentou um projeto de lei que muda o nome do “Dia do Índio” para “Dia da Resistência dos Povos Indígenas”. Em 2021, o projeto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, mas ainda não seguiu para votação no Senado. Precisa ver isso aqui direito. Depois da Comissão o projeto tem que ser votado e aprovado em plenário da Câmara. A não ser que seja um projeto terminativo. 

Na imprensa

Através de protestos e declarações como as de Daniel Munduruku, povos indígenas têm feito com que a imprensa lentamente substitua termos preconceituosos em suas matérias, mas alguns setores são mais resistentes a uma mudança de linguagem e atitude, ainda tratando povos indígenas como exóticos e atrasados, ou mesmo, como pedra no sapato do avanço econômico brasileiro.

Em coluna na Folha de S. Paulo, Thiago Karai, liderança da Terra Indígena Jaraguá (SP), critica a forma como uma série de violências sofridas pelo seu povo foram naturalizadas. “Acho que a imprensa contribui muito para o racismo, principalmente quando querem mostrar o indígena de uma só forma. Já recebi muito convite assim: A gente quer gravar com você, você pode se pintar? Pode vir sem camisa, pode colocar uns colares? Por que eu não posso ser simplesmente eu?”

Ela acrescenta: “Enquanto a imprensa não estiver mais presente na nossa realidade, ela não vai contribuir para um bem viver, ela vai contribuir para o capitalismo, para a ideia do capitalismo, que é a riqueza. E a riqueza não traz muita coisa além da destruição”.  

Nesse sentido, projetos de comunicação comunitária, como o “Copiô, parente”, e influenciadores digitais, como Alice Pataxó, Txai Suruí e Cristian Wari’u têm obtido sucesso na produção de conteúdos feitos por e para indígenas.

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